quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Preconceito velado

por Júlio Canuto
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Dia desses recebi mensagem eletrônica com texto que seria da jornalista Rosana Jatobá, da Globo, e faria parte da série de crônicas sobre Sustentabilidade publicada na CBN. Neste texto, a baiana Rosana fala sobre sua chegada à capital paulista, da recepção de seus novos colegas paulistas e do “preconceito velado” (como ela mesma denomina) que percebeu no ambiente. Apesar das inúmeras dicas de seus novos colegas sobre os lugares de São Paulo, uma frase preconceituosa escapou: “Recomendo um passeio pelo nosso "Central Park", disse um repórter. Mas evite ir ao Ibirapuera nos domingos, porque é uma baianada só!”

Segundo o texto, Rosana entende que:

“De fato, percebo que não existe a intenção de magoar. São palavras ou expressões que , de tão arraigadas, passam despercebidas, mas carregam o flagelo do preconceito. Preconceito velado, o que é pior, porque não mostra a cara, não se assume como tal. Difícil combater um inimigo disfarçado.”

O texto fala dos preconceitos arraigados. Do preconceito contra os nordestinos no Rio de Janeiro, lá chamados de “paraíbas”, ou do preconceito racial, de poder aquisitivo, homofóbico, de gênero, de nacionalidade e por quem está fora dos “padrões de beleza”.

Em poucas frases resume a mensagem do texto: “Gosto muito do provérbio bíblico, legado do Cristianismo: ‘O mal não é o que entra, mas o que sai da boca do homem’. Invoco também a doutrina da Física Quântica, que confere às palavras o poder de ratificar ou transformar a realidade. São partículas de energia tecendo as teias do comportamento humano. A liberdade de escolha e a tolerância das diferenças resumem o Princípio da Igualdade, sem o qual nenhuma sociedade pode ser Sustentável.”

Não sei se o texto é mesmo da autoria de Rosana Jatobá. Na internet há de tudo atribuído a todos. Porém isto me fez pensar.

Eu nem sabia que a Rosana era baiana. Não ouço sotaque baiano nela. Fiquei sabendo neste texto (se ele for verdadeiro). Além disso, Rosana fala de sua recepção com colegas de redação e do ambiente na cidade de São Paulo e Rio de Janeiro, mas não diz como a mídia trata essa questão. Foi nisto que fiquei pensando. Como Rosana trabalha atualmente na Globo, pensei nesta emissora, mas os comentários a seguir servem pra todas.

O jornalismo da Globo não admite outros sotaques, em São Paulo, que não seja o paulista. Não pesquisei sobre a origem dos jornalistas que trabalham na Globo, mas sendo Rosana Jatobá baiana, isto se comprova, pois não percebo nem um traço do sotaque baiano nela. Todos os jornalistas da Globo, até mesmo em matérias externas estão em traje social. Sendo homem, invariavelmente de terno e gravata e com tom de voz suave. Qual é o único jornalista da Globo que foge ao padrão? Márcio Canuto!

Por conta do sobrenome em comum, conheço o Márcio ha muito tempo. A primeira vez que o vi na TV foi na cobertura de uma partida de vôlei de praia em Maceió numa manhã de domingo. Isto ficou gravado na minha memória porque, além do sobrenome comum, ele ainda estava no Estado onde meus pais nasceram e passaram a infância.

Pois desde quando vejo Marcio Canuto no SPTV, ele é o único que conserva seu sotaque nordestino, o tom de voz lá em cima e nunca está de terno e gravata. Não por acaso, ele é o jornalista que faz as matérias nos bairros periféricos de São Paulo e seu espaço no SPTV é intitulado “Fiscal do Povo”.

Eu, como filho de nordestinos e morador da periferia de São Paulo entendo que a Globo, como grande veículo de comunicação que é, acaba, assim, por disseminar este “preconceito velado”, pois implicitamente diz que lugar de nordestino é na periferia, delimitando o espaço urbano pela origem, separando (falsamente) o morador da periferia do "paulistano". Isto é, promove a segregação e o preconceito e como formadora de opinião vai replicar isto na sociedade.

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