quinta-feira, 24 de junho de 2010

A produção da verdade

por Júlio Canuto
Conhecemos o mundo através de nossa linguagem!

É a comunicação entre os seres, através de uma linguagem comum, que delimita nosso conhecimento, nossa vontade de conhecer, e, por consequência, nossa visão de mundo, crenças, certezas etc. Tudo isso através de símbolos que todos aprendemos a reconhecer, entendemos e transmitimos. Números e letras são símbolos, ou signos, que representam os ruídos emitidos por nós que, dispostos em determinadas sequências, formam palavras, raciocínios, ideias, ideologias.

Muita gente já se debruçou no estudo dos signos, em suas origens e funções. Antropólogos realizaram belíssimos trabalhos em tribos indígenas, decifrando outras linguagens e daí culturas, diferentes visões de mundo. Boa parte deste trabalho foi feita com o intuito de fazer prevalecer certo conjunto de signos, isto é, uma determinada cultura, uma determinada visão de mundo, uma única ideologia. Nada mais humano!

Dos estudiosos da linguagem, a que chamamos linguistas, talvez o mais famoso tenha sido o russo Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1895-1975) - perdoem-me os linguistas se eu estiver enganado, não vou, porém, focar a análise no trabalho do linguista.

Penso Bakhtin como alguém que alargou a visão marxista, acrescentando a ela, de forma consistente e definitiva, a dimensão psicológica. Diz ele que "uma das tarefas mais essenciais e urgentes do marxismo é constituir uma psicologia verdadeiramente objetiva. No entanto, seus fundamentos não devem ser nem fisiológicos nem biológicos, mas sociológicos". Embora suas grandes obras tenham sido escritas antes da década de 1930, foi após a Segunda Guerra que ganha a devida importância e sua obra segue atual.

Também por volta da Segunda Guerra Mundial, um escritor britânico ganha notoriedade com uma das mais clássicas obras literárias (vejam, uma outra linguagem). O escritor é George Orwell - pseudônimo de Eric Arthur Blair (1903-1950) - e a obra é 1984, na qual faz uma reflexão ficcional sobre a perversidade de qualquer forma de totalitarismo. Apesar de ter uma clara relação com os sistemas totalitários da época, a obra continua atual. Orwell dá especial atenção a forma como o sistema totalitário descrito utiliza-se da linguagem como ferramenta principal da produção da verdade, reduzindo-a e alterando-a como forma de limitar a capacidade de reflexão (pensamentos subversivos) dos moradores daquele país. O Grande Irmão, símbolo que rege o país, mantém um processo de substituição da linguagem, chamada de Novafala, que diminuirá o glossário. Há um apêndice no livro em que ele explica de forma detalhada como se dá esse processo. Como se percebe durante a obra, a perversidade do regime do Grande Irmão não é a prática repressiva da polícia, por exemplo, mas o conjunto de símbolos que formam a repressão (a ameaça implícita) e a linguagem, as palavras.
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O filósofo francês Michael Foucault (1926-1984), em sua obra intitulada "Vigiar e Punir", de 1975, trata especificamente disto. Segundo ele, a vigilância e a punição são os meios de controle sobre os corpos, com a função de adestrá-los. A punição deve existir apenas para quem inflingir as regras, já a vigilância é o constante e intenso olhar sobre os atos das pessoas, de tal forma que chega dentro delas. A hipotética presença de uma força repressiva serve para fazer com que as pessoas "não saiam da linha".
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Atualmente, um dos maiores pensadores deste tema é o linguista e filósofo estadunidense Avram Noam Chomsky (1928), que analisa, entre outras coisas, a produçao da verdade nas atuais democracias. Isto é, a fabricaçao de fatos e da verdade pelas elites dominantes destas democracias. É este o ponto que quero chamar a atenção neste artigo pois ele alcança dimensões profundas de nossas condutas e estruturas que vale a pena refletirmos.
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A fabricação da verdade é a fabricação do consenso, e a democracia não é o consenso (tampouco o conflito). O consenso só existe em Estados autoritários e, portanto, não é real. Daí que os Estados tidos como democráticos, ao fabricar consenso, também não são reais. Isto é, são em verdade autoritários, revelando sua característica perversa. Neste contexto, o que seria então a "verdade objetiva", a qual todos dizem que conhecem e com a qual trabalham? Ao explicar sobre a produção de verdades, explicarei também sobre a verdade objetiva.

Assim como a linguagem, aceita em convenção, também as insituições que nos regem são criações dos homens que tem por finalidade organizar ou controlar a vida em sociedade, que também se estabelece por um conjunto de regras de convivência criadas também pelos homens. Tudo isso constitui os meios de dominação da vida social e o mecanismo da produção da verdade pode ser observado neles. Relacionei 4 destes meios, que vou passar a falar brevemente.

1) Economia: o meio de regulação do consumo (de alimentos, vestuário, imóveis e entretenimento). Isto é, a regulação da cultura, a qual pode ser definida como a relação do homem com o meio, todas as transformações consequentes desta relação.

2) O sistema educacional em geral e mais especificamente a universidade: espaço do conhecimento, fonte maior do pensamento intelectual que dará as interpretações do mundo é enquadrado dentro de um "modo", métodos e formatos previamente definidos, de origem racional iluminista (burguesa). Aqui há um ponto de contradição. A própria autonomia buscada pelo homem burguês acabou sendo suprimida pelo desenvolvimento dos ideais burgueses, uma vez que passou a ser tratada como liberdade de escolha, as quais são limitadas. A autonomia deve ser a liberdade de criar!

3) Meios de comunicação: conglomerado que produz verdade e toma o recorte do fato como verdade total (portanto, fazendo-o ficção). Tem como base a verosimilhança, que é aquilo que parecer ser verdade apenas por fazer sentido. Este é o espaço essencial da ampliação da verdade fabricada, por ser a instituição formadora de opiniões (verdades).

4) As instituições: Estas são responsáveis pela reprodução do modelo social produtor de verdades e é onde o ciclo se fecha. Poderia aqui escrever inúmeras linhas sem nunca dar conta das ações das instituições, mas vou resumir em apenas 2, por considerá-las atualmente as principais e onde se expressa claramente uma relação hierárquica:

4.1 O Estado: a quem interessa a produção de verdade. Mesmo a disputa democrática das eleições está sob as "regras do jogo". Mais que isso, ela exprime o conceito dito anteriormente sobre a farsa burguesa: a escolha de uma opção sobre algumas já previamente definidas. Do ponto de vista das instituições estatais, elas são "não-democráticas", isto é, totalmente hierárquicas, pois muitos dos cargos - e dos mais importantes - são nomeações. Ou seja, quando digo Estado, me refiro em verdade aos detentores do poder. E tal é o poder que consegue dominar o corpo político da sociedade. Atualmente, este poder é exercido pelo poder das finanças, retornando assim às corporações.

Para se medir uma democracia, basta ver quantas das suas instituições são democráticas. Donde se conclui que o "público" não é democrático.

4.2 A família: burguesa por excelência, introjeta valores e, mesmo de modo inconsciente, modos de ser de seu tempo. Veja-se a família atual brasileira: pais nascidos na década de 1970, com educação inicial ainda do regime militar e que viveu o período de transição "democrática" ainda na infância, corre atrás de vaga no mercado de trabalho. Viu o ensino universitário se ampliar como modo de produzir para o mercado e sobreviver, e não para produzir conhecimento. A escola pública, à sua época, colocou estes limites: a privada forma patrões; a pública forma mão-de-obra. Pai e mãe trabalham e delegam a educação de seus filhos à escola (instituição reprodutora do modelo de dominação social), à mídia, ou aos computadores e jogos eletrônicos. Assim, desde cedo elas absorvem os valores da Indústria Cultural e se tornam consumidores (o marketing e os insitutos de pesquisa os veem assim).

Eis como este formato observado por Chomsky está de tal forma enraizado em todas as esferas de nossa vida que cabe nos perguntar: como um indivíduo formado neste meio pode vir a questionar esta "verdade" de forma crítica e eficaz? (me incluo nesta questão). Como serão as próximas gerações? Ou melhor, como será quando os atuais adolescentes, totalmente imersos neste contexto radicalizado de racionalização da vida estiverem tomando conta do mundo (das instituições)?
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Os trabalhos acadêmicos, na absoluta maioria das vezes bastante rebuscados, com palavras e ideias extremamente complexas: pra quem se escreve? Pra quem se produz conhecimento? Parece que não se dão conta de que, ao diminuir seu campo de recepção, pelo tipo de linguagem exclusivista, dão o efeito contrário àquilo que estudam.

4 comentários:

Anônimo disse...

Fantástico Julio!
Muito bem escrito, claro em suas idéias, custurando autores e temas essenciais.
A fala sobre a escola é de doer: "privada forma patrões; a pública forma mão-de-obra".
Os questionamentos ao final do texto são no mínimo angustiantes...
É preciso trabalhar para que essas inquietações não caiam no esquecimento... de ninguém!

Abraço forte!

Celinha

PuLa O mUrO disse...

Muito obrigado, Celinha!

Você está na academia, sei que sua pesquisa passa raspando por aqui... então inove fazendo o simples!

Grande abraço.

Anônimo disse...

Fala JH,

Aproveitando o espaço, vamos aos comentários!

- Dois caras ajudam ainda mais a elucidar a questão dos signos e da linguagem: Norbert Elias (Processo Civilizador) e Pierre Bourdieu (Poder Simbólico). É interessante como coisas tornam-se signos e ganham valor como símbolos de poder. Se pensarmos na violência, é assustador o valor dado a um fuzil para os meninos do tráfico. Pro burguês, um automóvel SUV é o top, perdendo apenas para lanchas, helicópteros e jatinhos.

- Quem diria! Citar Fucô mostra q esse tempo longe da ESP diminuiu alguns preconceitos seus, não? kkkk Acho q a culpa era de alguns espianos (alunos e professores).

- Quanto à familia, acredito que seja uma instituição cristã, que foi apropriada pelo pensamento burguês, conforme Weber retrata em seu famoso Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.

- Por último, como sabemos, os títulos acadêmicos servem como símbolos de poder para os acadêmicos. Eles não querem ampliar seu campo receptivo, pois assim perderiam seu status.

Pô, como é bom ler coisas que nos instigam a fazer comentários!

Muito bom!

léo

PuLa O mUrO disse...

Muito bem citado: Norbert Elias e Pierre Bourdieu são também fundamentais no tema.

O "Fucô" era visto como um deus na ESP... rsrsrs... urgh! Longe de lá fica bom ler.

Sobre a família, disse burguesa por excelência pois estava pensando nos contratualistas - e citei o iluminismo - e a origem do contrato social. Sem dúvida é uma forma cristã (tanto é que em sociedades não cristãs, como as indígenas, a família, ou como quer se se chame, tinha outra formação).

Sobre os acadêmicos, esta é uma inversão que não consigo engolir, embora saiba dos símbolos e do status.

Abraço!