terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Pedra de rumo: a importância da cartografia social

por Julio Canuto

Quem lê este blog já ha algum tempo, ou quem teve a curiosidade de pesquisar o motivo de existir este blog, sabe que o nome e a motivação é criticar a produção acadêmica feita para a academia, com a proposta de pular os muros e trazer estes conhecimentos com reflexões sobre os fatos do cotidiano, o dia a dia do homem comum.

Não nos prendemos só a isso, mas se fazemos este esforço (bem ou mal), isto não é consequência de uma grande capacidade intelectual de seus colaboradores (considero-me um sociólogo limitado), mas geralmente de pesquisas feitas na web, livros etc e publicadas neste espaço como forma de estimular a reflexão a partir da rua. Quero dizer com isto que encontramos pessoas e trabalhos que propõem um diálogo verdadeiro entre o mundo acadêmico e o mundo real, inclusive com linguagem acessível.

O trabalho apresentado nesta postagem é um dos melhores exemplos de como a academia (vejam só!) pode ser realmente útil.

NOVA CARTOGRAFIA SOCIAL

O Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia (PNCSA), coordenado pelo antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida existe desde 2005 e atualmente é composto por 15 doutores (antropologia, direito, geografia, biologia, sociologia, história), 13 doutorandos, 04 mestres, 14 mestrandos, 04 bacharéis e 18 graduandos. Já participaram junto ao Projeto aproximadamente 116 distintos grupos sociais.  

O objetivo do projeto é 
dar ensejo à auto-cartografia dos povos e comunidades tradicionais na Amazônia. Com o material produzido, tem-se não apenas um maior conhecimento sobre o processo de ocupação dessa região, mas sobretudo uma maior ênfase e um novo instrumento para o fortalecimento dos movimentos sociais que nela existem. Tais movimentos sociais consistem em manifestações de identidades coletivas, referidas a situações sociais peculiares e territorializadas. Estas territorialidades específicas, construídas socialmente pelos diversos agentes sociais, é que suportam as identidades coletivas objetivadas em movimentos sociais. A força deste processo de territorialização diferenciada constitui o objeto deste projeto. A cartografia se mostra como um elemento de combate. A sua produção é um dos momentos possíveis para a auto-afirmação social. É nesse sentido que o PNCSA busca materializar a manifestação da auto-cartografia dos povos e comunidades nos fascículos que publica, que não só pretendem fortalecer os movimentos, mas o fazem mediante a transparência de suas expressões culturais diversas. 
(clique AQUI para acessar o sítio do projeto)

Isto é, não se trata de um estudo puramente acadêmico (que vai até os territórios, coletam informações e voltam para academia), mas leva instrumentos e tecnologias e, através de oficinas, possibilita que os membros das comunidades se apropriem das geotecnologias (tecnologias de mapeamento), e que este conhecimento aliado ao saber local, tradicional, seja utilizado por estas pessoas como forma de potencializar o papel dos membros das comunidades como atores políticos, e se tornem protagonistas nas definições de assuntos de ordem econômica, cultural e social em seus territórios. Promove, assim, a valorização da história local, das pessoas que participaram dessa história, contribui para o desenvolvimento do sentimento de pertencimento. Com isso, contribui também para que estas comunidades e seus movimentos discutam e pressionem para o cumprimento do Decreto no. 6040, de 07/02/2007, que instituiu a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais.

O ponto central do projeto, como se observa, é o território, nas suas dimensões de identidade, pertencimento, utilização etc, ao modo como o conceito foi adotado por Milton Santos, como o espaço onde há a interdependência entre a natureza e a ação humana (trabalho e política), e é ao mesmo tempo o resultado do processo histórico e a base material e social das ações humanas. 

O projeto não acontece apenas na Amazônia, mas em vários Estados do Brasil, envolvendo várias universidades e parceiros, com destaque para a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Universidade Estadual do Amazonas (UEA) e a Ford Foundation. 

O vídeo abaixo mostra os depoimentos de Dona Dijé ( moradora de comunidade quilombola no interior maranhense e uma das lideranças do movimento de quebradeiras de coco) e José Carlos Vandressen (filósofo e pesquisador coordenador do projeto), que trazem reflexões importantes sobre o uso das geotecnologias no dia a dia das pessoas. 

Peço especial atenção à fala de Dona Dijé, sobre a mudança que esta experiência trouxe para a sua vida.

O vídeo tem 35 minutos e foi gravado no Espaço da Foco Santiago & Cintra, empresa de geotecnologia.

Nenhum comentário: