quinta-feira, 23 de julho de 2009

João e a quadrilha (e a falta de rima)

por Júlio Canuto*
Senador não pode ter parente chamado João... ou isto pode ser uma manobra?
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João é nome popular, de gente “do povo”. Manuel Bandeira já versava sobre a triste vida de João:
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João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
.Ontem, no entanto, li uma notícia que só não é hilária porque é trágica. Aliás, quem ria era um certo João nada popular.
.Noticiou o Estado de São Paulo que o neto do (han, han) “digníssimo” presidente do Senado, José Sarney, (PMDB - eleito pelo Amapá provavelmente sem nunca ter colocado os pés lá), o estudante João Fernando Michels Gonçalves Sarney, é funcionário fantasma do gabinete do senador Epitácio Cafeteira (PTB-MA).
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Em conversa gravada de 25.03.2008, o neto do digníssimo parlamentar foi flagrado rindo da sua cômoda situação, zombando das benesses recebidas, como diz a matéria:
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"'Tu ligou pra ele e perguntou se eu tava indo trabalhar, não foi?', pergunta ao pai, Fernando Sarney, que confirma.
João, então, desfia a história: 'Pois é. Eu cheguei de viagem ontem, né, só que eu tava com dor de barriga, né (...) Passei o dia inteiro em casa, não fui nem para a faculdade. Aí me ligou a secretária (de Cafeteira), dizendo ela que era pra eu ir pra lá porque ele queria falar uma coisa comigo'. Fernando também gargalha. É quando João relata a 'peça' que Cafeteira lhe pregou repetindo o que ouvira do senador: 'Teu pai perguntou se você tava trabalhando e eu tinha que te ver pra falar pra ele.'
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Nomeado assessor de Cafeteira em 1º de fevereiro de 2007, João Fernando ficou no cargo, que lhe rendia salário mensal de R$ 7,6 mil, até 3 de outubro de 2008, quando foi exonerado por força da súmula do Supremo Tribunal Federal (STF) que proibiu o nepotismo no serviço público. Exoneração que se deu por ato secreto, para não chamar atenção. Para o lugar do estudante – vejam só! -, foi nomeada a mãe dele.
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Cafeteira ainda tentou defender o pupilo, dizendo que ele não era funcionário fantasma. No entanto assessores do gabinete, disseram não haver nenhum João entre os servidores que davam expediente ali.
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Pena o rapaz ter um nome tão comum, tão popular para exercer um cargo de assessor no senado e receber um salário desses. Se ao menos o cargo fosse de operador da cafeteira do senado, ao invés de assessor de Cafeteira. Quem sabe agora os parlamentares mau intencionados deêm nomes populares a seus parentes e os coloquem em cargos mais discretos, como este mencionado.
.Para além do João popular dos versos do Manuel Bandeira, João Fernando tem mais a ver com o João descrito por Drummond, da Quadrilha, que viajava para os Estados Unidos. Mas contrariando o poeta, João Fernando deve também ter tomado o lugar de Lili na atribuição de não amar ninguém. Nessas, lamento apenas o fato de Lula ficar defendendo o "digníssimo". Você não precisa disso, né Lula!!!


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imagem extraída do blog: ecosdaslutas.blogspot.com/
*obrigado, Clau, por me lembrar dos versos.

3 comentários:

Anônimo disse...

O bigodudo é tão cara-de-pau qto o Renan Calheiros. O filme do cara tá totalmente queimado e mesmo assim ele não pede pra sair! Será que Raymundo Faoro nunca deixará de ser tão atual!?

abraço,
léo

Clau disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Clau disse...

Sinceramente, a cassação deveria ser estendida para toda família Magalhães até a 7ª geração. Mas como conhecemos a política, o jeito é "rezar" por uma justiça divina :(.... hahaha, ri pra não chorar!