segunda-feira, 11 de maio de 2009

Que história é essa de fair-play?

por Júlio Canuto

Futebol é mesmo algo contraditório. Talvez seja o único esporte que o melhor time tem grande possbilidade de sair perdedor, assim como provavelmente o único que não se tem a obrigação de atacar. Nada na regra impede que o time fique tocando bola entre a defesa e o goleiro nos 90 minutos de partida, embora, claro, isso seja impossível de acontecer. O torcedor pode ficar louco de raiva se o seu time joga muito bonito mas não consegue marcar. E também pode ficar feliz da vida num jogo em que foi massacrado de dribles e jogadas bonitas mas conseguiu ter a sorte de não tomar gol e, além disso, fazer um gol também na mais pura sorte. Neste caso, não importa de que lado esteja, o relógio é o principal adversário: uns torcendo pra dar tempo de conseguirem ao menos um empate; outros torcendo desesperadamente pra que o jogo termine e o milagre aconteça de fato. Não se admite perder qualquer bola. A arquibancada, como já diria Nélson Rodrigues, é a pátria do palavrão. Parece que não há espaço para atitudes nobres, mas apenas a exigência de vencer, vencer, vencer.

No entanto, há episódios de altruísmo e humanismo extremos. Atitudes que funcionam como uma regra não-escrita. É o famoso fair-play.

A exemplo da postagem anterior, é novamente Ruy Castro quem nos conta esta historia de fair-play:

"Com toda a dureza de seus embates, Garrincha e Altair criariam, sem saber, um dos lances mais bonitos do futebol - e, desde então, incorporado às regras não escritas do cavalheirismo esportivo universal.

Foi no jogo Botafogo x Fluminense pelo torneio Rio-São Paulo de 1960, aos três minutos do segundo tempo. Numa disputa de bola com Quarentinha, Pinheiro caiu com distensão muscular e a bola sobrou limpa para Garrincha. Garrincha ouviu Pinheiro cair e gritar - e, em vez de avançar pela avenida em direção ao gol, jogou a bola de propósito pela lateral para que Pinheiro fosse socorrido.

Nas tribunas do Maracanã, o jornalista Mário Filho, ao ver aquilo, levantou-se da cadeira e exultou. A atitude de Garrincha era um
beau geste, um exemplo do espírito humanitário e não violento que deveria caracterizar o esporte. Mario Filho abraçava-se às pessoas, apontava para Garrincha e dizia alto:

'É o Gandhi do futebol! É o Gandhi!'

Mas a beleza do lance ainda não havia terminado. O bandeirinha marcara o lateral a favor do Fluminense. Altair foi repor a bola em jogo e ficou na dúvida. Aquela bola, moralmente, não era do Fluminense. Então fingiu cobrar errado o lateral e fez a bola quicar e voltar para fora, devolvendo-a ao Botafogo. Todos entenderam o que ele quis dizer.

Tal partida não merecia produzir um perdedor. Talvez por isso tenha terminado em 2 x 2."

E veja você que dia desses aconteceu um lance ainda mais inusitado no campeonato Romeno: o juiz da partida apitou penalti a favor do Rapid Bucareste, mas o atacante Costin Lazar (gravem este nome) levantou-se, correu para o juiz e disse que não havia sido falta. O juiz apenas deu bola ao chão, e o jogo prosseguiu.

Não acredita? Pois é, numa época em que o individualismo egoísta é um Valor, atitudes como esta nos parecem muito estranhas mesmo. Mas este lance você pode ver aqui:

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CASTRO, Ruy. Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha. São Paulo. Companhia das Letras, 1995

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