quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O Rio de Janeiro continua "indo"...

por Julio Canuto.

Esta postagem tem por objetivo trazer outros elementos, diferentes da característica momentânea da mídia, para compreender a atual situação de violência vivida no Rio de Janeiro.  Elementos muito antigos, que objetivam estimular a reflexão sobre as causas e as consequências do que se está vivendo. Na medida do possível, recorri a postagens e matérias publicadas neste blog, como forma de demonstrar como o assunto pode ser tratado a partir de diferentes ângulos, todos, claro, interligados.

OS FATOS ATUAIS

Desde o último domingo (21/11) o Rio de Janeiro enfrenta ataques de organizações criminosas e invasão de favelas pela polícia. Amplamente divulgado pela imprensa, com cobertura "de guerra", jornalistas com coletes à prova de bala em todos os lugares: batalhões, comércios, escolas, hospitais etc. As pouco informativas entrevistas com parentes de vítimas, cobertura aérea e opiniões pouco variadas. Hoje (25/11), no dia de ataques e contra ataques mais intensos, foram utilizados tanques da Marinha. Isto é, equipamentos de guerra. As cenas transmitidas ao vivo pelas emissoras de televisão mostraram em detalhes a movimentação da polícia e dos criminosos.

Segundo a imprensa, os atuais ataques são uma reação à implantação das UPPs - Unidades de Polícia Pacificadora [ver definição], que já se encontram instaladas em 12 locais (ao que diz a imprensa, em locais antes dominados pelo tráfico de drogas). Esta implantação de UPPs teria feito com que os criminosos destes locais fugissem para outros locais, no caso as favelas do Complexo do Alemão, também dominadas pelo mesmo grupo ou semelhante. Dizem que dois grupos do crime organizado (Comando Vermelho e Amigos dos Amigos) se uniram para o enfrentamento da polícia por conta da diminuição de seus territórios. A milícia, que corresponde a um terceiro grupo, é inimiga destes outros dois e até o momento não teve seus territórios "pacificados".

Espere um pouco. Neste ponto já começa a ficar difícil definir quem é que ataca e quem contra-ataca. Mas seguindo o que diz a mídia, a polícia carioca fez uma ação de ocupação da Vila Cruzeiro, os criminosos atacaram e a polícia contra-atacou. A estratégia do crime foi atear fogo em veículos como forma de chamar a atenção da polícia para outros locais. Assim, se conclui que apesar do caos vivido naquela região da cidade, mostra-se uma vitória da inteligência da Secretaria Estadual de Segurança do Rio de Janeiro, que deixou os criminosos acuados. Mas reparem, fala-se do momento. E o passado? E o futuro?

Cabe refletir - e aqui corro o risco de ser chato pelas inúmeras vezes que repetimos isso no blog - sobre como se chegou a esta situação.

OS FATOS PASSADOS

Deixo aqui os variados pontos de vista já explorados.

Pode-se voltar a formação do Estado brasileiro e a condição de "cidadania de fachada", como aponta diversos estudos, como exemplo o excelente trabalho de José Murilo de Carvalho, intitulado Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi, obra da qual você tem uma resenha [clicando aqui].

Pode-se voltar aos anos de 1950, onde já eram verificados altos índices de violência nas favelas cariocas, inclusive com influência em crianças e adolescentes, como mostra estudo do final dos anos 1950, intitulado Favelas: uma pesquisa para pensar, do qual tomei conhecimento ha um ano, por ocasião de participação em trabalho em comunidades cariocas. Coordenado pelo Padre Lebret e direção de José Artur Rios, para a PUC, e publicado n'O Estado de S. Paulo, disponível na Coleção Estudos Cariocas,

                  trata-se de uma pesquisa de campo com centenas de entrevistas, que nos permite ver
                  a reprodução de uma série de situações que, em menor ou maior medida, se mantém
                  até hoje: crianças e adolescentes no crime, chefes do morro, cotidiano de tiros, bana-
                  lização da vida, violência sexual, violência policial etc.

[Clique aqui] para acessar, é o sexto link de baixo pra cima.

Pode-se também voltar à formação dos grupos criminosos e na forma de atuação da polícia carioca, verificando como pensam os variados lados do contexto, como muito bem faz o documentário Notícias de uma Guerra Particular, de Kátia Lund e João Moreira Salles, [clicando aqui].

Há ainda reflexões sobre as influências dos valores atuais, globais, e suas consequências num país de grande desigualdade social, como o artigo intitulado o choque das anticivilizações, de setembro de 2007, disponível [aqui].

Até mesmo pode-se recorrer a uma conversa entre amigos, onde uma das partes vive a realidade carioca, como a postagem de abril de 2006 disponível [aqui].

Todas essas são reflexões que se repetem a cada notícia das violências diárias.

O FUTURO

A repercussão internacional refere-se à Copa do Mundo e às Olimpíadas. Prefiro pensar, e me preocupar, com as pessoas que vivem nestas favelas, à mercê de armamento pesado, que facilmente atravessa várias paredes das construções que ali estão.

De fato, as UPPs representam um avanço no combate à violência. No trabalho que participei ha um ano, ouvi pessoas que desejavam a implantação deste equipamento em suas comunidades, referindo-se à experiência do Morro Dona Marta. Mas como bem disse Hélio Luz, antigo Chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro no documentário citado anteriormente, os traficantes dos morros são uma espécie de administradores locais que não têm capacidade para operar com quantidades exorbitantes de dinheiro, como o tráfico de drogas movimenta. Isto é, parte mais importante de um verdadeiro combate ainda não teria sido iniciada, que é a captura dos verdadeiros chefes, incluindo-se também a movimentação de fortunas no contrabando de armas - e há sérias dúvidas se um dia isto irá acontecer. Outra alternativa que também se fala é sobre a legalização das drogas, com controle do Estado sobre locais de utilização e quantidades por usuário, com arrecadação de impostos que auxiliariam no tratamento médico de dependentes. Neste sentido, a atual política de Redução de Danos parece um "trabalho de formiga".

Sem ações como estas, qual futuro terão as UPPs? A pressão do tráfico de drogas e armas continuará. Elas irão resistir? Eu torço, embora um tanto desiludido, para que resistam.

Há também a péssima condição do sistema penitenciário, em todo o país. Vale lembrar que em 2006 São Paulo viveu uma situação muito semelhante, segundo a polícia paulista, também com ordens vindas de dentro dos presídios. Isto é, o sistema prisional não cumpre sua função.

Mais importante ainda são ações de combate à desigualdade social, ações que abracem pra valer as famílias que vivem em condições precárias, que ofereçam a perspectiva de um bom futuro, com qualidade de vida, a toda população, principalmente aos jovens, que cada vez mais cedo entram para o crime. Infelizmente, as tão faladas taxas de crescimento não têm mudado de forma efetiva a vida da maioria das pessoas. Isto é, nossa qualidade de vida cresce num ritmo bem abaixo do atual crescimento acelerado.

E assim o Brasil segue com suas diferenças gritantes, com as mais variadas violências cotidianas, e segue também São Paulo, e segue também o Rio, que com futuro incerto, continua "indo".
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Deixo ainda como sugestão de leitura, minhas impressões sobre o pouco que fiquei no Rio, à trabalho, exatamente ha 1 anos atrás: Um cotidiano carioca. Para acessar, [clique aqui]

2 comentários:

Bruno Bonini disse...

julio, estou passando aqui para avisar que usarei seu post sobre os acontecimentos no rio para trabalhar violência com meus alunos...

acho q n se importará...pó de chá que te cito brother...rs
abss

PuLa O mUrO disse...

Notícias de uma Guerra Particular é um documentário fodástico!

Cenas como a do moleque apresentando as armas utilizadas pelo tráfico são impressionantes. Nesse caso, impressiona tanto pelos calibres quanto pelo fato da exposição ter sido feita por uma CRIANÇA.

Vale a pena assistir.

léo