quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Tragédias...

por Júlio Canuto
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São Paulo, quinta-feira, 14 de janeiro de 2010, 22:00h.

Ao final do expediente estressante, ele liga para a namorada:

Alô?

Alô. Oi amor, tudo bem?

Tudo. Estou saindo do escritório agora e vou pra sua casa. Tudo bem?

Claro. Vem sim.

Vou levar um vinho. Você quer algo?

Não, não precisa, o vinho já está bom.

Ok. Beijo, até mais.

Beijos.

Duas horas depois, na sala, o casal, confortável, já relaxado, encerra o dia com taças de vinho, o telejornal entra no ar. A certa altura transmite imagens de uma tragédia: o terremoto no Haiti.

As cenas são chocantes. Há muitos, muitos escombros, há muita poeira, há muitas pessoas desesperadas, há milhares de corpos sem vida jogados pelas ruas, há milhares de pessoas brigando por comida, há milhares de pessoas brigando por água, há milhares de pessoas gritando, pedindo ajuda, há sabe-se lá quantas pessoas debaixo das montanhas de escombros pedindo ajuda, há inúmeras pessoas dizendo que ouvem vozes debaixo dos escombros... A matéria dura alguns poucos minutos.

As cenas chocam, comovem. O vinho vira vinagre. Não, não há mais vontade de tomar vinho, não há mais vontade de nada. Ele olha pro chão e pensa: ontem, enquanto eu estava dormindo, aquelas pessoas estavam pedindo ajuda; hoje quando acordei, elas continuavam pedindo ajuda; durante todo o dia elas andavam de um lado a outro procurando parentes; enquanto eu trabalhava, elas pediam comida; enquanto eu comprava vinho, elas pediam água; enquanto eu assistia a notícia, elas brigavam por comida; agora, enquanto estou aqui olhando para o chão e os comerciais passam na TV, elas estão fazendo tudo isso ao mesmo tempo. Ele ainda não tem certeza, mas talvez as coisas piorem daqui pra frente, ele relembra acontecimentos recentes, mais próximos. Ele se pergunta como estamos tão alheios à dor do outro e ao mesmo tempo ele não sabe de que forma as coisas poderiam ser diferentes...

Em seguida entra outra matéria, agora falando de pessoas que ganham dinheiro vendendo armas e/ou poderes de jogos eletrônicos: dinheiro real com produtos virtuais. Várias pessoas são ouvidas. Há jovens que deixaram o emprego pra ganhar os produtos virtuais que vendem a uma empresa que as vendem a outros jogadores, há inúmeras pessoas que compram coisas que não existem, há um empresário que diz ganhar alguns milhares de reais reais por mês com a venda de nada, há uma discussão falando sobre a ética da prática mercantil de coisas que não existem, há especialistas que não concordam porque isto fere as regras do jogo, há quem defenda a prática e enxergue aí uma grande idéia...

Outra matéria entra no... NÃO! Ele não quer mais saber de matérias, ele não quer mais saber da vida recortada, podada. Ele não consegue mais desejar boa noite, como o casal que apresenta as matérias deseja, com um sorriso no rosto de cada um. Talvez ele ainda não entenda, mas as 4:00 da manhã, ainda acordado sem dizer uma palavra, ele começa a compreender...



Foto:Erika Santelices/AFP

Hoje, dia 21 de janeiro, os haitianos continuam a pedir ajuda.

2 comentários:

Anna Karine disse...

Oi, Tudo bom? Encontrei seu blog no Diretory do Geovisite. To passando para dar um Alo!
Quando vi as primeiras imagens do terremoto do Haiti, nao me contive e me acabei de chorar. Até hoje, revendo algumas imagens e lendo alguns artigos sobre o que ta acontecendo nao consigo segurar as lagrimas. Um abraço!

PuLa O mUrO disse...

Olá Anna. Muito obrigado pelo comentário.

A pergunta que faço é quanto somos frios diantes de acontecimentos do tipo: não o terremoto, mas o dia a dia depois dele.

Foram dois choques: o dos acontecimentos e o do contraste entre as matérias do jornal. Eles poderiam ser mais cuidadosos.

Abraço!