quinta-feira, 26 de agosto de 2010

"Geração Y": reflexão a partir da resenha de "Vida a crédito", de Bauman.

por Júlio Canuto
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Se você tem de 11 a 28 anos de idade, esta postagem fala sobre VOCÊ! Se não tem, também muito te interessa.
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No jornal Valor Econômico, seção EU&, de 24 de agosto de 2010, foi publicada sinopse do livro "Vida a crédito", do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que nada mais é que uma compilação de suas entrevistas à jornalista mexicana Citlali Rovirosa-Madrazo. A dica, aliás, veio através do twitter do Projeto Criança e Consumo.
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A obra fala de maneira direta - ainda mais que do modo ensaísta do autor - sobre o atual estágio do capitalismo, que passou do trabalho mal remunerado para a especulação financeira, fazendo do crédito "um vício que alimenta um sistema parasitário - o capitalismo - que só prejudica a saúde de quem depende dessa opção para consumir."

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Assim como o trecho que acabei de citar, a resenha chama a atenção por citar trechos esclarecedores da obra...
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"Os pobres já não são vistos como os 'reservistas' da indústria e do exército, que devem ser mantidos em boa forma (...). Hoje, o gasto com os pobres não é um investimento racional. Eles são uma dependência perpétua, e não um recurso em potencial", diz Bauman, que vê crescer o preconceito contra a pobreza, expresso até na rotulação da categoria social, que classifica os pobres como "classes baixas."
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...e por fazer uma competente síntese do contexto no qual ela foi escrita:
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"Aos 84 anos, Bauman demonstra esperança e carinho em relação à geração Y, formada pelos que têm entre 11 e 28 anos (num dos conceitos que a definem). Nascidos em um ambiente saturado de informações eletrônicas, esses jovens mantêm relações distanciadas da família e dos amigos, embora as formas de comunicação tenham evoluído e sejam, talvez, mais valorizadas do que os laços afetivos, observa Bauman.

A falta de motivação da geração Y para estudar ou trabalhar viria do gradual afastamento do mundo real, o dos adultos."
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Isto porque os pais da "geração y" são pessoas de 28 a 45 anos que veem o trabalho como algo maçante e, acrescento, pela instabilidade e fragmentação trazidas com a globalização e/ou neoliberalismo.
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Além disso, a questão do afastamento dos jovens do mundo real, com suas relações virtuais, aproxima-se do que o próprio Bauman definiu no seu conceito de "líquido" em outras obras como "Amor Líquido", "Vida Líquida", entre outras. É neste ponto, também, que vejo uma clara ligação deste conceito de Bauman com o "fluido" do geógrafo Milton Santos, já comentada neste blog na postagem "A pós-modernidade líquida e fluida", de 17 de fevereiro de 2009 [clique no título para ler]. E também como Milton Santos aposta numa mudança vinda de baixo, das massas, porque só estas podem mudar; também Bauman vê na geração Y esta possibilidade a partir de um momento de recessão em que será mais difícil sustentar lazer e consumo através do crédito, fazendo com que estes jovens reinventem a forma de trabalho e estabeleçam novos padrões de consumo. É importante frisar que Bauman fala sobre os jovens da Europa e América do Norte. A crise financeira vivida recentemente foi um destes momentos.
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Fazendo um paralelo com o cotidiano brasileiro e, sobretudo, dos grandes centros, a obra fala sobre o tempo em que os empregos são demasiadamente fragmentados (as pessoas fazem algo, mas não sabem exatamente de onde aquilo vem e pra onde vai), o que ocasiona a desmotivação nos trabalhadores, que encaram o trabalho apenas como meio de satisfazer seus desejos - prazerosos - imediatamente direcionados para produtos de consumo que nunca se tornam, de fato, seus. É só olharmos ao nosso redor: nada é de ninguém. Os "nossos" imóveis são financiados para pagamento em 30 anos; "nossos" automóveis são financiados e antes mesmo de acabar de pagar, já trocamos por outro, que nos fará ter novo carnê e nunca deixemos de pagá-lo; até mesmo a faculdade é financiada. Tudo isso causa uma angústia frente ao fato de que ninguém permanece em um trabalho por 30 anos, como antigamente acontecia. Inverteu-se, assim, a lógica: hoje os trabalhos são incertos, enquanto que as dívidas são permanentes.
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Pensando no contexto brasileiro, não alimento as esperanças de Bauman, pois a consequência prática disso são os novos valores que se criaram dos quais a "geração Y" está totalmente submersa. Valores estes que são levados também para as relações pessoais.
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Clique AQUI para ler a íntegra da resenha de "Vida a crédito".
Zygmunt Bauman em foto de Grzegorz Lepiarz
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3 comentários:

Rafa Vac disse...

Se existe uma dificuldade de pensar o seu tempo de trabalho, imagina o seu tempo livre (o tempo de lazer) e pq nao dizer o tempo de fazer escolha como pessoa! As possibilidades nas redes sociais crescem enquanto nos perdemos com o contato real.... Seria a vida a credito uma vida virtual?

Bom texto parabéns!!

Rafa Vac

PuLa O mUrO disse...

Olá, Rafa. Muito obrigado pelo comentário.

De fato é uma vida virtual, em todos os sentidos: virtual porque não há presença e também por conta dos valores atrelados as coisas, que estrapolam sua utilidade e real valor - o status.

Você chegou aqui via twitter?

Abraço!

Júlio Canuto

ORLANDO M Z disse...

Muitos mitos! Não existe essa " Vida virtual", como também não coisas nas "nuvens", que se tratam apenas de metáforas engendradas para falsear a realidade! É tudo real, material, sempre na medida de sua intensidade! Essa virtualidade consome materialidade, começando pelo tempo e seu fluir. Gostamos de viajar nessas idéias escapistas. Sem essa! Veja a vida e seu comprometimento das mais variadas formas e não salde sua dívida com operadoras de telecomunicação e telefonia, de energia elétrica etc., pra ver como é real esse "sonho" de virtualidades plantadas, inclusive pelo autor que só trata da vitimização e não da capacidade de ação modificadora do ser!(sic)k