terça-feira, 27 de outubro de 2009

Rio 2016

por Júlio Canuto.
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Nos próximos anos, o Brasil e, em especial, a cidade do Rio de Janeiro, será o foco das atenções de empresas, governos e pessoas ligadas ao esporte. A Copa do Mundo de 2014 em território nacional e as Olimpíadas de 2016 na bela terra carioca receberão profissionais, investimentos, especulações, boas e más intenções. E quais os desafios que a cidade irá enfrentar depende dos objetivos a que ela se propõe alcançar.
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As Olimpíadas - não tenham dúvida - ocorrerão na maior tranquilidade e com tudo muito bem feito, muito bem organizado (não estou falando dos bastidores). EStima-se que a capital carioca irá receber cerca de US$50 bilhões, algo em torno de R$ 80 bilhões (eu disse BILHÕES, com "B"*).
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Após a festa emocionante de toda a comitiva brasileira em Copenhagem, prefeito, governador e presidente trataram de arregaçar as mangas e planejar. O que é louvável, mesmo tendo a consciência de que o evento não ocorrerá sob sua gestão (e no caso das esferas estadual e federal, nem nas dos próximos governantes).
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A prefeitura do Rio criou o site Transparência Olímpica, que pretende divulgar todos os passos dos preparativos, desde o projeto vitorioso, até as chamadas para licitações, objetivos e valores de cada contrato, assim como o acompanhamento das obras e serviços contratados.

O link "monitoramento" traz os contratos já feitos e os que estão em andamento: http://www.transparenciaolimpica.com.br/monitoramento/. Mas apesar da empolgação, os projetos colocados no ar parecem ainda bastante tímidos para o tamanho da empreitada.
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A página citada tem em seu menu a opção "legado", que significa deixar, transmitir. Faltam AINDA 6 (seis anos) para o início do evento. Parece pouco para tantos problemas que a cidade enfrenta, mas se pararmos um pouco para pensar, veremos que este tempo pode possibilitar mudanças concretas na sociedade. Neste sentido, os dois focos principais são educação e trabalho (renda). Não acrescento segurança** (tido como o mais importante para muita gente) porque penso que isso é consequencia de políticas de longo prazo, que terão melhores resultados se os dois pontos colocados forem bem trabalhados.

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A educação nacional tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. O trecho em itálico faz parte da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) no. 9394/96, documento principal que rege a educação no país.
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Neste mesmo texto da LDB, em sua terceira seção, temos:
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"Do Ensino Fundamental

Art. 32º. O ensino fundamental, com duração mínima de oito anos, obrigatório e gratuito na escola pública, terá por objetivo a formação básica do cidadão, mediante:

I - o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo;
II - a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade;
III - o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores;
IV - o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social."
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Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996.
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Oito anos é o tempo previsto para formar um cidadão (ou deformar uma vida, como acontece em vários casos). Isto siginifica dizer que até os jogos olímpicos, teremos já uma nova geração de cidadãos. Que tal se as crianças até 14 anos e suas famílias fossem o principal alvo destas ações que se iniciam em 2010? Estamos cansados de saber que os jovens estão entrando para o crime cada vez mais novos, antes mesmo de formarem-se cidadãos, absorvendo conceitos distorcidos pela falta de investimento e trato do poder público e pelas condições de vida em família - e isto, de forma alguma, se restringe as família carentes.
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Postos de trabalho, nas mais diversas áreas, serão abertos. Precisamos tomar consciência de que investir na cidade, deve ser lido como investir nas pessoas que moram nesta cidade e que fazem dela o que ela é. E isso implica em qualificar mão-de-obra para que tantos os pais, como seus filhos que em 2016 estarão iniciando no mundo do trabalho, tenham boas oportunidades. Além disso, deve-se ampliar vagas em creches, sempre escassas, problema este encontrado em todo o país. Enfim, desenvolver ações integradas, que abracem as famílias e as ajudem nestes principais fatores. Há inúmeros trabalhos e exemplos de políticas públicas com este perfil, basta a vontade política de querer realmente fazer, uma vez que dinheiro não será problema. Dessa forma, os moradores do Rio poderão ao mesmo tempo trabalhar na melhoria da infraestrutura e desfrutar desta melhoria.
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Por enquanto, o único projeto voltado para as crianças refere-se a intensificação do ensino da lingua inglesa nas escolas públicas. É muito pouco para quem fala em "legado dos jogos olímpicos". E assim as olimpíadas acontecerão com o mundo aplaudindo, mas depois voltando tudo à mais cruel realidade, de forma medíocre nos orgulhando das histórias de superação de atuais atletas que passaram infância de privações, sem questionarmos a lógica social que faz com que milhões de pessoas vivam com privações graves.
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O Rio não pode repetir erros históricos que marcaram a formação da sociedade, como tão bem descreveu José Murilo de Carvalho no clássico "Os bestializados"***, e que até hoje assistimos e sofremos os desdobramentos: políticas de exclusão e repressão, criando rancor e ódio ao poder público pelos que sofrem com estas políticas.
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*referência ao jornalista Aloísio Biondi, que sempre utilizava a expressão colocada aqui entre parentesis quando se referia a gastos, recebimentos ou investimentos do poder público, como forma de dar enfase aos valores que, muitas vezes, escoavam para o ralo.
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**na opção segurança do site citado, as ações em destaque do chamado Programa Nacional para Segurança Pública e Cidadania (Pronasci) são: Aumento das tropas das polícias civil e militar; Treinamento intensivo das polícias civil e militar; Melhoria nos sistemas de treinamento da polícia.
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***Resenha de Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi, em http://pulaomuro.blogspot.com/2006/06/os-bestializados.html .

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