quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Logorama

Por Leonardo André

Abaixo reproduzo uma carta enviada a Adbuster por um leitor acerca de suas impressões sobre a vida das pessoas em meio a atual fase do capitalismo ultramodernamente líquido. Uso essa carta como introdução ao curta Logorama, vencedor de prêmios como o Prêmio Kodak no
Festival de Cannes de 2009 e o Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação do Oscar 2010.


Somos um Exército de Zumbis

Engolidos pela cultura do cosumo
Malcolm Klimowicz*

Chego em casa do trabalho, esgotado e vazio. Muito cansado para interações humanas, eu aperto os botões do controle remoto e direciono meu olhar distante para minha imensa TV. Não demora muito e os anúncios publicitários e o desfile infindável de produtos passam a oprimir minhas defesas e penetrar minha mente. Todos os detalhes de cada mensagem são meticulosamente calculados, desenvolvidos de forma a hipnotizar, repetindo-se várias e várias vezes até finalmente instalarem-se dentro da minha cabeça. Agora estou tomado por desejos efêmeros. Saio aceleradamente para o Shopping Center mais próximo. Como um viciado em uma recaída, eu sigo vacilante pelos corredores, como se estivesse em algum tipo de transe. O bando de consumidores ao meu redor é formado por pessoas que parecem todas iguais - olhos vidrados, cujos olhares são vazios e expressam desejo. Formamos um exército de zumbis. Mas ao invés de cérebros e carne humana, devoramos mercadorias estrategicamente expostas a preços acessíveis, fabricadas na China. Eu rapidamente saco meus cartões de plástico, assim como minha alma, para mais tarde retornar ao meu lar recompensado, cheio de sacolas de compras. Todas recheadas de lixo produzido em massa que rapidamente formam uma pilha de lixo junto a tudo aquilo que eu já tenho acumulado. Amanhã vou acordar, tomar o café e deixar o conforto e a segurança da minha casa rumo a meu trabalho. Vou passar mais um dia longo e tedioso na monotonia laboral que se disfarça de um emprego. Quando isso acabar, vou novamente voltar para casa e descansar em frente da minha imensa TV e aguardar os irradiantes comerciais, como pequenas partículas penetrantes que corroem o que resta da minha mente. E toda noite eu digo a mim mesmo, "talvez um dia desses, eu me ligo".





Livre tradução minha especialmente para o Pula o Muro.
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