domingo, 28 de junho de 2009

Doutrinas*

por Júlio Canuto

continuando na Bahia...
Radical 1:

Sexta-Feira à noite, numa bela cidade da Bahia. Férias. Nada pra fazer... Caralho, só de pensar que vim até aqui só pra isso: não fazer nada. Insano e maravilhoso!

Andar, conhecer o lugar, os costumes, beber, papear e por aí vai. Sol, mar, tranquilidade. A cidade é pequena e aconchegante. As praias são maravilhosas e a noite sempre há bons lugares para ir.

Estou sentado num bar-restaurante numa esquina da "rua gastronômica" do lugar e observo, do outro lado da rua, um grupo de evangélicos, conversando normalmente. Eram umas três mulheres e um homem, este levava a bíblia na mão. Fiquei encanado com a roupa delas - saias e camisas bem discretas - e , principalmene, do homem - chinelo havaiana, calça social e camisa social manga longa. Nada contra as vestimentas, a não ser pela discrepância diante de tanto calor.

Penso:

"Um lugar quente desse e o cara aí, calça e manga longa. Como aguenta?. A doutrina é mesmo muito forte, pois faz as pessoas ignorarem a própria realidade. As religiões de origem africana são muito mais apropriadas para esta região, pois incorporam o clima, a sexualidade etc. Mas veja a força das doutrinas: o cara pode ter nascido aqui, nunca ter saído daqui, mas ele assume um costume totalmente contrário."

Radical 2:

Pouco tempo depois, na mesa ao lado, um turista alemão conversa com um turista brasileiro. O assunto, de alto nível intelectual, cheio de complexidades, ruma pela filosofia. O alemão pergunta algo sobre as referências de seu interlocutor. Este apresenta apenas alemães e franceses. O gringo faz uma certa cara de decepção e segue na conversa, perdendo consideravelmente o interesse.

Penso:

"Doutrinas de todas as espécies. O gringo chega aqui querendo consumir o país, a cultura, os costumes, os cheiros, as mulheres e as idéias. Mas na conversa com um brazuca - provavlemente formado numa grande universidade - ouve referências todas já conhecidas dele. NENHUMA NOVIDADE! Porra, tudo bem que a filosofia pretenda ser universal, generalizante (como o querem, aliás, todas os outros ramos das ciências humanas), mas péra lá, Kant quando escreveu não saiu da cidade dele, Nietzsche não conheceu o Brasil, não conheceu a Bahia. O que se produz aqui? Quem fez profundas reflexões, como essas dos alemães, com a cabeça no Brasil?"

Bom, quem souber, se quiser deixe a dica nos comentários. Para esta postagem basta dizer que:

EIS DOIS CASOS QUE COMPROVAM A IMBECILIDADE DAS DOUTRINAS!
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*texto de março de 2009.

2 comentários:

Clau disse...

Por partes,concordo que as religiões providas ou com influência africanas seriam mais "apropriadas", e bem mais bonitas (exóticas)aos olhos do turista. Mas aí fico com a antropologia,que, diferentemente da sociologia, é a ciência do observado, e não do observador. Para mim, não cabe a nos "julgar" as decisões do observado. Até porque nosso mundo não é tão distante assim, quem nunca vestiu terno, sapato, meia fina para atender as exigências do trabalho em dias pra lá de 'tropicais'?
Seria maravilhoso se o brasileiro tivesse dito que suas referências eram brasileiras, mas o conhecimento vem do acúmulo e somos periferia, não vejo problema nisso, o triste foi ele não ter dito pelo menos uma...rs.
Sempre bom passar por aqui.
Inté!

PuLa O mUrO disse...

Clau, sua observação sobre a utilização de trajes específicos a trabalho é bem conveniente. Temos até um ecelente artigo seu neste blog. Porém - como você já sabe -, vejo a observação antropológica como algo excessivamente relativo (hehehehe). Creio que isso gere um certo conformismo para situações contrárias à nossa cultura (e como cultura falo da relação natural do homem com o meio, para além dos valores).

Sobre a religião, não pensei no olhar do turista para ela. Trata-se apenas de uma opinião pessoal.

Grande abraço! Sempre bom receber sua visita e comentários.

Júlio Canuto