sexta-feira, 18 de março de 2011

O mundo gira

por Julio Canuto

O ano de 2011, como qualquer outro, começou com muitas catástrofes no Brasil. Época de fortes chuvas, que com a ocupação desordenada das nossas grandes cidades, traz tristes consequências: os deslizamentos de terra aonde havia construções irregulares. Erroneamente chamados de "desastres naturais", pode-se mesmo dizer que foram tragédias, pois se a natureza se movimenta, reage, o homem, por ter conhecimento sobre estes fenômenos, não poderia estar no caminho, ou deixar seu próximo no caminho destes fenômenos. A quantidade de vidas perdidas, bem como da intensidade dos fenômenos tem tudo a ver com a ação do homem sobre o meio. Isto não era para ter acontecido, como já foi comentado neste blog através de postagem intitulada "desastre natural?", de 14 de janeiro. 

No entanto, outras coisas vêm acontecendo no mundo, que dizem respeito não apenas aos fenômenos da natureza, mas sobre o comportamento do homem.

A REVOLTA ÁRABE

No Oriente Médio e norte da África, as populações parecem ter despertado para a importância da liberdade política e de opinião, e saem às ruas reivindicando a queda de governos autoritários. Em treze países a população (jovens em sua maioria) ganhou as ruas, alguns com resultados positivos, como foi o caso do Egito; outros com reações violentas por parte do governo, como temos acompanhado na Líbia.

O jornal espanhol El País preparou um interessante mapa da região com dados, notícias e análises sobre as movimentações populares. Para visualizar o mapa da região com notícias de todos os países que passam por conflitos, clique [AQUI] (em espanhol).
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Pra mim, tudo isto soa muito estranho. Em primeiro lugar, porque são países fechados, dos quais não temos muitas notícias sobre os acontecimentos internos. Em segundo porque são nações de fundamental importância geopolítica com a eminente crise do petróleo. Isto é, algumas nações com alta produção num momento histórico crucial para o setor energético. Em terceiro, porque não tenho mesmo grande conhecimento sobre a história destas nações. Confesso, porém, que tenho acompanhado com bastante entusiasmo e alegria a movimentação popular.

É preciso tomar muito cuidado com o que se entende por liberdade. Aqui para as bandas do ocidente, a liberdade, na visão do capitalismo mais grosseiro, é tida como liberdade de consumo, e mesmo assim como uma falsa liberdade de escolha, pois padrões de comportamento são martelados dia e noite em nossas mentes, ditando o  modelo de sucesso que você tem a liberdade de escolher.

O mais importante, porém, é que aqueles povos que pareciam eternamente oprimidos, saem às ruas reivindicando direitos. São jovens em sua maioria, e a maioria recusa a preocupação ocidental, sobretudo dos Estados Unidos, que sempre apoiou as "estáveis ditaduras". Isto é, a população tem plena consciência do que quer, e age seguindo seus interesses. Isto é revolução!

A TRANQUILIDADE JAPONESA

Há uma semana, no Japão, aconteceu uma das maiores catástrofes naturais. Como todos veem à exaustão pela tv, terremoto e tsunami arrasaram uma parte do Japão. Além disso, o grande risco de um grave acidente nuclear deixa o mundo todo em alerta. Mas apesar do clima de alerta e a histeria que a imprensa tenta provocar (sim, pois pelo tom das matérias, só pode ser esse o objetivo da imprensa), o povo japonês dá um valioso exemplo para todos nós.

Ao contrário do que se costuma ver quando das tragédias em outras partes do mundo, os japoneses não aparentam desespero, não saqueiam casas, nem supermercados. São muito bem organizados! Mostram uma serenidade impressionante diante da fatalidade.

"A angústia de estrangeiros contrasta com a tranquilidade de japoneses após tragédia", este foi o tema da entrevista, no Jornal Hoje, da Globo, com o educador Mário Sérgio Cortella, o qual  nos explica que este comportamento tem tudo a ver com a educação japonesa, a forma como este povo lida com os fenômenos naturais, portanto sua relação com a natureza. Veja no vídeo abaixo (apenas 4 minutos).
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Clique aqui para assitir o vídeo

O MUNDO GIRA

Pois é. O mundo gira, se movimenta, se transforma. A natureza segue seu curso, mostra nossa fragilidade, acaba com nossa prepotência. Ao mesmo tempo, o homem também parece trilhar outro caminho.

Olhando tudo ao mesmo tempo e de tão longe, é como se estivéssemos começando a saber ser calmo ou explosivo na hora e medida certas. Quando vejo as manifestações árabes não manipuladas, com a recusa ao apoio ocidental, tenho a sensação de que as máscaras estão caindo; quando vejo a consciência e inteligência do povo japonês, tenho a certeza de que só sobrevive o que é verdadeiramente sólido, construído ao longo do tempo.

O alerta sobre o acidente nuclear causou preocupação em todo o mundo. O homem e suas construções não são mais fortes que a natureza. Neste sentido, a Alemanha parece ter tomado medidas mais radicais. Uma grande onda de pressão sobre os governos devem mudar os rumos da energia nuclear (ou não). A energia, que é central no caso do Oriente Médio, também é central para o Brasil, que desponta como uma das nações com maiores reservas de petróleo e a de maior potencial para a produção de energia limpa, projeto desenvolvido aqui no Brasil e engavetado nos anos de 1970, à época pela pressão da indústria automobilística (e domingo Obama vem aí, o que será que ele quer?).

A ânsia do consumo desenfreado, a obsolescência programada, nos levou a uma situação limite (para muitos, sem limite). Percebem como todos os acontecimentos, quer sejam provocados pela ação do homem ou não, convergem para a questão da energia, da vida na Terra (e da qualidade desta vida)?

Se os maias tiverem razão quanto a importância do próximo ano para o planeta, 2012 pode representar o começo de uma nova fase na história da humanidade. Nada catastrófico ou surpreendente. Apenas o despertar para verdadeiras prioridades.


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