sexta-feira, 13 de maio de 2011

Flexibilidade, fragmentação e carreira

por Julio Canuto

O Brasil vive uma nova fase. O tão falado crescimento econômico tem pressionado os governos das três esferas a realizar investimentos em áreas estratégicas. Após a abertura política e econômica dos anos de 1980 e 1990 e a crise dos anos 2000 (que expôs a falácia do Consenso de Washington e do livre mercado), cá estamos nós, na segunda década do século XXI.

Há um consenso atual de que o conhecimento produz crescimento. Vivemos anos e anos como um país atrativo a multinacionais por aliar um vasto mercado consumidor e mão-de-obra de baixo custo, com a ajuda especial dos benefícios fiscais, os quais feitos de maneira desordenada deflagrou numa guerra fiscal entre estados e municípios, reconfigurando o território no que se refere ao mercado de trabalho, incluindo a variação das formas de contratação, desconsiderando as Leis Trabalhistas. A fragmentação da produção (realizada em vários países) é também a fragmentação do trabalho, uma vez que o trabalhador não enxerga o resultado do seu trabalho (não sabe de onde vem, nem para onde vai).
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A diminuição dos postos de trabalho na indústria e o aumento no setor de serviços deu nova dinâmica ao trabalho. Flexibilidade e fragmentação, que representam a quebra da rotina no trabalho, são características do trabalho do novo capitalismo dos anos 1990. Estas características foram colocadas como benesses, enfim a liberdade no trabalho, o fim da exaustão. O tempo em que se trabalhava numa única empresa durante a vida toda, acabava. Surgia o tempo dos trabalhos por projeto, de curto ou, no máximo, médio prazos. A geração da qual faço parte, recebeu essa mudança como insegurança. Acostumados a ver nossos pais durante muito tempo num mesmo emprego, de repente nos vimos em trabalhos instáveis, muitas vezes sem as garantias da CLT.
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Insegurança, medo e a sensação de nunca estar pronto para a nova experiência profissional são males de nossa época. Este processo, que ocorreu em todo o mundo, no Brasil aparece com maior gravidade, uma vez que não temos uma cidadania plena, que agrega toda a população, mas sim uma cidadania regulada, isto é, uma cidadania que não é direito de todos, mas condicionada à posição e vínculo no mercado de trabalho. Como diz Milton Santos em obra de 1987 intitulada O espaço do cidadão (SANTOS, 2007),  “Em lugar do cidadão formou-se um consumidor, que aceita ser chamado de usuário” (p. 13) [1]. 
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Quem não trabalha não consome e não tem direitos. Logo, está excluído. A instabilidade (flexbilidade e fragmentação) é a eterna sensação de viver à beira do abismo. 
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Tomando meu exemplo pessoal, vejo claramente que meu currículo é a sucessão de experiências diversas. Cada novo trabalho é um recomeço. A insegurança aparece todo início de trabalho. Experiências fragmentadas compõem meu currículo. Num mercado que prega a flexibilidade, a diversidade de experiências pode dar valor ao meu currículo, mas em hipótese alguma me dá tranquilidade.
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No final dos anos de 1990, Richard Sennett tratou do impacto destas mudanças no comportamento do trabalhador. Sua obra intitulada A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo, traz ótima reflexão sobre o mal dos nossos dias. Sim, apesar da obra ter sido escrita ha treze anos, continua atual. Abaixo, a introdução do livro, que deixo como dica de leitura e reflexão.
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Apenas para finalizar, lembro que hoje os esforços dos governos nos grandes centros urbanos é criar e aplicar estratégias de desenvolvimento local, descentralizando a produção e aproveitando as potencialidades de cada local da cidade, melhorando a mobilidade, qualificando e especializando as atividades com intuito de aumentar a qualidade e a renda dos trabalhadores, seguir o processo de dinamização da economia . A atitude é louvável, e creio mesmo que as coisas devem fluir por aí. Porém, ao mesmo tempo que pensamos na produtividade, devemos pensar na questão da cidadania e da qualidade de vida, bem como no desenvolvimento permanente, que é mais que crescimento.
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A expressão “capitalismo flexível” descreve hoje um sistema que é mais que uma variação sobre um velho tema. Enfatiza-se a flexibilidade. Atacam-se as formas rígidas de burocracia, e também os males da rotina cega. Pede-se aos trabalhadores que sejam ágeis, estejam abertos a mudanças a curto prazo, assumam riscos continuamente, dependam cada vez menos de leis e procedimentos formais.
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 Essa ênfase na flexibilidade está mudando o próprio significado do trabalho, e também as palavras que empregamos para ele. “Carreira”, por exemplo, significava originalmente, na língua inglesa, uma estrada para carruagens, e, como acabou sendo aplicada ao trabalho, um canal para as atividades econômicas de alguém durante a vida inteira. O capitalismo flexível bloqueou a estrada reta da carreira, desviando de repente os empregados de um tipo de trabalho para outro. A palavra “job” [serviço, emprego], em inglês do século quatorze, queria dizer um bloco ou parte de alguma coisa que se podia transportar numa carroça de um lado para o outro. A flexibilidade hoje traz de volta esse sentido arcano de job, na medida em que as pessoas fazem blocos, partes de trabalho, no curso de uma vida.
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É bastante natural que a flexibilidade cause ansiedade: as pessoas não sabem que riscos serão compensados, que caminhos seguir. Para tirar a maldição da expressão “sistema capitalista”, antes criavam-se circunlocuções, como sistema de “livre empresa” ou “empresa privada”. Hoje se usa a flexibilidade como outra maneira de levantar a maldição da opressão do capitalismo. Diz-se que, atacando a burocracia rígida e enfatizando o risco, a flexibilidade dá às pessoas mais liberdade para moldar suas vidas. Na verdade, a nova ordem impõe novos controles, em vez de simplesmente abolir as regras do passado – mas também esses novos controles são difíceis de entender. O novo capitalismo é um sistema de poder muitas vezes ilegível.
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Talvez o aspecto da flexibilidade que mais confusão causa seja seu impacto sobre o caráter pessoal. Os antigos anglófonos, e na verdade escritores que remontam à antiguidade, não tinham dúvida sobre o significado de “caráter”: é o valor ético que atribuímos aos nossos próprios desejos e às nossas relações com os outros. Horácio escreve que o caráter de alguém depende de suas ligações com o mundo. Neste sentido, “caráter” é um termo mais abrangente que seu rebento mais moderno “personalidade”, pois este se refere a desejos e sentimentos que podem apostemar por dentro, sem que ninguém veja.
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O termo caráter concentra-se sobretudo no aspecto a longo prazo de nossa experiência emocional. É expresso pela lealdade e compromisso mútuo, pela busca de metas a longo prazo, ou pela prática em adiar a satisfação em troca de um fim futuro. Da confusão de sentimentos em que todos estamos em algum momento em particular, procuramos salvar e manter alguns; esses sentimentos sustentáveis servirão a nossos caracteres. Caráter são os traços pessoais a que damos valor em nós mesmos, e pelos quais buscamos que os outros nos valorizem.
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Como decidimos o que tem valor duradouro em nós numa sociedade impaciente, que se concentra no momento imediato? Como se podem buscar metas de longo prazo numa economia dedicada ao curto prazo? Como se podem manter lealdades e compromissos mútuos em instituições que vivem se desfazendo ou sendo continuamente reprojetadas? Estas as questões sobre o caráter impostas pelo novo capitalismo flexível (SENNETT, Richard. Prefácio. In: A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. 13a ed. Rio de Janeiro: Record, 2008. p. 9-11).
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[1] Santos, Milton. O espaço do cidadão. 7a edição. São Paulo, EDUSP, 2007. A formação do consumidor em lugar do cidadão não é uma consequência do novo capitalismo no Brasil, mas sim o de sucessivas políticas que não enxergavam a população como capaz de definir seu destino, sobretudo o milagre econômico.

2 comentários:

Charô disse...

Olá, obrigada por compartilhar! Depois dessa leituyra fiquei com a seguinte dúvida sobre a geração Y. Existe a idéia de que essas pessoas seriam imediatistas, fragmentadas. Agora me veio a idéia de que isso cai como uma luva ao mercado de trabalho flexibilizado. A minha pergunta é a seguinte: a geração Y é realmente assim ou é forçada a ser assim, acreditando que isso que é uma vantagem competitiva?

Abraço e vamos em contravento!

PuLa O mUrO disse...

Charô, obrigado pela visita e desculpas pela demora em responder.

Sobre sua pergunta, penso que são as duas coisas. Pois em nossa relação com o meio, somos formados ao mesmo tempo que também transformamos. É uma ação recíproca. Obviamente que no atual estágio da civilização isso cai como uma luva, pois é o desenvolvimento desta ordem. Simples e complexo!

Um abraço.