segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Diálogos com Zygmunt Bauman



por Júlio Canuto

O MUNDO PÓS-MODERNO: A CONDIÇÃO SOCIAL

“No último dia 23 de julho, sábado, uma equipe conjunta da CPFL Cultura e doSeminário Fronteiras do Pensamento foi recebida pelo professor Zygmunt Bauman, em sua casa, na cidade de Leeds, Inglaterra. [...] O vídeo de cerca de trinta minutos, que agora está disponível no site, é o primeiro resultado deste encontro e apresenta alguns dos momentos da entrevista concedida por Bauman com exclusividade para o público brasileiro. Outros produtos estão sendo preparados a partir do material coletado e estarão disponíveis ainda neste ano.”

Baumam é polonês e tem 83 anos. É professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia. O tema tratado por Bauman na entrevista a seguir é a pós modernidade, sobre o qual ele vem escrevendo já há algum tempo. Num paralelo com a obra de Sigmund Freud, fala sobre o mal-estar na pós-modernidade.

Após a apresentação acima e antes do vídeo, extraídos do sítio cpfl cultura, seguem alguns tópicos com a linha de raciocínio exposta nesta interessante entrevista de um dos maiores sociólogos da atualidade (senão o maior), bem como rápidos comentários que serão temas de postagens futuras.

* No século XX vivemos a mudança da sociedade de produção para a sociedade de consumo;
* Para as gerações anteriores, havia um projeto de vida, que seria um ideal a ser definido e perseguido por cada um, com etapas pré-definidas para seu alcance. Atualmente, o ano seguinte aparece como algo imprevisível, a vida é dividida em episódios;
* Os projetos são individualizados. A questão da identidade em contraste com a comunidade, a opção política, etc. Já não se herda a identidade, cada um começa do zero. Pior, passamos a vida inteira redefinindo nossa identidade;
* Este modo de vida é o que irá perdurar, ou é um momento de transição?
* Duas mudanças irreversíveis: 1) o mundo tornou-se interdependente: multiplicação de relações, conexões, o que ocorre aqui reflete em lugares longínquos e vice-versa; 2) estão expostos os limites da suportabilidade do planeta: a questão ambiental é urgente;
* A democracia é questionada. A democracia é mesmo uma boa coisa para nós? Questiona-se cada vez mais a qualidade da democracia;
* Os perigos da democracia: 1) o divórcio entre poder e política. O Estado é limitado e não consegue garantir suas promessas de algum tempo atrás, daí os descontentamentos e constantes manifestações;
* É função das novas gerações reinventarem a democracia. Seria possível uma “democracia global” para garantir seu fortalecimento?
* Antes se dizia que a condição para a autonomia do indivíduo era a autonomia da sociedade, numa época em que se brigava contra o totalitarismo estatal. O ataque inesperado a autonomia, no entanto, veio do mundo privado. A Ágora pós-moderna é a personificação da privacidade. As discussões não são sobre o bem da comunidade, mas sobre questões privadas. “Nós instalamos microfones nos confessionários”, de forma consentida.
* Laços humanos líquidos (o exemplo do facebook). A diferença entre comunidade e rede é que a primeira precede o indivíduo, enquanto a segunda é mantida por duas ações: conectar e desconectar;
* Ambivalência da vida: estamos todos solitários em meio a multidão;
* Existem duas condições para a felicidade, expostas em trabalhos de quase um séculos atrás (referência a Freud): segurança e liberdade. Porém, não houve um único período na história que se encontrou uma formula para se viver com os dois, a “mistura perfeita”;
* Em 1920, Freud afirmava que a vida na civilização é uma troca. O mal-estar estava no fato de que entregávamos liberdade demais em troca de segurança. Hoje, o dilema é exatamente oposto: entregamos segurança demais em troca de liberdade;
* Conclusões: 1) nunca se encontrará solução para o dilema entre segurança e liberdade; 2) nunca deixaremos de procurar esta “mina de ouro”;
* Não há apenas uma forma de felicidade. É possível ser feliz de várias maneiras;
* A vida é composta de destino (coisas que não temos influência) e caráter (individual, que se pode mudar, melhorar). O primeiro oferece uma gama de opções, que variam entre gerações, localidades, condição econômica, etc., e o segundo é o que nos faz escolher a opção.

Várias coisas vêm à mente ao ver o vídeo. No que se refere ao momento histórico de transição ou afirmação de um novo modo de vida, da reinvenção da democracia, bem como o dilema segurança vs. liberdade, as revoluções árabes e as manifestações nos países europeus, no Chile e em Israel devido à perda das garantias sociais, devem nos dar respostas. Estas talvez não sejam claras, até mesmo porque a revolta se dá pela perda de um direito ou pela insatisfação a uma condição. Mas o que virá daí? No dilema posto, fica evidente que hoje vivemos uma liberdade sem segurança e não raro encontramos quem manifeste preferência em viver com segurança mesmo à custa da liberdade. Sobre a fragilidade dos relacionamentos humanos nos dias atuais (que também tem muito a ver com o dilema): da mesma forma que não há projeto de vida, também não haverá história de vida, como construção do indivíduo, mas apenas de forma fragmentada. A angústia se dá pelo fato de que na vida real é impossível viver várias vidas em uma, como facilmente se consegue no mundo virtual. Todos estes assuntos, porém, serão abordados nas próximas postagens. Por enquanto, vamos nos entregar a reflexão.

Com vocês, Zygmunt Bauman.

Entrevista exclusiva: Zygmunt Bauman from cpfl cultura on Vimeo.

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