quinta-feira, 25 de junho de 2009

Escrever pra que?

Questionamentos levantados por um cd player furtado.

por Leonardo André


Antes de começar a escrever sobre qualquer assunto sempre me pergunto para que, diabos, vou escrever.


A incapacidade de compreender a realidade ao redor causa ansiedade, angústia. Alguns fatos e situações parecem certos, outros errados, uns bons outros maus.


Digo “parecem”, pois na hora de escrever, de desenvolver um assunto percebo que existe sempre algum grau de relatividade. Existe sempre o dilema:


É certo?

Talvez...

É errado?

Talvez!


Esse blog está repleto de críticas ao consumismo. Também costumamos criticar a cultura do automóvel. Acreditamos que o ser ainda é mais importante do que o ter, mesmo que seja exatamente o oposto o que vemos prevalecer na sociedade. O consumo está cada vez mais em alta, inclusive sendo apontado como a melhor opção para escaparmos da crise que vem abalando a economia global. O automóvel é um dos itens de consumo mais importantes nesse contexto. Mas a cultura do automóvel é uma das maiores desgraças em termos ambientais! É um dos maiores vilões... Por outro lado, eu tenho meu próprio automóvel. Tudo bem que eu utilizo muito pouco. Pra trabalhar, por exemplo, utilizo transporte público ou minha bike. Mesmo assim, fato é que tenho algo que costumo criticar...


Daí minha dificuldade em escrever, a realidade é muito complexa para ser explicada em palavras, em textos. Veja, eu sou contrário ao consumo exacerbado, fútil. Mas em meu carro havia um cd player e mais alguns itens que proporcionavam qualidade razoável de som. Sei que essas coisas são fúteis, mas às vezes nos permitimos certos luxos. Outro dia deixei o carro estacionado enquanto comemorava o aniversário de uma prima junto com mais um monte de gente bacana, parentes e amigos. Na hora de ir embora, a desagradável surpresa: a porta do carro estava arrombada. Tive o som do meu carro e mais alguns pertences furtados, entre eles um livro do Sartre e outro do Vigotsky que eu peguei emprestado na biblioteca da faculdade (será que entre uma cachimbada e outra esses nóias lerão O Existencialismo é um Humanismo? Quem sabe...).


Esse conflito é normal, estamos sempre aprendendo. Criticamos as instituições, criticamos os costumes etc., de repente somos tomados por situações que geram questionamentos aos questionamentos. Essas instituições e costumes que questionamos são os mesmos que antes ofereciam parâmetros de ação para os indivíduos. De tanto serem postos à prova, hoje muitos destes valores de outrora já não valem muito mais e, por vezes, nos vemos no mato sem cachorro...


O sujeito que arrombou meu carro desejava algo (acredito que drogas) e pra ele tanto faz arrombar um carro qualquer na rua pra conseguir o que precisa. A que valores ele está apoiando sua atitude? Tanto faz pra ele, quais são os valores que ele deveria seguir, afinal? Suprir uma necessidade comum ao seu grupo social de nóias ou a necessidade física de substâncias químicas, são hipóteses bastante prováveis. E são necessidades acima dos valores do outro, invariavelmente tido como coisa em tempos de modernidade tardia. Os valores estão mudando e nós precisamos nos acostumar com novas perspectivas (e feliz de quem ainda as tenha!). O som do meu carro virou fumaça, já era. No final das contas fui vítima duas vezes: primeiro, do fetiche da mercadoria; depois, do ladrão. Lá vem o dilema: devo desejar que a Rota de cabo a esses indivíduos ou devo ter a sensibilidade de perceber as limitações existenciais de alguém que vive de pequenos furtos?


E é pra colocar as idéias minimamente em ordem que eu escrevo. Quando releio meus textos não vejo nada sociológico ou, sequer, filosófico. Vejo apenas um rascunho da realidade. Não acho mesmo possível ser diferente, afinal minha subjetividade é nada mais que sombra da realidade objetiva e concreta a qual estou inserido. Entender essa realidade é utópico. Acreditar que poderia dar conta de tamanha incumbência seria ingenuidade minha – esta tarefa eu delego aos dogmáticos. Prefiro reconhecer que o que sei é que nada sei.


***

Um comentário:

Audrey Carvalho Pinto disse...

... seu texto veio em boa hora!
essas questões borbulham dentro de mim... e de fato meu caro, a única coisa que (também) descubro cada vez que coloco tais ideias em pauta, é que não sei de porra nenhuma!

Curti demais teu blog!
mto bom parabéns!