terça-feira, 24 de novembro de 2009

A ilha da fantasia

por Júlio Canuto.

Ao andar por Brasília, de cara o visitante percebe duas coisas: 1. que Oscar Niemeyer encarnou o espírito do desenvolvimentismo industrial, do concreto, e excluiu por completo as árvores de seus projetos. Arquitetura infelizmente sem sombras do lado externo e, mais infeliz ainda, sem transparência do lado interno; 2. que esta cidade é só pra quem tem dinheiro, e muito.

Com isso, a boa impressão do planejamento se perde.

No meu caso, pior ainda, por ter ido praticamente direto do Rio - local onde vi tanta desigualdade e necessidades - pra lá. Mas nem vou me estender nos comentários. A travessia dessa ponte do Rio a Brasília fica apenas nas poucas fotos acompanhadas de trechos da letra e música "a ponte", de Lenine e a providencial participação de Gog, rapper brasiliense, nesta música.
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nuvens carregadas sobre o poder

Como é que faz pra lavar a roupa?

Vai na fonte, vai na fonte
Como é que faz pra raiar o dia?
No horizonte, no horizonte
Este lugar é uma maravilha
Mas como é que faz pra sair da ilha?
Pela ponte, pela ponte...


...mas a ponte da capital é demais

Projetada para aproximar
Do centro o São Sebastião, o lago e o Paranoá
Desafogaram o tráfego na região
Visitantes de chegada, nova opção

Fique ligado, acompanhe passo a passo
Condomínios luxuosos de todos os lados
O Congresso e o Planalto colados
"aqueles barracos ali ó, vão ser retirados"

A ponte é luxo, nada é mono, só estéreo
Mil e duzentos metros, louco visual aéreo
Quem sobe só pra regular a antena
Reforça as pontes de safena

A ponte começou depois, mas terminou
Bem antes que as obras do metrô
Quem mora fora do avião
Bate palma, aplaude, apóia, pede diversão

A ponte é muito, muito iluminada
O pôr-do-sol numa visão privilegiada
O povo quer passar, vê nela algo místico
A ponte virou ponto turístico

A ponte é um vai e vem de doutor
Tem ambulante, tem camelô
Olha pra baixo, vê jet-ski e altos barcos
Olhe pra cima, lá estão os três arcos

A ponte saiu do papel, virou realidade
Novo cartão postal da cidade
Um quer transformar ela em patrimônio mundial
Um outro num inquérito policial

Então, na sua opinião leitor, avalie:
Tá normal ou existe crime?
Se souber o caminho da rocha, me aponte
É... a ponte simboliza união
No nosso caso, Brasília e o sertão
É do vermelho, do azul é de cada elemento
Leva o nome de JK
Que transferiu a capital do litoral pra cá

Lenine, te peço mais um favor (diz aí)
Cante a origem deste preto que se apresentou
(nagô, nagô, na Golden Gate...)
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(quem foi?)
O projeto é do arquiteto Alexandre Shan
(Comprasse, pagasse?)
Todas as contas foram aprovadas pelo TCU
(me diz quanto foi)
164 milhões de reais
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Fazendo uma ponte com as comundades do Rio (e a postagem anterior), uma simples conta: cerca de 10 mil famílias a serem visitadas em pouco mais que 30 comunidades. Renda máxima de 5 salários mínimos: R$465, x 5 = R$2.325,00. Comparando valores: o da ponte R$164.000.000, / pelo rendimento máximo das famílias R$2.325, = 70.538 rendas de até 5 salários mínimos. Sendo 10.000 famílias, temos SETE MESES de renda destas família, alocados na ponte.
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Impressionou? Pois é muito pior.
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Este limite máximo de 5 salários mínimos está bem acima do rendimento real. Sendo assim...
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COM CERTEZA, O DINHEIRO GASTO NA PONTE DA CAPITAL COBRE TRANQUILAMENTE O RENDIMENTO DESTAS 10 MIL FAMÍLIAS POR, NO MÍNIMO, UM ANO E MEIO.
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Sem entrar no mérito de conferir os dados oficiais, e chutando que a média de moradores por residência é de 4 pessoas, temos então que esse valor é o mesmo que sustenta 40.000 pessoas em 18 meses.
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A ponte não é de ferro, não é de concreto
Não é de cimento
A ponte é até onde vai o meu pensamento
A ponte não é para ir nem pra voltar
A ponte é somente para atravessar
Caminhar sobre as águas desse momento
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Desculpe-me, Brasília, obras como esta são feitas por todo o país - aqui em São Paulo mesmo temos inúmeros exemplos, como o Tribunal de Justiça do Trabalho e até uma ponte também, a estaiada, que custou quase o dobro -, mas foi esta a cidade que visitei logo após a experiência carioca.

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