sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O calendário é novo, mas a vida é a mesma

Julio Canuto

Ano novo, calendário novo, presidente nova, mas a vida de cada um de nós é a mesma. Terminadas as festas, basta olhar pela janela de casa, pra rua, e verá que tudo continua como na sexta-feira anterior. Abaixo deixo algumas informações sobre questões urgentes que nós brasileiros temos que enfrentar, baseadas em dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os mesmos problemas persistem nas mesmas áreas: educação, moradia e renda. Se aqui cabe uma crítica, faço agora: COMO TEMOS SIDO INCOMPETENTES PARA SOLUCIONAR NOSSOS PROBLEMAS MAIS ÓBVIOS!
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O RELATÓRIO DE DESENVOLVIMENTO HUMANO
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CLIQUE AQUI
para acessar a síntese do relatório.
Em novembro de 2010 o PNUD divulgou o Relatório de Desenvolvimento Humano 2010 (edição do 20º. aniversário). O documento, intitulado A Verdadeira Riqueza das Nações: Vias para o Desenvolvimento Humano, analisa indicadores de desempenho dos países nas áreas da saúde (medida pela longevidade), educação ou conhecimento (medido por indicadores de educação, quais sejam, a média de anos de estudo da população adulta e o número esperado de anos de estudo), e rendimento ou padrão de vida digno (medido pela renda nacional bruta por pessoa).

Das 169 nações, o Brasil ocupa o 73º. Lugar, tendo evoluído quatro posições em comparação com o relatório de 2009 e situando o país como de alto desenvolvimento humano.
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Embora o último relatório apresente muitas modificações na metodologia, o que impossibilita sua comparação com os relatórios anteriores, a equipe responsável pelo relatório fez novo cálculo (de acordo com a nova metodologia) para anos anteriores. Para o Brasil, há dados completos desde 2000, de modo que podemos fazer comparações precisas. Na tabela abaixo nota-se que o país evoluiu bem nos últimos trinta anos em expectativa de vida (aumento de dez anos) e média de anos de estudo da população adulta (aumento de quatro anos e meio). A renda nacional bruta também apresentou bom aumento. Neste caso é necessário ressaltar a gritante desigualdade de renda entre as famílias brasileiras, que quando apresentadas de maneira agrupada pode ser mascarada com uma média razoável ou boa, embora a maioria das famílias ainda tenha renda insuficiente para cumprir o que determina a Constituição Federal. A última coluna mostra o índice brasileiro (IDH), atualmente em 0,699 (o índice varia de 0 a 1 e quanto mais próximo de 1, maior o nível de desenvolvimento humano).

FONTE: PNUD BRASIL
O gráfico a seguir mostra a evolução dos países da América Latina. Repare que de modo geral não há mudanças nas posições dos países. O Brasil permanece num grupo intermediário, junto a Venezuela, Equador e Colômbia. Apenas este grupo sofreu algumas alterações, com a Venezuela superando Equador e Brasil em 2009, mas voltando a ficar abaixo do Brasil em 2010.

FONTE: PNUD BRASIL

Os resultados alertam os países de que desenvolver-se economicamente, produzir mais, não significa, necessariamente, melhorar a vida de suas populações. É preciso um esforço maior,  conforme alerta o PNUD:
“colocar as pessoas no centro do desenvolvimento implica tornar o progresso equitativo, fazendo das pessoas participantes ativos na mudança e assegurando que as realizações atuais não sejam alcançadas em prejuízo das gerações futuras”.
Ou seja, (para usar uma palavra que está na moda dos discursos políticos) é preciso um desenvolvimento sustentável, no qual as pessoas, os trabalhadores, sejam os verdadeiros beneficiados, e não apenas os aglomerados financeiros e as corporações. Este tipo de desenvolvimento passa pela educação, que tem sido a tragédia brasileira. Ora, qual país no mundo pode se desenvolver sem investimento em educação?
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PROGRAMA INTERNACIONAL DE AVALIAÇÃO DE ALUNOS (PISA)
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No dia 7 de dezembro de 2010 foi divulgado o resultado do PISA (da sigla em inglês), realizado a cada três anos pela OCDE, que avaliou estudantes de 15 anos completos em todos os países membros da OCDE, mais os convidados (entre estes o Brasil), totalizando 65 países. De acordo com informações da Agência Estado, “em 2009, ano da prova mais recente, foram selecionados 400 mil jovens em todo o mundo, incluindo 20 mil brasileiros de todos os Estados. A escolha pela faixa etária permite uma comparação entre os diferentes países, mesmo que os sistemas de ensino sejam diferentes.” Foram avaliadas leitura, ciências e matemática.

Em leitura, quase metade dos brasileiros avaliados alcança apenas o nível 1, o grau mínimo de habilidade de leitura. Em ciências, pouco mais da metade (54%) revelou entender o óbvio e têm enormes dificuldades de usar ou compreender essa disciplina (nível 1). Em matemática, a situação é ainda pior: 69% dos estudantes do País também ficam apenas no nível 1, isto é, “não conseguem ir além dos problemas mais básicos e têm dificuldades de aplicar conceitos e fórmulas. Na avaliação da OCDE, eles teriam inclusive dificuldades de tirar proveito de uma educação mais avançada” (AGÊNCIA ESTADO). Ou seja, nas três áreas, metade dos estudantes brasileiros não passaram do grau mínimo de compreensão. “Na outra ponta, apenas 1,3% dos estudantes atinge os níveis 5 e 6 em leitura, 0,8 % em matemática e 0,6% em ciências" (AGÊNCIA ESTADO).

Com estes resultados, o Brasil ocupou apenas o 53º. Lugar, apesar de ter a 3ª. maior evolução do ranking. Em comparação com os países da América Latina, o Brasil ficou a frente de Colômbia e Argentina, mas atrás do Chile, Uruguai e México. Apesar do baixo desempenho em comparação com outros países, o governo brasileiro comemorou o resultado, pois a meta do Plano de Desenvolvimento das Escolas (PDE). A média brasileira no PISA foi 401, a média da OCDE foi de 496, já a meta do PDE era 395 de média. 
FONTE: UOL EDUCAÇÃO
À época, o Ministro da Educação, Fernando Haddad ponderou que o resultado é bom pelo baixo investimento em educação, destacando a má remuneração dos professores brasileiros. Ao lado da valorização dos professores, Haddad coloca a universalização da pré-escola como os dois principais desafios da educação brasileira nos próximos anos (UOL EDUCAÇÃO).
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MORADIA
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Por fim, outro grande desafio brasileiro é resolver o déficit habitacional. Isto é, dar moradia as famílias que não têm, assim como resolver os problemas das habitações irregulares.

O Censo 2010 do IBGE revelou que há mais de 6 milhões de domicílios vagos no país e 5,8 milhões de famílias vivendo em locais inadequados. A excelente matéria de Leandro Melito, para a Revista do Brasil, intitulada Capital da Contradição, informa que “o número de casas vazias no país é maior do que o de famílias sem teto – essas que, em cidades como São Paulo, com 290 mil imóveis desocupados, ainda são tratadas como criminosas.”

É importante que se diga que estes dados não são novidade. Há pelo menos dez anos a situação é conhecida, conforme o próprio IBGE vem divulgando através dos Censos e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD (CARTA CAPITAL).
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Sendo assim, não é preciso dizer mais nada. Basta vontade política para resolver o problema.

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Depois de tudo isso, meu desejo para este ano é: QUE EM 2011 SEJAMOS MENOS INCOMPETENTES!

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