quinta-feira, 7 de abril de 2011

Parem as máquinas

por Roberto Tristão

Parem as máquinas, não podemos mais crescer!

Parece estanho essa afirmação, mas é a realidade do Brasil. Se mantivermos os atuais índices de crescimento até 2015, o país precisará de aproximadamente 8 milhões de novos trabalhadores qualificados e preparados para atuarem em alto nível no mercado de trabalho. Por coincidência ou não, esse é o número atual de desempregados no Brasil.

O problema é que esses indivíduos não se encaixam no perfil exigido pelas empresas que constantemente saem a “caça” em busca de profissionais. O ensino aqui é de péssima qualidade e investir em treinamento e capacitação desses indivíduos, além de onerar custos para as empresas, leva muito tempo e nem sempre resulta em algo positivo.

O raciocínio é simples, a necessidade pelo aumento da produção no país vem aumentando gradativamente e em largos passos. Na medida em que não há mão-de-obra qualificada para atender essas demanda, o país fica completamente amarrado. Esse cenário coloca em dúvida a capacidade do país em avançar em qualquer que seja a direção.

O mecanismo do capitalismo todos nós sabemos como funciona. No caso do Brasil, um mercado adormecido está sendo despertado. O aumento da renda vem proporcionando o crescimento do consumo, gastos, etc. É a engrenagem do capitalismo funcionando a todo vapor. Mas, na medida em que o aumento da produção cresce e não há profissionais suficientes para acompanhar esse desenvolvimento, os trabalhadores qualificados e empregados passam a contar com um alto poder de barganha junto às empresas. Esses indivíduos começam a cobrar mais para trabalharem e isso automaticamente passa a pressionar as empresas a elevarem os seus custos. E isso de forma natural aumentam os índices inflacionários do país. Nesse caso, há duas opções: a primeira é frear o crescimento da economia e a outra aceitar os altos índices de inflação proporcionados por esse cenário.

Essa realidade se não fosse preocupante para o país, seria até irônica. Uma das piores características do sistema capitalista fora classificado por Marx como o “exército industrial de reserva”. Esse exército, formado por trabalhadores em excesso, é constituído por indivíduos que estão dispostos a trabalharem a todo custo por valores muitas vezes incapazes de proporcionarem uma situação digna. Porém, essa realidade hoje parece ter mudado, colocando nas mãos dos trabalhadores o poder de barganhar e escolher a melhor opção de trabalho.

Segundo o economista Laurence Ball, especialista nas relações entre produtividade e crescimento “nenhum país consegue manter crescimento robusto e consistente se não investir na produtividade”. Segundo um estudo desenvolvido pelo especialista para mensurar o índice de crescimento dos países, os números demonstram quanto o Brasil está defasado em relação aos demais do principal eixo produtivo do globo. Segundo ele, o índice de produtividade da China cresceu 5%, o da Coréia do Sul 7%, dos EUA 5%, da Argentina 3% enquanto o Brasil 0,9%.

Essas informações – extraídas da Revista Exame do mês de Abril (edição 989 – ano 45) – apontam para outras fragilidades que salientam que o crescimento do Brasil não é sustentável, tampouco equilibrado. A questão é até quando iremos suportar com tanta passividade a corrupção e má administração dos nossos recursos.

Eu costumo afirmar que qualquer ação efetiva no ensino ou em qualquer outro campo social, levaria no mínimo de 15 a 20 anos para surtirem algum tipo de efeito no país. Mas não é apenas na educação que as transformações precisam acontecer. O Brasil precisa realizar verdadeiras revoluções e reformas na política, na área jurídica e tributária, saúde, etc. O problema é que eu, e acredito que a maioria de vocês não enxerga qualquer tipo de ação e ou postura do governo nesse sentido. E isso me leva a crer que quanto mais protelarmos e aceitamos a inexistência de tais reformas, mais estamos protelando e colaborando com os problemas que dificultam e atrasam o crescimento sustentável desse país.

Só para termos uma idéia. Recentemente depois de mais um escândalo dos excessivos gastos do senado, o então presidente da casa, o digníssimo José Sarney, encomendou um projeto junto a Fundação Getúlio Vargas (FGV) para estudar o que seria necessário para realizar uma reforma administrativa no país. O estudo apontou para a necessidade do corte de 35 das 41 diretorias, e uma redução de 30% na contratação de serviços. Repito, 35 das 41 diretorias! Não estamos falando de 5 e nem 10, mas sim de 35, o que representa 85%. Esse corte, segundo a FGV, representaria uma redução de 376 milhões por ano aos cofres público. Mas isso é bobagem, então fica com a gente a conta dessa brincadeira.

Em 2011 iremos arcar com o orçamento previsto de 3,3 bilhões de reais. Mas em um país que é mais barato importar do que fabricar... nada é de se estranhar.

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Site da Revista Exame: http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/0989/

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