sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Obra do Acaso

por Leonardo André

Vá lá, até aquela janela. É uma bela noite, o céu está limpo. Agora olha; olha até onde seus olhos conseguirem olhar. Tem algumas nuvens e acima delas muitas estrelas; tem a Lua. Tem muito mais que isso, mas não é possível ver. Você é limitado e aquele céu é infinito. Sabe o que é o céu? Vou te dizer. O céu é o nada. Tudo que existe, existe no nada e você, meu amigo, existe no nada. Tudo que existe no nada só pode ser fruto do acaso. Por isso, take it easy, você também é fruto do acaso. O planeta que você habita é acaso. A Terra é poeira flutuando no nada, assim como as estrelas, a Lua, outros planetas e até o Sol. E sua vida não é sua vida. A vida, que anima seu corpo, é a mesma vida que move tudo o mais a flutuar no nada (esse nada que você vê pela janela – e também o que você não vê...). O fato de você pensar é um acaso. E graças ao acaso que anima nossa espécie, a vida torna-se consciente de si mesma. A vida usa nosso corpo para ter consciência de si. Mas usa por acaso, pois não faria diferença alguma se essa consciência não surgisse. E assim a vida torna-se indiferentemente consciente. Graças a cérebros iguais ao seu e ao meu a vida sabe que existe. E que existe no nada... O que você pensa ou deixa de pensar não faz a mínima diferença para o fato de você ser totalmente dispensável e inútil. O acaso por acaso teria alguma utilidade? Aliás, a maior parte dos pensamentos de nossa espécie serve muito pouco para o que quer que seja. Toda ambição, ganância, inveja, depressão, dor, angústia, medo são inúteis criações do pensamento que servem para aprisioná-lo, erguendo muros que cerceiam sua liberdade de realizar a vida que anima teu corpo, tão complexo e tão inútil. Seria mais interessante não desperdiçar sua única chance – aproveite! E esqueça esse negócio de criação divina, porque o acaso não pode ser criado. Acaso é acaso. As crenças e a fé são ficções do pensamento que te aprisionam, te limitam. Essas coisas servem pra te meter medo e te encher de culpas. Quem, afinal, pode ser culpado de algo, se todos nós estamos flutuando em meio ao nada, ao acaso fantástico de viver em minúsculos corpos perdidos no espaço, vagando pelo nada em um planeta tão vivo quanto o nosso? Aproveita que está apoiado no parapeito da janela e olha essas árvores que insistem em brotar no chão de concreto da cidade poluída pelo ir e vir motorizado dessa gente maluca por dinheiro e status. Olha as flores insistindo em cumprir sua função de atrair através da beleza a manutenção da própria espécie. A paz que envolve o processo vital das flores só é ameaçada pela sanha tacanha das pessoas. Olha os cachorros, os gatos, os pássaros e os ratos. A Terra é um organismo vivo, percebe? É uma maravilha do acaso, pronta pra ser desfrutada – entretanto é sistematicamente destruída. Aquela nuvem no céu qualquer hora precipitar-se-á. E aquela nuvem, com toda certeza, é mais importante para vida do que todos aqueles carros estacionados naquelas garagens. E você não precisa pagar nenhum carnê por aquela nuvem. Nem por essas bravas árvores que resistem nas calçadas. E nem pelas flores que vivem enquanto enfeitam, e enfeitam enquanto vivem. Obra do acaso, inútil e magnífica é a vida. Vê?


***

3 comentários:

Audrey Carvalho Pinto disse...

NOSSA! mto bom.

Lu disse...

E eu continuo acreditando no acaso...


(ótimo texto!)


Beijo!

B.Bonini disse...

O acaso, interessante. Li este post logo após publicar um poema em um dos meus blogs(http://bbonini.wordpress.com/), e o acaso, como sempre, se fez presente.

Mto bom!