sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Desastre natural?

Julio Canuto
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Mais um ano se inicia e, infelizmente, mais uma vez temos notícias de enchentes, deslizamentos, desabamentos e mortes na Região Sudeste do Brasil. Até a madrugada de 14 de janeiro de 2011 o número de mortos já ultrapassa 500 só no Estado do Rio de Janeiro, o mais atingido. É o maior desastre natural em número de mortes no país. ..
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DESASTRE NATURAL? NÃO É BEM ASSIM.

Ao mesmo tempo em que a Região Sudeste do país sofre com as fortes chuvas, também Brisbane, na Austrália, do outro lado do mundo, também registra problemas semelhantes, porém com número de mortes pelo menos dez vezes menor.

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, disse que o volume de chuva foi atípico, mas que o principal problema é as ocupações irregulares, culpando as prefeituras: "o volume de chuvas foi realmente muito grande na Região Serrana, foi uma situação atípica. Mas a ocupação irregular levou não só a perdas materiais, mas também a perda de vidas. As municipalidades têm de agir e impedir essas ocupações” (BLOG DO NOBLAT. O GLOBO, 13/01/2011).
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Apesar da reclamação de Sérgio Cabral, é a Secretaria de Estado de Habitação (SEH) que tem entre as suas atribuições atuar como facilitadora nas relações com os diversos órgãos da esfera federal e municipal, buscando parcerias para a captação de recursos na área habitacional de interesse estratégico para o Estado do Rio de Janeiro, assim como orientar, planejar, coordenar, supervisionar e também executar planos e programas relativos à habitação e regularização fundiária e urbanística.

Para Debarati Guha-Sapir , diretora do Centro de Pesquisas sobre a Epidemiologia de Desastres (Cred), de Bruxelas, na Bélgica, que vem coletando dados sobre desastres no mundo todo há mais de 30 anos, a precária infraestrutura, ocupação urbana desordenada, mau desenvolvimento das instituições públicas e nível de pobreza e de educação fazem com que a tragédia no Rio chegue a estas proporções. O principal problema, no entanto, é a falta de atuação do Poder Público. Segundo ela, "há muitas ações de prevenção, de baixo custo, que podem ser adotadas, sem a necessidade de grandes operações de remoção de moradores de áreas de risco" (BBC Brasil, 13/01/2011).
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UMA TRAGÉDIA MAIS QUE ANUNCIADA

Em 2009, quando participei de um trabalho em comunidades das Regiões Metropolitana e Serrana do Rio de Janeiro, foram coletados dados sobre a atuação do Poder Público no que se refere a habitação. Cito como exemplo a capital do Estado, referência para as demais cidades, que há vários registros de reformas urbanas, desde o final do século XIX, porém sempre com investimentos nas áreas mais ricas da cidade. Os transportes e a habitação foram deixados de lado até mesmo nos momentos mais críticos, de intenso crescimento populacional, entre os anos 1950 e 1980. Todos os programas e projetos realizados pelo Poder Público foram intervenções dissociadas de outras medidas que caracterizassem um pensamento articulado de planejamento, isto é, desprovidas de uma visão global. Ressalve-se que o mesmo ocorria em todas as outras grandes cidades brasileiras. Em 1976 houve a primeira menção às Políticas Públicas urbanas através do Plano Urbanístico Básico (PUB-RIO), e somente em 1992, através da Lei Complementar no. 16, foi aprovado o Plano Diretor Decenal da Cidade que estruturou as Políticas Públicas para enfrentar os grandes desafios da metrópole. Os desafios foram enfrentados?

Embora não houvesse informações detalhadas anteriormente, problemas de enchentes e deslizamentos de terra no Estado são conhecidos há pelo menos 300 anos.

Em excelente artigo de 28 de novembro de 2008, o Tenente Coronel do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro (CBERJ) Sérgio Baptista de Araújo, Especialista em Administração de Desastres - National Land Agency – Japão, apresenta um levantamento de catástrofes anteriores no Estado do Rio de Janeiro, desde 1711.

Embora as informações de 1711 a 1940 não dêem os dados de mortes, mas apenas citem que elas ocorreram, cabe destacar aqui alguns dos episódios onde se tem dados precisos:

02/01/1.966 – Enchentes e deslizamentos nos Estados da Guanabara e Rio de Janeiro (1), 250 mortos, 50.000 desabrigados (foto abaixo).
FONTE: TV GLOBO. FOTO PUBLICADA NA MATÉRIA.
Em 1967, mais 300 mortos. Em 1987, 292 mortos. Em 1988, 277 mortos em Petrópolis (foto abaixo).
FONTE NÃO INFORMADA. FOTO PUBLICADA NA MATÉRIA
Leia o artigo na íntegra clicando [AQUI].
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Isto é, ano após ano a tragédia se repete. A situação é tão absurda, que fui obrigado a concordar com o sensacionalista Datena, que em seu programa matinal na rádio Bandeirantes, da última terça, observou que todo ano se noticia que choveu tantos por cento a mais que o previsto, ou que num único dia choveu o esperado para todo o mês. Espere um pouco. Todo ano? Será que não há algo errado com essa previsão que sempre demonstra surpresa com a quantidade de chuva? Talvez seja uma forma equivocada da mídia noticiar, dando a sensação de surpresa.

Atualmente há meios sofisticados de se prever as fortes chuvas. Como informa a matéria de Camila Nobrega e Martha Neiva Moreira para a página Razão Social, do O Globo, Teresópolis já tinha mapa de risco desde 2007. Porém, diversos fatores negativos contribuíram para a tragédia. Embora a matéria não deixe claro, ou o valor que seria destinado pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) (mais de R$ 11 milhões) não foi enviado, foi enviado uma parcela insuficiente ou não foi utilizado. Não só Teresópolis tinha este mapeamento, mas 15 cidades do Rio de Janeiro, incluindo Niterói e parte da capital do Estado, conforme o site Agenda 21 COMPERJ (Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro): http://www.comperjagenda21.com.br/agenda-21-comperj/o-projeto

Resta-nos a triste constatação de que as tragédias no Rio de Janeiro, assim como em São Paulo e Minas Gerais, não são um desastre natural, mas sim um desastre político-social.
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1. Até 1975, havia o Estado da Guanabara e o Estado do Rio de Janeiro, que compreendia a atual capital. Neste ano de 1975, com a fusão dos dois Estados, a Cidade do Rio de Janeiro deixou de ser Cidade-Estado, tornando-se assim Município do Rio de Janeiro. 
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2 comentários:

Notícia em Verso disse...

A chuva ainda não deu trégua, o sol não raiou
As pessoas ainda juntam os cacos do que restou
É preciso força para retomar a vida, o mundo
Depois de se perder quase tudo num segundo

Tragédia natural não é exclusividade, é verdade...
Por que, então, sofremos mais com as tempestades?
Deus é brasileiro, não temos terremotos nem furacão
Mas pecamos no planejamento, vontade e organização

Portugal passou por suplício como o que se apresenta
Em falecimentos, só 10% daqui: pouco mais de quarenta
Na terra que zombamos ter pouca inteligência
Governos dão de goleada quando há urgência

A Austrália, do outro lado, foi ainda mais exemplar
Como mostrou, na TV, um brasileiro que lá foi morar
Eles monitoram o nível dos rios com grande precisão
Por carta, avisaram todos com 24 horas de antecipação

Mas aqui o relevo é outro, uns dirão
Por si só não justifica, não é explicação
Populismo, impregnado, responde por esse mal
Ah, se nossa inteligência fosse a de Portugal...

(http://noticiaemverso.blogspot.com)
Twitter: @noticiaemverso

PuLa O mUrO disse...

Muito obrigado pelos versos!

Visitei seu blog e gostei muito. Já coloquei recomendações (coluna à direita).

Abraço!