segunda-feira, 13 de junho de 2011

"Eis uma recordação viva": Revista Raiz & Utopia

por Júlio Canuto
Torna-se cada vez mais urgente restituir a cada homem a sua humanidade, quadriculada e esquartejada num mundo cada vez mais programado.

Acabei de tomar conhecimento que circulou em Portugal a Revista Raiz & Utopia: Crítica e alternativas para uma civilização diferente, editada por António José Saraiva, Carlos L. Medeiros e José Baptista (por onde eu andava que não conhecia a revista?). A notícia veio pelo facebook de Viriato Porto, do blog Pimenta Negra, que já tinha publicado algo sobre a revista em 2005. Ele cita trecho do manifesto Raiz & Utopia que foi publicado no 1º número da revista, em 1977:
Os burocratas, tecnocratas e salvadores políticos dos vários mundos, independentemente das suas diferenças de situação e doutrina, estão empenhados em consolidar um sistema em que a grande maioria dos homens executa mecanicamente as decisões tomadas por alguns. Torna-se cada vez mais urgente restituir a cada homem a sua humanidade, quadriculada e esquartejada num mundo cada vez mais programado.
"Raiz e Utopia" não propões uma nova doutrina no plano político e ideológico em que se exibem os actores do dia. Não contribui para o discurso dominante. Tão-pouco alinha com o que é moda chamar "ciência". Recusa a ilusão do "progresso" considerando que a famosa "marcha da humanidade" é um comboio num túnel em forma de funil. Os problemas de raiz estão hoje escamoteados no discurso tecnoburocrata. É preciso mudar radicalmente a problemática a partir do quotidiano, transformar a atitude do espírito perante as coisas. A utopia não é um impossível: é um norte, a leste ou a oeste das ilusões confortáveis que hoje são servidas como ópio às massas resignadas.
Não é bastante atual? Fiz uma rápida pesquisa na web e achei uma matéria de 2004 no Diário de Notícias, assinada por Guilherme D'Oliveira Martins, à época presidente do Centro Nacional de Cultura, por conta da reedição da revista  (acesse a matéria completa no final desta postagem). Nessa matéria soube que a revista foi publicada de 1977 a 1981, e se constituiu numa "experiência de renovação e de abertura de novos horizontes." O autor informa que no número 2 da revista, no verão de 1977, António José Saraiva e Carlos Medeiros, respondeu assim às reacções ao manifesto com que a revista foi lançada.
A transformação da nossa civilização exige uma actividade constante e teimosa, uma afirmação e uma intervenção na vida de todos os dias pelo comportamento - numa palavra, uma prática da vida. Não lhes dizemos que aguardem e tenham paciência, mas sim que actuem desde já, segundo a sua esperança, para que o mundo se transforme, e para que eles mesmos não se deixem converter em coisas manipuladas. Não conhecemos outro caminho para a realização da utopia senão a guerrilha quotidiana.
Os tempos hoje são outros, o foco de combate mudou. Temos comentado isto em várias postagens. Quando citamos Zygmunt Bauman, Milton Santos, Richar Sennett, ou quando falamos de mídia ou de trabalhadores no telemarketing, falamos sempre do espírito de nosso tempo: o imediatismo, a fragmentação, os funcionalismos. Mesmo nos atuais projetos de desenvolvimento local, é essencial a participação dos moradores, o respeito à memória local, ao território.
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Na mesma matéria do Diário de Notícias, Guilherme observa que "importa hoje, à distância, perceber que faz falta o espírito da Raiz e Utopia. É preciso lançar novos temas, que já não são os dos anos 70 e 80 e é preciso suscitar o debate e a reflexão, num tempo demasiado cheio de imediatismos e funcionalismos."  
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"O espírito da revista não morreu. Eis uma recordação viva."
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Leia a íntegra da matéria de Guilherme D'Oliveira Martins, para o Diário de Notícias, AQUI.

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