terça-feira, 29 de setembro de 2009

Oportunidades em época de crises: problemas e soluções

Por Júlio Canuto
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H á algum tempo, falamos aqui neste blog sobre três crises que caracterizam o presente: a crise ambiental, a crise econômica e a crise de valores. Crises estas que se relacionam, uma alcançando aspectos da outra e refletindo-a. A crise ambiental refere-se sobretudo aos problemas climáticos, ocasionados pelo desmatamento e pela queima de combustíveis fósseis; a crise econômica pelo alto teor de especulação do mercado financeiro, a desregulamentação fiscal etc; por fim, a crise de valores, referindo-se ao individualismo egoísta, à sobreposição do TER sobre o SER e a deterioração das relações sociais conseqüentes destas características. É fácil achar elos entre as três crises, encontrando as características de uma que invadem a outra e, até mesmo, dão contornos definitivos.
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A crise financeira subsidia e agrava a ambiental por sua faceta de exploração, que desrespeita as fronteiras nacionais e adentra territórios em busca de lucro máximo; a crise de valores está ligada à financeira no sentido de que o consumismo é produto do contexto das sociedades capitalistas a partir da transição do modelo industrial para o de serviços e o papel que as tecnologias da comunicação alcançaram – sobretudo a publicidade. A crise de valores é ao mesmo tempo uma crise socioeconômica, pois está intrinsecamente ligada a desigualdade. Mais que isso, ao modelo assimétrico da globalização que atrela desigualdade e especulação financeira. No entanto, neste artigo vou focar a análise na crise ambiental.
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A meu ver, as saídas comumente apontadas para a crise ambiental se apóiam em basicamente três pilares, sendo que cada um deste possui seus focos particulares de ação e seus atores:
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1. Preservação das florestas. Diz respeito a territórios, que por sua vez estão dentro de Estados Nacionais. Sendo assim, tem como foco as políticas públicas e demais medidas governamentais. Os Estados Nacionais são os atores, apoiados em protocolos e resoluções internacionais;
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2. Diminuição da emissão de gases (efeito estufa). Este desafio está localizado na questão da matriz energética. O foco são os acordos internacionais e legislações nacionais. Os atores se encontram nas variadas esferas de poder: a ONU, os Estados e as organizações internacionais;
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3. Reciclagem. O foco deste pilar está nas ações de reaproveitamento de resíduos residenciais, industriais, construção civil etc, via regulação nacional, municipal e ações locais. Desse modo, os atores são os governos das três esferas, sobretudo os dos municípios, ONGs, movimentos locais e trabalhadores da coleta seletiva.
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Estes três pilares, apesar de terem sido apresentados separados, também se interligam, e é neste exato momento que temos clara a participação do cidadão. Os impactos destas possíveis ações proporcionam a interligação com as outras duas crises também para as soluções:
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1. Consumo: redução e melhora na qualidade (conscientização, educação). Seus impactos poderão ser sentidos na indústria, no comércio, nos domicílios;
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2. Urbanismo planejado: que diz respeito à saúde, saneamento, infra-estrutura etc. Os impactos estarão nas políticas públicas, no trabalho, na mobilidade, na construção civil.
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Com certeza poderia elencar outras inúmeras situações onde as crises se interligam nas causas e soluções. Para este artigo bastam os poucos acima.
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O que se tira disso é que, para se frear o consumo, é preciso uma retomada de consciência, haja vista que se trata de uma questão de Valores (sim, o consumo é o Valor de nossos dias). Digo retomada de consciência porque a vontade de consumo tal qual se apresenta hoje é nada mais que a atribuição de um valor aos objetos que eles por si só não têm, mas que se acredita que os objetos passarão este valor ao seu comprador. Portanto, trata-se de inconsciência, de fantasia, de irracionalidade, e o que se desencadeia disto não pode ser diferente. Como Valor que se tornou, o consumismo carrega uma série de comportamentos atrelados a ele, da qual a coisificação do homem é a mais perversa delas e se manifesta, sobretudo, nos atos de violência.
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No entanto, como valores não se mudam do dia pra noite, ações de ordem econômica ou ambientais, podem impulsionar esta desejável mudança. Ao se trabalhar a questão do meio ambiente de forma interligada com a questão econômica, ataca-se também a questão do consumo.
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Mas será isto possível?
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esta postagem é a primeira de uma série de, no mínimo, cinco. Continuo em breve, com citações e opiniões e pontos de vista de pessoas em outros países.

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