sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Histórias múltiplas!

Julio Canuto

Ontem, 2/12, no Facebook, tive contato com um vídeo da escritora nigeriana Chimamanda Adichie. O vídeo é de julho de 2009 e trata-se de uma conferência da TED - ideas worth spreading, [clique aqui] e [aqui] para saber mais.

A escritora fala sobre o perigo da história única. Muito interessante a palestra, Chimamanda fala da criação de estereótipos a partir da divulgação de “histórias únicas” sobre povos, nações e lugares. Durante toda sua fala, ela expõe as experiências pessoais, desde a infância influenciada pela literatura britânica e estadunidense, passando pelo desconhecimento sobre a vida de pessoas próximas, até suas relações com estudantes nos Estados Unidos.

Você entenderá melhor quando assistir os vídeos. Quero chamar a atenção para dois fatos semelhantes que ocorre a todos nós, brasileiros. A primeira é a forma como pensamos nos povos originários do Brasil, nossas matrizes culturais: índios, negros e brancos europeus. Em geral, não se dá importância para as diferenças existentes entre as diversas etnias indígenas, assim como se fala dos escravos vindos do continente africano como se todos compartilhassem da mesma cultura, esquecendo que vieram de várias nações, com culturas, valores e idiomas diferentes. Dessa forma, deixamos de conhecer sobre nossa própria história, ficamos longe de entender de forma aprofundada nossa formação, ao mesmo tempo em que criamos estereótipos sobre estes povos. A segunda vem através da mídia. Em passado recente, ao realizar, junto a alguns amigos, uma oficina de blog com moradores de bairros na periferia de São Paulo, tratamos da influência dos meios de comunicação na representação que fazemos de nós mesmos, de nosso bairro, cidade etc. Percebemos que as pessoas assumem a história única estampada diariamente pela mídia, e olhamos nosso bairro como se fosse um local violento, desprovido de qualquer ação ou espaços de lazer, arte etc. Com esta visão, buscamos suprir nossas necessidades em outros locais ou recorrendo a artifícios como bebidas alcoólicas e outras drogas como único meio de “diversão”. Mas o bairro é só violento? Não há nada de interessante no bairro? A conclusão que chegamos é que, na maioria das vezes, não conhecemos o próprio bairro onde vivemos, assumindo um discurso que vem de fora, provavelmente de pessoas que nunca puseram os pés lá.

Percebem como isso é ótimo para a indústria cultural? Alías, Chimamanda mostra como a história única atende à vontade de poder, definido por ela através da palavra nkali (da tribo Igbo, uma das maiores da  Nigéria), que significa "ser maior que o outro".
A escritora diz que “a consequência da história única é isto: rouba as pessoas da sua dignidade. Torna o reconhecimento da nossa humanidade partilhada difícil. Enfatiza o quanto somos diferentes em vez do quanto somos semelhantes”. Isto é, coisificamos o outro. Deixamos de perceber que todos, embora de culturas diferentes, temos necessidades em comum, e assim aceitamos as misérias, achando que as pessoas estão acostumadas com as privações.

Segue o vídeo. Apesar de fazer parte da conferência da TED, inseri a versão postada no youtube, em duas partes, como forma de evitar a publicidade no vídeo do site original. Enfim, considero que esta, de fato, é uma ótima ideia a ser compartilhada! Precisamos conhecer, ou nos dispor a conhecer, as histórias múltiplas.

Chimamanda Adichie: O perigo da história única


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