terça-feira, 21 de setembro de 2010

O Dia Mundial Sem Carro

Leonardo André

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No próximo dia 22 de setembro teremos mais um Dia Mundial Sem Carro, que contará, com toda certeza, com milhões de carros pelas ruas. Sim, pois na verdade a esmagadora maioria das pessoas está cagando e andando para esse dia. A data é, isso sim, um bom motivo para chacotas por parte de quem jamais trocará o carro próprio por um transporte coletivo cheio, abafado e fedido. Além dos costumeiros congestionamentos, é bem provável que veremos nos meios de comunicação imagens do Kassab indo para a Prefeitura de busão e entrevistas com a Soninha. Ah, teremos também promessas e mais promessas de ciclovias e... blá, blá, blá!



A verdade é que a venda de automóveis não para de aumentar, assim como as emissões de carteiras de habilitação e CO2. À curto prazo, não há solução para o problema do transporte em São Paulo. A médio prazo, também não. Aliás, a minha humilde opinião é que o problema tende mesmo a se agravar. O que deveria ter sido feito na área dos transportes públicos não foi feito, e as promessas de ampliação do Metro não passam de propaganda política para épocas de campanha eleitoral, pois o que for construído daqui para frente não é mais do que obrigação de qualquer cidadão que sentar a bunda na cadeira mais importante do Palácio dos Bandeirantes.

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Toda essa introdução para dizer que o dia 22 de setembro tem o mérito de introduzir a temática do transporte na pauta das redações – mesmo que de forma não muito contundente, já que a maioria das empresas jornalísticas necessita da publicidade da Indústria Automobilística para manter o caixa positivo no fim do mês, de forma que assim não dá pra botar o dedo devidamente na ferida. Dirão que o trânsito é estressante e violento, que os automóveis poluem e degradam o meio ambiente, que provocam acidentes, atropelamentos e mortes. Obviedades.

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Eu sou pessimista em relação a esse assunto e acredito que o ser humano vai mesmo degradar, poluir e esgotar os recursos naturais do planeta até ser expurgado definitivamente da face da Terra.*


* Confira o que algumas pesquisam tem a dizer sobre o Estado do Mundo.
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Por trás da questão do transporte

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Como diz a letra daquela velha canção, a gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte. A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte... O modo de vida nos grandes centros é marcado por uma intensa concentração demográfica. Uma miscelânea de culturas e pessoas indo e vindo de todos os cantos para todos os cantos em busca não só de comida, mas de novas experiências que possam oferecer algum sentido para a vida, que ao final das contas, é vã. Nascer, viver e morrer. Esse é o ciclo básico. Entre um ponto e o outro, estamos simplesmente procurando o que fazer.

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Estou exagerando? Então, um dia desses, experimente ir até os arredores da Avenida 23 de Maio e procure um ponto em que você possa observar do alto o ritmo frenético das pessoas exercendo o direito de ir e vir em seus automóveis. O movimento é intenso a qualquer hora do dia, a qualquer dia da semana, em qualquer dos sentidos que você olhe. O perfeito retrato do nosso caótico modo de vida, sempre correndo atrás da melhor oportunidade, do melhor emprego, do melhor salário, da melhor casa e do melhor carro. Ser melhor em tudo é o objetivo e assim transformamos a vida em uma competição surreal.


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Consumerism way of life

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O Dia Mundial Sem Carro deve estimular uma reflexão mais profunda quanto ao nosso modo de vida e não apenas sobre o uso ou não de transporte individual para os deslocamentos a que nos submetemos diariamente. Há uma frase relativa ao materialismo histórico que diz, grosso modo, que não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência. Quando você nasceu, o mundo já existia e você se habituou a isso. Segundo esse raciocínio, o estimulo ao consumo como sustentação do sistema produtivo, molda o modo como vivemos, o que significa dizer que o sistema produtivo está na base da formação de nossa identidade.

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As viagens e as baladas que você faz, as drogas que você ingere, as roupas que você veste, a casa que você reside, assim como o carro e tudo mais que você compra, te introduzem no sistema e te dão uma “cara”. Para garantir sua permanência, o sistema prevê créditos bancários, para que você compre o que na verdade não poderia comprar até que um dia a ficha caia, e você descubra que não é quem gostaria de ser. Mas daí já é tarde e a única saída é se submeter mais e mais ao sistema produtivo, que é baseado no consumo, que por sua vez, como vimos, é baseado na mais pura ilusão.

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Por outro lado, os livros de auto-ajuda dirão que você não deve desistir dos seus sonhos, pois se você lutar, você pode ser quem você gostaria de ser. E esses autores, que estão aí pra te ajudar a conquistar seus sonhos, só corroboram a ideia que eu citei acima, de que não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência, pois mesmo que você discorde ou não queira você acaba por ser mais um sujeito moldado pelo sistema produtivo (ah, e a rebeldia já está prevista...).


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Resumindo, o sistema produtivo, para se manter produzindo e gerando lucro, inventa uma porção de produtos novos a cada dia. Com a ajuda do marketing e da publicidade te convencem a assumir um estilo de vida. Para manter esse estilo de vida, você precisa consumir os produtos inventados pelo sistema produtivo. Se você não tiver dinheiro para corresponder às espectativas do próprio sistema produtivo, não tem problema, pois você pode procurar uma instituição financeira que lhe dê crédito para isso. Lembre-se, esse crédito é baseado na quantidade de suor e sangue que você está disposto a derramar (seja através de trabalho, de extelionato, de roubo, ou seja lá como for).

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Consegue perceber agora o quanto o sistema produtivo é importante para a formação da sua identidade e, por conseguinte, do nosso modo de vida?

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Automóvel é um dos principais ícones da sociedade do consumo e de suas consequências. Por isso, no dia 22 de Setembro, mesmo que você não deixe seu carro na garagem (se é que você tem um), reflita sobre o nosso modo de vida. Olhando para o horizonte, veja se é possível enxergar um planeta sustentável em meio aquela massa atmosférica escurecida por gases poluentes que os telejornais insistem em chamar de massa de ar seco.**


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** Poluição afeta "muito" a 81% dos paulistanos, diz pesquisa.

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Imagens da internet
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Um comentário:

Júlio Canuto disse...

Boa postagem!

Duas observações, a primeira séria, a segunda nem tanto:

1. Música para o Dia Mundial sem Carro e o consumo: Sinal Fechado, do Paulinho da Viola (aqui letra e vídeo http://letras.terra.com.br/paulinho-da-viola/48064/ )

2. Creio que hoje a Soninha não vai se pronunciar. Ela está mais preocupada com as sabotagens. Do twitter: "PSDB inova e lança Dia Municipal Sem Metrô! #Soninha diz que Dia Mundial Sem Carro é coisa de Petista! #SoninhaFacts #ondavermelha"

Abraço,