quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O Brasil é o sexto do mundo

por Julio Canuto.


"O Brasil tem batido os países europeus no futebol por um longo tempo, mas batê-los em economia é um fenômeno novo." Douglas McWilliams, chefe-executivo do Centro de Pesquisa para Economia e Negócios (CEBR, em inglês) do Reino Unido.


anúncio foi feito pelo jornal britânico The Guardian: o Brasil é a sexta economia do mundo. Coincidentemente o país termina 2011 também em sexto lugar no futebol. Na economia se comemora, no futebol se lamenta. Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?


ECONOMIA


Na economia alcançamos o sexto lugar em medida do PIB - Produto Interno Bruto, que é a soma dos bens e serviços produzidos no país em determinado período. Isso diz quase nada sobre a qualidade de vida da população que aqui vive. Grosso modo, revela apenas que não estamos estagnados, que há investimentos e, indiretamente, alguma infraestrutura. Mas nada diz sobre salários, infraestrutura aos cidadãos, educação, saúde (incluindo saneamento) etc.

Todos sabem que apesar do pomposo título de sexta maior economia do mundo - superando o Reino Unido, oh! - somos também um dos campeões em desigualdade social. Somos apenas o 73o. no IDH; a corrupção esta estampada diariamente nos jornais e nos pequenos gestos cotidianos; e nossa cidadania ainda é regulada (no sentido que Milton Santos dá ao conceito). Até mesmo o nosso Ministro da Fazenda, Guido Mantega, já avisou que o Brasil levará 20 anos para ter o padrão de vida europeu. E isso me preocupa, pois a qual padrão ele se refere? Com certeza não é de cidadania, mas de consumo. E se tem uma coisa que o planeta está precisando é de menos consumo. Mas esta já é uma outra história.

Enfim, ser a sexta maior economia representa pouca coisa na prática cotidiana.


FUTEBOL


Também estamos em sexto lugar no futebol, conformeranking de seleções da FIFA de 21 de dezembro, mas neste caso ninguém comemora, só lamenta. Afinal, éramos os melhores do mundo.

O futebol, nosso principal esporte, a paixão nacional, carece de investimentos estratégicos. É só parar para pensar: o que representa os clubes da sére A e B do Brasileirão no total de equipes do país, em todas divisões e até torneios de várzea? Nem mesmo todas as equipes dessas duas séries possuem boa infraestrutura. aliás, poucas possuem boa infra. O futebol vive do marketing, das especulações. Retratando a realidade nacional, é o local onde impera a desigualdade de oportunidades. Até mesmo os grandes clubes do futebol nacional pouco oferecem aos atletas no que se refere a educação, apoio psicossocial etc. Tratei desse assunto em outro blog, ao falar dos investimentos feitos nos EUA e sua Major League Soccer.

Nos outros esportes então. Não raro vemos atletas fora de importantes competições por falta de patrocínio. Não há prática esportiva nas escolas públicas. Não há sequer um controle de qualidade sobre áreas esportivas e equipamentos esportivos. E a mídia adora exibir as histórias de superação dos atletas, que enfrentam inúmeras barreiras (financeiras, sociais, psicológicas) sem atentar para o lado vergonhoso de uma nação que não incentiva e nem dá oportunidades aos seus cidadãos.

Ainda assim todos estarão motivados para o hexa em 2014, que definitivamente não merecemos.

Mas segue a vida e nossas ilusões são renovadas em mais uma festividade de fim de ano, em mais uma temporada ou em mais uma eleição. Enquanto engolimos estas notícias e esperamos o tal "padrão europeu" na política, na cidadania e no futebol, assistimos a mais uma partida, bebemos mais uma cervejinha e as perspectivas de mais algumas gerações acabam também em cesto, este outro com "c".

2 comentários:

Falcão disse...

I agree with you, Sir Júlio. Aliás, quando tô me sentindo alienado e consigo organizar o tempo cotidiano, venho visitar este blog, pra me inspirar com opiniões críticas e de gente nossa!
Abrazz!

PuLa O mUrO disse...

Grande Alê!

Muito obrigado pelas visitas ao blog. É uma honra saber que nossas opiniões o inspiram.

Grande abraço.

Julio Canuto