terça-feira, 8 de dezembro de 2009

As traças cordelistas

por Julio Canuto.
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"acordei, reuni os pedaços de pessoas e de coisas,
pedaços de mim mesmo que boiavam num passado confuso"
(Graciliano Ramos, em Infância)

Grosso modo, literatura de cordel é
"um tipo de poesia popular, originalmente oral, e depois impressa em folhetos rústicos ou outra qualidade de papel, expostos para venda pendurados em cordas ou cordéis, o que deu origem ao nome que vem lá de Portugal, que tinha a tradição de pendurar folhetos em barbantes. No Nordeste do Brasil, herdamos o nome (embora o povo chame esta manifestação de folheto), mas a tradição do barbante não perpetuou. Ou seja, o folheto brasileiro poderia ou não estar exposto em barbantes. São escritos em forma rimada e alguns poemas são ilustrados com xilogravuras, o mesmo estilo de gravura usado nas capas. As estrofes mais comuns são as de dez, oito ou seis versos. Os autores, ou cordelistas, recitam esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados de viola, como também fazem leituras ou declamações muito empolgadas e animadas para conquistar os possíveis compradores". (definição do wikipédia. Veja mais clicando aqui)

No Brasil, e mais especificamente no Nordeste, o cordel é (ou foi?) uma das mais importantes formas de expressão popular por seu enorme alcance nas feiras, dado o formato em versos, rimas e ritmo, podendo ser lido ou cantado.

Meu avô paterno, de nome Sipriano, viveu em Palmeira dos Índios, cerca de 2 horas de Maceió, capital de Alagoas. Devido ao trabalho pesado na roça que exerceu desde muito cedo, acabou adoecendo. Quando adulto, já chefe de família, mas ainda não velho, suas pernas atrofiaram, e ele passou o resto de sua vida olhando o mundo da varanda de sua casa. Esse modo de vida não era, no entanto, motivo pra se queixar. Apesar de permanecer sempre ali, viajava o mundo todo lendo livros, revistas e, sobretudo, muita literatura de cordel. E não viajava sozinho. Como lia muito bem, sua casa era visitada por outros tantos moradores da vizinhança, que nos 1940 e 50, o tinham como o grande entretenimento (e até fonte de informação) às tardes.

Todos gostavam de ouvir os cordéis, os desafios. Amigos seus que foram pra São Paulo, Rio de Janeiro e capitais nordestinas como Fortaleza e Recife, atrás de trabalho, compravam e lhe enviavam novos folhetos.

Dizem que juntou cerca de 1.200 folhetos.

Acontece que a história de seus filhos não foi diferente da de seus amigos - e da maioria dos jovens da cidade. Logo na adolescência saíram de Alagoas e viajaram a São Paulo e Rio em busca de trabalho e do que consideravam melhores condições de vida. É verdade que conseguiram um tipo de conforto que lá em Alagoas não teriam. São Paulo tinha trabalho a todos que vinham. Os padrões de consumo deles foram se diferenciando do que estavam acostumados no interior de Alagoas. Deixaram os livros escolares lá mesmo em Palmeira dos Indios. A intenção destes filhos, a partir daí, era enviar-lhe dinheiro, não mais cordéis. Os cordéis que faziam a alegria sua e dos vizinhos, após sua morte nos anos 1960, ficaram num baú. Na capital paulista, os filhos substiruíram os livros pelo rádio e depois pela TV. A cruel TV, que para muitos é a única companhia.
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Mesmo assim, os versos dos cordéis ficaram na cabeça dos filhos. Vivos! Tão forte é esta tradição oral.

Neste ano, eu, um dos netos de Sipriano, quis saber onde estavam os cordéis; se alguém estava cuidando. Meu pai, um dos filhos de Sipriano, viajou a Palmeira dos Indios com esta missão. Durante estas décadas, na falta de um devorador de cordéis falante, e de ouvintes atentos, as traças tomaram conta, comeram quase todos e saíram por aí, cheias de versos, rimas, desafios, histórias e lendas. Pouco restava dos folhetos.

Destes poucos folhetos que ficaram, oito chegaram em São Paulo, sendo três do mestre João Martins de Atahyde: O Monstro do Rio Negro (1945), A Garça Encantada (1952) e O peso de uma mulher e A cura da quebradeira (ambos de 1939). Deste ultimo, deixo alguns trechos, onde preservei a grafia original:

Um quengo, mestre dos quengos,
Adoeceu da algibeira,
Encerrou-se n´um convento,
Estudou de tal maneira,
Que descobriu um remedio
Para curar quebradeira.

Eu provo com muita gente,
O remedio não é máo,
Já conheci um doente
Mais mole do que mingáo,
Só não digo o nome dele,
Porque não quero ir ao páo !...

Já parecia um cadaver,
Só tinha o couro e o osso,
Tinha tisica na algibeira,
Uma inflamação no bolço,
Com três doses do remedio

Está gorto, robusto e moço.
(...)

Mais adiante, um outro
que também tomou o remédio

A quebradeira de Chico
Estava inflamado e ruim
No sujo da roupa dele
Estava nascendo capim
E no fundilho da calça
Tinha casa de cupim.

Porem usou o remedio,
O cupim se retirou,
O capim da roupa dele
No mesmo instante secou
É hoje um milionário
Com tres doses que tomou.
(...)

Mas é preciso tomar alguns
cuidados junto com o remédio.
Pois há efeitos colaterais,
dentre os quais: ir pra cadeia (!?)

Esses que estão na cadeia,
Não aplicaram o cuidado,
Só estudaram o remedio,
Mas não cumpriram o resguardo,
Tomando ele no publico,
Torna-se ruim que é damnado.

Deve-o tomar no escuro,
Onde não dê uma réstia,
E usar constantemente
Muito cinismo e modéstia,
Eu não conheço o remedio,
Mas já sofri a molestia.
(...)

Já sabe o que é tal remédio? Pois segue.

Quando o doente usar ele,
Deve aplicar o cuidado,
Veja não tenha por perto
Algum subdelegado,
Muito cuidado com ele
Esse bicho é carregado.

Essas ruas muito largas,
Que tem iluminação,
Um agente de polícia,
Inspetor de quarteirão,
Tira á força do remedio,
Faz ele perder a ação.

Encontra-se esse remédio,
Em cofres municipaes,
Pelas fabricas de tecidos,
Ou bancos especiaes,
Repartições d´alta escala,
Tezouros estadoaes.

O remedio é extraido
De ouro, papel e cobre,
Também há de prata e nikel,
Para algum doente pobre,
Alivia o desgraçado,
Aumenta a pompa do nobre.
(...)

Em breve publico alguns outros trechos de desafios, um de João José Silva e outro de Firmino Teixeira do Amaral, que também são parte do que sobrou dos folhetos.

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