quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Itaquera teria estádio para a Copa de 2014

por Julio Canuto


Arquiteto cria complexo com academia, pista de atletismo e parque; terreno é próximo ao metrô e a um conjunto habitacional

DA REPORTAGEM LOCAL

O circuito de jogos da Copa do Mundo de 2014, que terá o Brasil como sede, poderia passar por Itaquera. O extremo leste de São Paulo foi o local escolhido pelo arquiteto Daniel Chang Yuan para sediar o estádio de futebol Pedra Dura, projetado por ele e por enquanto sem previsão de sair do papel.

"É uma forma de lidar com a exclusão social e física da região, que também não tem equipamentos expressivos", diz sobre sua opção pela periferia. "O estádio gera um impacto, atrai outras atividades e estruturas. Isso nas regiões centrais é conflitante e nas áreas carentes é positivo". Para Yuan, o esporte também pode ser eficaz no combate à exclusão social. "O futebol vem dando provas de ser um instrumento para quebrar barreiras sociais, capaz de unir pessoas de diferentes classes econômicas."

O Pedra Dura, significado de "Itaquera" na língua dos índios guaianases e projetado como trabalho de conclusão de graduação na Escola da Cidade, já teria terreno e clube: a área ao lado da estação Itaquera do metrô, onde funciona um centro de treinamento das categorias de base do Corinthians. "Seria municipal, como é o Pacaembu, mas claro que o clube usaria-o bastante", diz o são-paulino Yuan, ressaltando que futebol e arquitetura falam mais alto do que a rixa entre times. O centro de treinamento seria deslocado para outra parte do terreno.

O projeto retoma uma antiga iniciativa do clube, que na década de 1970 já havia cogitado implantar um estádio na mesma área. O projeto, de Ícaro de Castro Mello, comportaria 250 mil torcedores. Já o Pedra Dura teria capacidade para 40 mil pessoas, custaria cerca de R$ 300 milhões e levaria três anos para ser concluído. Além do campo, que ficaria na parte mais baixa do terreno, amenizando o barulho e economizando na construção, o complexo abrigaria academia, pista de atletismo e um parque ao redor.

"Pela geografia do lugar, usuários do parque poderiam ver o jogo. E quem não tivesse dinheiro para o ingresso poderia assistir do morro", diz Yuan, que considerou os moradores de um conjunto habitacional no entorno. A proximidade do aeroporto de Guarulhos, de um hospital e do metrô são pontos a favor da implantação do projeto, que prevê ainda heliponto e estacionamento.

Sem muros

Experiente em projetos no extremo leste, o arquiteto Pablo Hereñú acredita que, mais determinante que a implantação de equipamentos na região, é a forma como eles serão geridos. "Não dá para apenas torcer para que dê certo. É preciso haver acompanhamento", afirma.

Com a prefeitura, Hereñú e o arquiteto Eduardo Ferroni são autores dos projetos de três CEUs (Centro de Educação Unificado) implantados no extremo leste -Inácio Monteiro, São Mateus e São Rafael. Também projetaram na região duas escolas, em Ermelino Matarazzo e União de Vila Nova, e até uma igreja, em São Rafael. Em comum, as propostas têm a ausência de muros e grades.

"Em locais agressivos, as construções respondem violentamente. Achamos que isso só gera mais violência. Se partirmos do princípio oposto, ou seja, oferecendo um espaço que a cidade possa usar, que não passe por um portão ou nada disso, é um começo". O arquiteto faz ainda um prognóstico para os próximos dez ou 20 anos. "É preciso viabilizar a existência desses locais, dotá-los de infra-estrutura, transporte, para que as pessoas possam habitar esse lugar, fazer parte da cidade. E, sonhando mais alto, é importante dotá-los de espaços públicos e áreas de lazer."

(MARIANA BARROS)

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A matéria acima (intitulada "Itaquera teria estádio para a Copa de 2014") foi publicada no jornal Folha de S.Paulo em 24 de agosto de 2008, na série DNA Paulistano, publicado à época, semanalmente. Sei que muitos podem falar que este projeto é uma viagem, que onde já se viu um estádio onde muitos não precisam pagar ingressos, que é fruto da empolgação de um jovem estudante em seu TCC, etc. Não vou discutir estas questões. Não sou arquiteto. O fato, porém, que quero destacar, é a ideia é muito legal, apresenta preocupação em integrar-se ao ambiente comunitário e aproveita as potencialidades locais, além de atrair diversos investimentos. Notem que o projeto incluía a preocupação com a sociabilidade, a longo prazo até, e também chama a atenção para a importância da região, próximo ao aeroporto internacional de Guarulhos (Cumbica) e as estações do Metrô e da CPTM Corinthians-Itaquera, um dos argumentos utilizados para a construção do projeto atual.


A diferença de preços é muito grande. O projeto descrito na matéria da Folha em 2008, custaria cerca de R$300 milhões; enquanto que o atual projeto, já em execução na mesma área, custa R$820,00 milhões (valor oficial divulgado pelo S.C.Corinthians P.) - isto é, MAIS QUE O DOBRO! -, cobertos com R$420,00 milhões de incentivos fiscais da Prefeitura de São Paulo e R$300 milhões em empréstimo do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento). Tudo bem, temos três anos de diferença, mas mesmo atualizando estes valores creio que ainda ficaria bem abaixo do valor atual.


E pensando nisso, me lembro que o projeto do São Paulo F.C., também em cerca de R$300 milhões foi recusado pela FIFA. 


Por que será que ninguém levou o projeto de Daniel Chang Yuan em consideração? Andrés, CBF ou a FIFA poderia responder? Não sei porque, mas tenho a impressão de que todos sabem a resposta. 

2 comentários:

Anônimo disse...

E enquanto isso o planetário de Itaquera segue em silêncio ...

PuLa O mUrO disse...

Muito bem lembrado!