sábado, 21 de novembro de 2009

Um cotidiano carioca

por Júlio Canuto
clique nas fotos para ampliá-las
.
Conheci a cidade do Rio de Janeiro há pouco tempo, cerca de um mês. No entanto, vivi seu dia a dia. Paulistano que sou, não fiz questão de ir à praia. Aliás, à praia fui uma única vez - só pra dizer que fui - e me senti como o poeta mineiro Drummond, que de calça e sapato, de costas pro mar de Copacabana, parece deslocado.
Rio de praia, mar e céu azul, já é do conhecimento de todos pelas novelas e fotos de revistas. No meu caso, queria conhecer o Rio da massa, até mesmo pelo trabalho que fui fazer. O Rio que aqui apresento era meu trajeto.
.
Rio conflituoso. Para além das milícias, tráfico e polícias, as diferentes políticas e pontos de vista (de visitante, morador ou turista). Ritmo diferente de São Paulo, e não só no samba, mas no modo de ser. Pessoas que falam de forma direta, não escondem sentimentos. População pacífica, por tanto descaso que o Poder Público lhe faz, porém não iludida, gente que corre e vai atrás, infelizmente sempre atrás. Oposto do esteriótipo do carioca que ronda o Brasil afora. No subúrbio feito de trabalhadores, em um, dois e até três empregos. Embora muitos (acredito que a maioria) sem o registro em carteira. A Copa do Mundo e as Olimpíadas não trazem esperanças a ninguém.
.
Bairros esquecidos nos morros onde não chega saneamento, não chega iluminação, não chegam médicos nem assitência social, não chega caminhão de gás, não tem comércio e as escolas estão distantes. Uma cena me marcou: uma moça, nova e provavelmente já mãe e dona de casa, sobe o morro carregando um botijão de gás no braço. Outra senhora me fala que tem vontade de deixar as compras "lá embaixo", tamanha a dificuldade de subir aquelas ruas: "ah, seu moço, cansa demais".
Os que descem e encontram trabalho, sofrem na desorganização da Central do Brasil, tendo que esperar frente a uma tela a informação de onde partirá o trem, enquanto as plataformas vazias aguardam a correria das pessoas que ainda têm que passar por isso, todos os dias, depois de tanto trabalhar. E o trem demora, e por isso se empurram, superlotam. Mas ainda há espaço para as vendas legais e ilegais. Desde jornal, doces e água, até cintos, ferramentas e facão!
Distraio-me das conversas no vagão e uma música vem à cabeça: "lá não tem moças douradas expostas. Andam nus pelas quebradas, teus exus. Não têm turistas. Não sai foto nas revistas. Lá tem Jesus, e está de costas". Chico Buarque acertou em cheio com essa imagem. Vejo Cristo de costas enquanto sigo pelas estações Engenho de Dentro, Madureira, Deodoro, Ricardo de Albuquerque...
.
Mas volto pra minha casa provisória, na Lapa, que de certo modo é um local democrático. Diversão para todos os gostos e bolsos. As ruas repletas de táxis, que chamam a atenção por sua cor amarela. Durante o dia restaurantes, farmácias, lojas de móveis, mercados. À noite bares, sambas, velhos e moços de várias regiões da cidade, prostitutas, turistas, amizade: tudo dividindo espaço na Mem de Sá. Às vezes compro cerveja do ambulante, e na calçada aproveito o samba de algum bar aberto, só pra não pagar couvert. Mas na sexta é de lei: Grupo Semente & Teresa Cristina no Carioca da Gema. O valor da entrada é barato pela qualidade do espetáculo e a casa tem clima acolhedor, o público canta junto, todos juntos.


Domingo, meu único dia de folga, há várias opções. Os parques para quem quer tranquilidade. Santa Teresa pra quem quer um passeio completo, recomendo o que todos já sabem: pegar o bonde no centro e fazer todo o trajeto pelo bairro e na volta descer no Largo dos Guimarães, almoçar uma bela feijoada no Bar do Mineiro, papear, e pra arrematar, uma passada no Largo das Letras para ouvir um ótimo samba.

Em outro domingo, um lugar que não é opção, é obrigação: ir ao Maraca, arrepiar-se com a torcida e suas bandeiras.
Enfim, o Rio que conheci no meu trajeto reproduz a dinâmica político-social brasileira. Instituições que prezam pela hierarquia - às vezes demasiada - e uma massa que vive à margem, sem ser respeitada nos seus direitos básicos. A violência que estampa nas manchetes de jornais e causa alarde em programas sensacionalistas, é compreendida em um único dia pra quem procura viver a realidade carioca, transitando pelas várias regiões da cidade, se servindo dos serviços públicos, convivendo com as desigualdades. Os extremos estão postos no Rio, de forma mais evidente que em São Paulo, convivendo numa espécie de pacto, com espaços demarcados.

O Rio apaixona e choca, realidade que alegra e incomoda.

Um comentário:

B.Bonini disse...

Mto bom mano! adorei...