terça-feira, 29 de setembro de 2009

Oportunidades em época de crises II: new deal verde

Por Júlio Canuto

imagem:http://onossodestino.blog.pt/

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Têm-se falado muito ultimamente sobre o novo keynesianismo que alguns países estão adotando para sair da crise econômica. Como keynesianismo, entende-se a afirmação do Estado como agente de controle total ou majoritário da economia, tendo o objetivo de conceder benefícios sociais, através de subsídios, que garantam à população um padrão mínimo de qualidade de vida. Sua fórmula consite em um ciclo: mais produção = mais emprego = mais renda = mais consumo = mais arrecadação para a garantia dos benefícios sociais e mais investimento na produção. Num momento de crise, como se viveu em 1929 ou nos pós-guerras, o investimento em infra-estrutura impulsionava a construção, que impulsionava a geração de postos de trabalho e a renda, daí o consumo, o lucro, a arrecadação e os novos investimentos na produção.
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Convergindo com a afirmação de que as crises se interligam nas causas e nas soluções, conforme postagem anterior, em alguns países, sobretudo na Alemanha, se desenvolveu o que se está chamando de “new deal verde”. Grosso modo, trata-se do incentivo a reformas de infra-estrutura (construção ou reforma de instituições públicas, p.ex.) como ocorreu nos EUA após a crise de 1929, só que com um diferencial que a caracteriza: o subsídio governamental a projetos sustentáveis, que não agridam o meio ambiente e, principalmente, a substituição da utilização dos combustíveis fósseis por renováveis. Parece perfeito, mas um problema se coloca neste ponto: como conciliar numa mesma sociedade o atual modelo de consumo e produção com práticas de equilíbrio ambiental?
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A resposta é: não há como conciliar!
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Nas palavras de Peter Custers, em matéria no Le Monde Diplomatique Brasil de maio de 2009:
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“De um ponto de vista ecológico, apenas uma economia ‘estacionária’ e de ‘fluxo circular’ permitiria resolver o problema do esgotamento dos recursos naturais no planeta”.
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Temos então que a saída pelo new deal verde ataca de uma só vez a questão econômica – geração de empregos e renda – e também a ambiental, com espaços ecologicamente corretos e a diminuição da emissão de gases. Por outro lado, tem-se que ao se optar por esta via, o crescimento do país vai estacionando, e daí sua rejeição por um grande número de governos.
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Do ponto de vista ambiental, a diminuição da produção é ótima, pois diminui a exploração de recursos naturais, além do impacto na questão do consumo. Aqui está seu caráter surpreendente. Chega-se às consciências através de medidas concretas que melhoram a qualidade de vida dos cidadãos.
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Neste sentido, a Alemanha é o melhor exemplo, e o mecanismo de aceitação da estratégia verde neste país é revelado por Peter Custers, na mesma matéria para o Le Monde:
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“...o consumo de energia renováveis registrou na Alemanha uma alta contínua de ao menos 1% ao ano. Em 2007, representava 14,2% do consumo de eletricidade do país. Como a utilização de energias fósseis diminuiu nas mesmas proporções, a Alemanha pode se vangloriar de ter diminuído, de maneira substancial, suas emissões de gases que causam o efeito estufa. Segundo o alemão Herman Scheer, especialista em energia, Berlim obteve, nesse campo, resultados que vão além do Protocolo de Kyoto.
Devemos olhar um pouco mais de perto o sistema alemão e ver em que medida ele pode servir de exemplo. Esse sistema apresenta três características fundamentais.
Os fornecedores de energia são obrigados por lei a comprar também de produtores de eletricidade ‘limpa’, o que atenua sua situação de dependência das multinacionais nucleares ou de petróleo.
É o governo que fixa o preço para produtores de energias renováveis, garantindo, naturalmente, que esse valor cubra os custos de produção. Os preços são flexíveis, pois são fixados em função da fonte de energia explorada. Porém, seu nível geral permanece garantido, e por um período bastante longo – cerca de 20 anos.
Enfim, os custos adicionais gerados pela produção de energias não fósseis são transferidos, isto é, repassados para todos os consumidores – inclusive para as empresas – através de uma taxa especial sobre o consumo do kilowatt/hora. Trata-se então de um sistema distributivo, no qual cabe à população assumir a escolha do desenvolvimento das energias renováveis”.

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Eu já tinha desistido da idéia de mudança, recentemente, ao escrever uma série de artigos que falavam, entre outras coisas, do consumo de produtos para obtenção de status e as cruéis conseqüências disso, fechei da seguinte forma:

será que o atual momento que estamos vivendo – que já chamei de crise de valores – é apenas o destino da humanidade em sua plena evolução? Será que seu destino (estamos cumprindo bem, neste sentido) será a sua autodestruição?
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Diante da questão, em maio encaminhei e-mail para vários amigos que moram em diferentes países, em diferentes continentes (Europa, Asia e Africa), afim de saber sobre as medidas tomadas e se o chamado new deal verde existe por lá, e de que forma. Recebi poucas respostas, mas todas muito boas, que conseguiram mostrar as maiores preocupações em cada um destes países. As próximas postagens serão estas respostas recebidas.

2 comentários:

léo disse...

Que new deal verde que nada, o que importa agora é o Pré-Sal!!!! hahaha

Vê se publica logo essas outras postagens!

Valeu!

Julio Canuto disse...

hahahahaha

verdade.Logo eu que sempre falei da questão energética e não me dava conta do que vc disse: "esqueceram os biocombustíveis, agora é só pre-sal".

Bom, nas opiniões não tem de ninguém que more aqui no Brasil. Que tal você escreer este? rs