quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Tergiversação Oblíqua Relativa ao Convívio Social

Leonardo André

Eu sou agressivo, impulsivo. Perco o controle, falo besteiras. Irrito-me facilmente, não tenho paciência com as pessoas. Há tempos desiludido, cogito o isolamento. Não me agrada falar sobre mim, sobre o que faço ou sobre o que deixo de fazer. Sou discreto. Nem gosto que qualquer um fale sobre mim. Não gosto de ser julgado por ignorantes. Não gosto de ser incomodado por bisbilhoteiros desocupados.

Até já tentei, mas não consigo fazer com que as pessoas me entendam. Nem as poucas pessoas de que gosto, podem me entender. Não consigo mais acreditar que alguém seja capaz de me entender. Nem acredito que uma pessoa possa entender outra. Não tenho mais paciência pra ficar me explicando. Parece-me tempo perdido, já que tanto faz se me entendem ou não.

Permaneceria na mais aguda solidão se assim fosse possível. Mas não é, pois nada sou e nada tenho. Apenas meu corpo pertence a mim. Meu corpo e as sensações que este corpo me permite sentir e nada mais. E ainda assim, meu corpo é animado pela vida, que também não pertence a mim.

Meu corpo manifesta a vida, comprova-a. A vida permite que eu movimente meu corpo, mas meus movimentos são reflexos. Minha ação é reação. A vida se utiliza de meu corpo em proveito próprio e vai me conduzindo, buscando sua manutenção. Meu corpo corresponde a situações e circunstâncias espaciais e temporais. Estabelece contatos, pois não há alternativas.

A vida faz uso de linguagens por meio de meu corpo. A vida estabelece contato entre corpos através das linguagens que estimula desenvolverem-se. Mas nem as idéias que comunico pertencem a mim. Tudo que nasce da palavra é alheio. As palavras são alheias. A comunicação humana é mais uma entre tantas outras estratégias da vida em sua tarefa incerta de manter-se viva.

E não há outra razão para a vida que não seja sua própria manutenção. Meu corpo pertence à vida. O contrário não faz sentido. E é em razão da manutenção da vida que não me isolo. Senão por isso, eu estaria distante de tudo. Solitário.

De qualquer forma, busco meios de reduzir ao máximo esse contato. Busco um trabalho que possa realizar sozinho para evitar afetos. Sigo formas racionais para manter contato apenas com o que valha a pena. O sublime me norteia, pois me encanta. A beleza reduz o fardo de viver. O flerte com a harmonia universal do reino da vida é a única coisa que me interessa. Na solidão, tento escapar à ignorância bestial que habita a Terra... Para viver.

***

3 comentários:

Anônimo disse...

discordo e não consigo cumprir o cominado.

Lu disse...

Há tempos não passava por aqui e então me deparo com um texto desses! "Meu corpo pertence à vida. O contrário não faz sentido." Eu nunca tinha pensado sob essa ótica e adoraria dizer que você faz umas reflexões foda! E que o texto é sim 'a sua cara'. Mas nele mesmo você diz não gostar que qualquer um fale sobre você então, melhor não te provocar...rs.

Beijo de uma bisbilhoteira desocupada! =P

PuLa O mUrO disse...

Obrigado Lu,

Quero dizer que muito honra esse Blog visitas de pessoas inteligentes como vc!

E volte mais vezes!