quarta-feira, 15 de julho de 2009

Michael Jackson e o fim dos Mitos

por Leonardo André

A morte de uma figura tal qual Michael Jackson sinaliza mudanças profundas de paradigmas. Para além da morte de um ser humano assistimos também a morte lenta e gradual de uma era de grandes artistas míticos. Um dia, quem sabe, deixaremos de glorificar pessoas que, apesar de um talento especial, em nada diferem dos demais.

A morte do Rei do Pop serviu como um sopro de vida para a agonizante indústria fonográfica, que aproveita o momento para vender uma caralhada de discos. Mas não se engane, essa indústria está ferida de morte desde o surgimento do fenomenal formato mp3 e de uma outra poderosa concorrência, a pirataria.

Posso estar equivocado, mas o crescimento do acesso a tecnologia veio para dar uma boa dinamizada nas bases da Indústria Cultural, que tem visto seu poder diluir-se em meio a produção artística independente (será que isso tem a ver com a cultura do faça-você-mesmo pregada pelo movimento punk lá nos anos 70?).

O baixo custo e a facilidade que novos artistas encontram para produzir e divulgar seus trabalhos apontam não só a massificação do consumo de bens culturais, mas também a massificação da sua produção. O brilho dos grandes ícones passa a ser ofuscados por uma nuvem de novos artistas. Ah, nada como a democratização cibernética do conhecimento, da informação, da cultura...

O lado bom da história é que ao invés de termos um mundo artístico com alguns poucos artistas ricos, teremos um enriquecimento do mundo artístico como todo. A Cultura vê a oportunidade de mostrar que é possível superar a acumulação capitalista, pois graças aos avanços tecnológicos democratiza tanto a produção quanto o consumo dos bens culturais.

Por outro lado, as massas, enquanto absorvem as novas tecnologias, são bombardeadas pelo efêmero, inconsistente por natureza. Os bons artistas (arrisco dizer, os artistas de verdade...) continuarão a existir, porém encontrá-los exigirá maior empenho, afinal, como dizem, o valor dos diamantes está diretamente ligado a dificuldade em encontrá-los. Receio que as massas não estejam preparadas para tal tarefa e, assim, a Indústria Cultural ainda permanecerá firme e forte por um bom tempo, entretanto, cada vez mais descentralizada. A produção aumentará em quantidade (o que é ótimo), porém a qualidade dos produtos, hum... só o tempo dirá.

Diante do cenário descrito acima, acho difícil alguém superar os números que consagraram Michael como Rei do Pop. Não que ele seja insuperável ou inigualável. Nada disso. Acredito, isso sim, que não há mais espaço para grandes estrelas como ele foi (e como poucos ainda são). Em parte pela quantidade de novos artistas surgindo a cada instante e em parte pelo enfraquecimento das outrora poderosas gravadoras.

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Sobre a democratização da produção cultural leia também: O modelo Nollywood

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