quinta-feira, 4 de março de 2010

Dica aos Homens de boa vontade

por Júlio Canuto
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Desde que passei a estudar a questão da participação política e a acompanhar alguns projetos sociais, observo o que os que executam o projeto colocam como necessidade ao beneficiário e o que este beneficiário considera uma necessidade. Reparo que muitas vezes o trabalho tem boa intenção, mas erra no foco, erra no conhecimento sobre o problema. As reflexões a seguir foram formadas nesta minha vivência profissional e também por ser morador da periferia de São Paulo.
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Sempre que se está lidando com determinado público, seja ele de qual nível econômico for, deve-se procurar conhecê-lo bem, saber de sua história, suas condições atuais de vida e suas expectativas. Ao se executar um projeto social, onde se trabalha com pessoas de baixa renda ou até mesmo em condições de vulnerabilidade social, um dos grandes problemas é a falta de perspectiva destas pessoas. A atenção deve ser mais intensa.
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Quando digo falta de perspectivas, não estou classificando isto como bom ou ruim, mas apenas que estas pessoas não imaginam seu futuro diferente do presente. Elas podem, sim, ser felizes com a vida que levam em seus bairros - e diga-se, a vida nas periferias tem coisas muito boas, uma delas é a amizade e a solidariedade. Posso exemplificar a falta de perspectiva como aquele sentimento presente no sujeito que não dispõe de boa qualidade no atendimento do hospital ou escola públicos e, apesar de considerar isso ruim, de reclamar para si mesmo nos momentos de necessidade, acaba resignando-se, considerando isso "normal". A perspectiva de mudança é o sentimento que impulsiona a participação efetiva, o horizonte do desejo.
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Todos que se prestam a executar algum projeto social deve ser muito claro em seus objetivos, alcances e limitações. Isto porque uma vez criada a expectativa nestas pessoas, a frustação destas expectativas acarretará na perda de credibilidade em sua boa vontade. As pessoas valorizam sua experiência e isso define seu comportamento em situações futuras semelhantes. Aliás, muitos teóricos da Ciência Política apostam nas experiências de participação como explicação para o comportamento e sentimento em relação a política. Os inúmeros políticos sacanas sabem muito bem disso. Não por acaso é que tentam comprar as pessoas. Isto é, fazer com estas pessoas troquem seus votos por bens necessários a eles. O eleitor, por sua vez, aceita a barganha porque não acredita no poder público, descrença vinda da experiência e que acaba gerando a falta de perspectiva.
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Bairros pobres têm forte sentimento comunitário, em geral gerado pelas histórias comuns e pela solidariedade. As pessoas se conhecem, geração após geração. Embora esse sentimento de pertencimento coletivo seja maiori no início da história do bairro, ele gera valores. Experiências ruins com a política vividas por moradores mais antigos, acabam serem repassadas aos mais novos. Isto eu vi na incubação de cooperativas na periferia de São Paulo ou em trabalho nas comunidades do Rio de Janeiro: "ah, de novo vocês vêm com isso? Perdemos tempo da outra vez e nada aconteceu". Grifei a palavra vocês porque ela simboliza essa descrença com o que vem de fora.
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Por outro lado, a rejeição à participação "convencional" propicia também a geração de novos meios de fazer política, que pode ser o famoso jeitinho ou alternativas inovadoras. Creio que o desafio dos projetos sociais que objetivam o fortalecimento da participação e a promoção da cidadania devem atuar sobre estes fatos.

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