quinta-feira, 24 de março de 2011

O que esperar das Revoluções Árabes?

Leonardo André


Assim como o Julio, também vejo com entusiasmo as ações populares nos países árabes. Mas eu fico me perguntando até que ponto esses conflitos são rupturas de grilhões imperiais e ao que levarão esses levantes. Estão eliminando ditaduras e substituindo-as por novas perspectivas, mais libertárias. Embora ainda distante, estão se libertando da concentração total do poder e, em alguns casos como o do Egito, já lhes é possível vislumbrar tempos mais democráticos lá adiante. Mas por outro lado, sabemos que a democracia em sua configuração atual, ainda não é tão democrática como quer parecer ser.

De qualquer forma, o poder representado pelo Estado, que impõe suas armas em nome da ordem é colocado em xeque. A livre expressão e as novas tecnologias de comunicação transformam cada indivíduo em uma potencial célula de poder e potencializam a formação de grupos rebeldes. O resultado é esse que está aí, alguns governos já caíram e outros não tardam a seguir o mesmo caminho.

Com o fim das barreiras políticas eu apostaria que o próximo alvo rebelde será o poder religioso, que não pode ser ignorado naquela região. Mesmo que jamais seja superada, a religião não resistirá ao ímpeto libertário ilesa. A religião não desaparece definitivamente, mas perde força em relação aos demais credos. Mais cedo ou mais tarde as pessoas aceitam o fato de haver outras religiões e que sua fé não é uma verdade absoluta.

É possível que em breve vejamos a ocidentalização totalmente instalada no globo – inclusive no Oriente Médio. Com a queda dessas ditaduras, cristãos, mulçumanos, judeus etc. serão cada vez mais flexíveis, mais modernos.

Entretanto, a perda da fé e a relatividade das crenças abrem brecha para o fetiche do consumo. Um vício mental é substituído por outro. O vazio espiritual decorrente da banalização das religiões cede espaço à ilusão dos anúncios publicitários em um mundo de relações comerciais.

Esses povos, por ora rebeldes, correm o risco de cair no mesmo vazio existencial do Ocidente. É claro que o valor da liberdade é inegável. Mas não podemos negar que a liberdade também tem seu lado negativo. Gostemos ou não a Política e a Religião empregam sentido à vida. Em contrapartida, uma crise dessas instituições deixa cidadãos e espíritos em situação delicada. Sem ter em que se apoiar, correm o risco de viver à deriva, sem valores e sem objetivos. Esse é o preço a ser pago e creio que não será diferente se os povos árabes enveredarem pelos caminhos da chamada democracia.

A gente está longe do Egito, da Líbia e de toda essa cena revolucionária. Deixo aqui apenas impressões e opiniões que me são possíveis elaborar à distância. A impressão que tenho é que a configuração social do mundo muda, mas as relações de poder, a miséria, a violência, nada disso desaparece, apenas se atualiza.

Será que o sentimento fraternal que alimenta essas rebeliões resistirá ao tempo?

Ou tornar-se-ão meras relações comerciais, de consumo?

De longe, assistirei o desenrolar dessa história. Mas com a pulga atrás da orelha, como sempre.

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