quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Educação para o consumo *

por Júlio Canuto.


Veja mais esta mentira.

Em 18.08.2010, a revista Veja publicou matéria intitulada "Educação para o consumo", onde mostrou resultados de uma pesquisa realizada pela Turner International do Brasil, sobre o comportamento de crianças e adolescentes em relação à publicidade televisiva, concluindo que não há impactos negativos para as crianças nesta relação, afirmando que “A ficção conspiratória da criança manipulável, que se deixa conduzir pela 'propaganda enganosa', cai por terra.”

A pesquisa citada foi realizada com crianças e adolescentes, de 6 a 15 anos de idade, das classes A e B.

Como sempre faz, a Veja não ouviu especialistas no assunto, como os pesquisadores, os defensores dos direitos da criança, os especialistas em defesa do consumidor. Se assim tivesse feito, não cometeria erros graves, ao tratar crianças e adolescentes do mesmo modo, como se o impacto da publicidade nestas diferentes fases da vida fosse a mesma. Saberia, portanto, que o impacto de uma publicidade sobre uma criança de 8 anos é muito diferente do impacto em um adolescente de 15. Além disso, se tivessem realizado pesquisas com crianças pobres também seria verificada que o impacto sobre estas é ainda maior.

Ponto para o Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana.

Diante da imensa confusão repassada aos leitores da revista, o Projeto Criança e Consumo encaminhou carta a revista Veja, no dia 25.08, manifestando seu descontentamento em relação as informações publicadas.

Como muito bem informa o Projeto Criança e Consumo nesta carta, "até por volta dos 6-8 anos, por exemplo, as crianças não conseguem distinguir conteúdo de entretenimento com publicidade e só entre 10-12 anos começam a compreender o poder persuasivo das publicidades e a desenvolver senso crítico. São dados comprovados e já consolidados."
A matéria da Veja faz afirmações sobre fatos não comprovados. Como informa a carta do Projeto Criança e Consumo, "a pesquisa da Turner Internacional Brasil, citada pela revista, não comprova de fato que as crianças compreendem de forma crítica e plena as publicidades dirigidas a elas. Apenas diz, de maneira muito superficial e frágil, que elas não acreditam em todas as publicidades a que assistem."
Ora, "a mediação de um adulto nessa fase da vida é essencial a um desenvolvimento saudável. Caso contrário, as crianças seriam tratadas em todas as relações sociais como adultos."

Infelizmente, o legado histórico de nosso país é utilizado de forma irresponsável por quem detem tão grande poder, como é o da comunicação. Num país onde quem lutou contra o regime militar que cassou as liberdades políticas de todos os brasileiros é chamado de terrorista, qualquer tentativa de diálogo com o mercado publicitário para regular a publicidade dirigida ao público infantil é tida como "censura" e lançam mão de um famoso jargão, porém fora de contexto: "cadê a liberdade de expressão?"

"Em todo o mundo, com destaque a democracias consolidadas, os Estados implementam ou discutem a regulação da publicidade dirigida ao público infantil. O próprio setor autorregulado reconhece mundialmente essa necessidade e grandes nomes da publicidade internacional já se manifestaram a favor do fim da comunicação mercadológica dirigida a esse público."
A carta é finalizada com importante questionamento: se a criança tem um senso crítico tão apurado, "por que se investem milhões em publicidades dos mais variados produtos (incluindo aqueles direcionados ao público adulto, a exemplo de algumas campanhas de carro) para atrair as crianças? Porque são elas que estão cada vez mais expostas aos meios de comunicação e porque são as mais suscetíveis à influência das mensagens mercadológicas."

Leia a carta na íntegra clicando aqui e divulgue.
Obs.: documento em PDF.
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* O título da postagem foi colocado de propósito com o mesmo título da matéria da Revista Veja para atrair as pessoas que procuram pela matéria. Também usamos estratégias de marketing!

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