quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Notícias de uma Guerra Estúpida

Leonardo André

Esse blog está permeado pela idéia da coisificação do ser humano. Nunca antes na história dessa civilização a necessidade do consumo foi tão estimulada. O lado espiritual das pessoas nunca esteve tão abandonado. Identidades têm sido construídas com base na aquisição de bens materiais. De forma que a questão existencial, tão própria do ser humano, acaba sendo esmagada pela ânsia consumista. Tão fascinante espécie animal, estamos banalizando a vida. Construir um sentido para a vida está em segundo plano, muitas vezes deixado a cargo de pastores ou padres por um lado ou por cultos mais destrutivos, como ao crime, por outro.

As últimas notícias da guerra particular entre policiais e bandidos no Rio de Janeiro chocaram. Não pela brutalidade e violência, pois eu imaginei um rio de sangue morro abaixo, o que de fato não ocorreu.

Chocaram, isso sim, pelo tamanho da estupidez do proibicionismo. A cada imagem das manobras militares um ponto de interrogação crescia em minha mente:

Qual o sentido de leis que tornam a venda, a produção e o consumo de drogas crimes?

Uma vida vazia de sentido apegada ao dinheiro e submetida ao competitivo mercado de trabalho torna-se um fardo, pois elimina o tempo necessário para reflexão sobre a nossa própria existência. O milagre da vida é obscurecido por um modelo depressivo, auto-destrutivo.

Por isso, digo que estão batendo na tecla errada. O fuzil derruba dez traficantes, o sistema cria outros vinte. Não acaba. Pior, aumenta em número e crueldade. A luta por um lugar ao sol isola as pessoas. As drogas aproximam. Happy hour sem álcool é impensável atualmente. Não existe rave sem bala (ecstasy), raggae sem maconha, rock sem álcool, psicodelia sem doce (lsd), festa de aniversário sem bolo...

Uma sociedade sem drogas é utopia.

As pessoas precisam de uma rota de fuga, às vezes. Por isso, se eu sentir a necessidade de cheirar ou de fumar ou introduzir qualquer outra porcaria em meu próprio corpo, quem é você, quem é o padre, quem é o policial, quem é o presidente ou seja lá quem for pra dizer se eu posso ou não destruir esse monte de carne e osso sem sentido que um dia a terra há de abrigar?

A guerra contra o tráfico passa inevitavelmente pela questão da demanda. Por que o consumo de drogas é tão grande? De onde vem essa necessidade de sair do ar?

Falar sobre consumo de drogas é um maldito tabu, que poderia começar a cair se, para isso, houvesse o mesmo investimento que houve na logística militar envolvida nas batalhas da última semana, por exemplo. Ou, ao menos, se a mídia dedicasse o mesmo tempo que dedica ao sensacionalismo a debates que aprofundassem o tema.

A proibição não extingue a demanda. Jamais a demanda por substâncias que alteram o estado mental do ser humano será extinto. Se houver demanda, pode ter certeza que haverá oferta. O contexto social  sugere cada vez mais o uso dessas substâncias, sejam elas proibidas ou não. Por isso me pergunto, até quando vamos viver essa estupidez?  Espero estar vivo pra ver...

***

Um comentário:

Contravento disse...

Fiquei pensando... Será que tudo isso estaria acontecendo se, ao invés de cocaína/maconha/crack, fosse bebida? Dá pra imaginar alguém se matando desse jeito por bebida? Dá pra imaginar a Ambev sendo enquadrada desse jeito? E olha que a violência do tráfico é parecida coma violência da bebida.

Grande post, como sempre.