terça-feira, 6 de março de 2012

Breve exemplo da distância entre o debate político e as necessidades nacionais

por Julio Canuto


No plano da política nacional, o Brasil vive da rivalidade entre PT e PSDB. Rivalidade que contagia corações e mentes, levando a debates (ou seriam brigas?) onde não se trocam idéias, mas só se defende o ponto de vista de seu time - ops, quis dizer partido - , muitas vezes em tom ofensivo, até desprovidos de razão, mesmo em espaços abertos ao livre diálogo como as redes sociais. Uma coisa, porém, todos concordam, quer seja o PT, o PSDB e os torcedores: o Brasil é um país em crescimento [1].

Somos a sexta economia do mundo, medido pelo PIB, mas ainda somos o 73o. em IDH (medido por indicadores de desempenho nas áreas da saúde, pela longevidade; educação ou conhecimento, pela média de anos de estudo da população adulta e o número esperado de anos de estudo; e rendimento ou padrão de vida digno, pela renda nacional bruta por pessoa), temos o terceiro pior índice de desigualdade social do mundo (PNUD, 2010) e ocupamos o 53o. lugar no PISA (que mede a habilidade dos alunos em leitura, ciências e matemática). O que faria o país crescer e desenvolver-se? Neste artigo, foco a atenção na Educação, com análises sobre o PISA.


CONTEXTOS DIFERENTES NA EDUCAÇÃO

A primeira postagem de 2011 trouxe este indicador, junto ao IDH e a moradia, como principais desafios do Brasil nos próximos anos. O Brasil que ficou em 53o. lugar no PISA (2009), teve o seguinte desempenho: em leitura, quase metade dos brasileiros avaliados alcança apenas o nível 1, o grau mínimo de habilidade de leitura. Em ciências, pouco mais da metade (54%) revelou entender o óbvio e tem enormes dificuldades de usar ou compreender essa disciplina (nível 1). Em matemática, a situação é ainda pior: 69% dos estudantes do País também ficam apenas no nível 1, isto é, "não conseguem ir além dos problemas mais básicos e têm dificuldades de aplicar conceitos e fórmulas. Na avaliação da OCDE, eles teriam inclusive dificuldades de tirar proveito de uma educação mais avançada" (AGÊNCIA ESTADO). Ou seja, nas três áreas, metade dos estudantes brasileiros não passaram do grau mínimo de compreensão. "Na outra ponta, apenas 1,3% dos estudantes atinge os níveis 5 e 6 em leitura, 0,8% em matemática e 0,6% em ciências". (AGÊNCIA ESTADO). 


Como se vê, estamos ainda muito distantes de uma educação de qualidade. Mas nada é tão ruim que não possa piorar. Há pelo menos outras duas questões a serem tratadas: o acesso e a finalidade. 


O acesso ao sistema público de educação deve ser universal e próximo a residência. Para quem mora nas periferias das cidades brasileiras é fácil notar que estes direitos muitas vezes não são respeitados. Algumas vezes pela ausência do equipamento no território, e outras por não comportar a demanda. O momento da passagem do Ensino Fundamental para o Ensino Médio é um tormento na vida de muitos pais, quando os filhos são transferidos de escolas. 


A finalidade é "o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho", e para tanto está baseado em alguns princípios e deve dar várias garantias, conforme Lei Federal 9.394/1996 e 11.700/2008. Portanto são duas as finalidades: cidadania e qualificação profissional.


Interessante estudo avalia os sistemas educacionais dos países que tiveram os melhores resultados no PISA e mostra que mesmo neste locais, há o que se corrigir. A série "Destino: Educação", iniciativa do Canal Futura em parceria com o SESI, procura "desmistificar o ranking e contextualizar as conquistas de cada país", como diz Beatriz Cardoso, consultora da série. Matéria publicada no site do CENPEC, que faz a chamada para a série, coloca alguns exemplos de desmistificação. 


Na Coréia do Sul, por exemplo, país que ficou em quinto lugar no PISA, o diretor do Instituto de Pesquisa Educacional Hanyang University, Yun-Kyung Cha, afirma que 
As conquistas dos estudantes coreanos são baseadas em uma competição implacável. A sociedade, os pais, os professores, todos torturam os estudantes para que cheguem mais e mais alto. Muitos estudantes comentem suicídio por não conseguirem atingir as expectativas dos pais e as suas próprias expectativas. Eles não estão felizes.
Em Xangai, que ficou em primeiro lugar na avaliação, Zhanf Minxuan, vice-diretor do Xhangai Education Commission reconhece que "se o PISA testasse criatividade, potenciais pessoais, talvez não estivéssemos no topo. O PISA testa apenas aquilo no qual somos fortes". 


Ja a Finlândia, terceira colocada, destoa dos outros dois países citados acima. O site do CENPEC reproduziu uma entrevista de O GLOBO com Pasi Sahlberg, diretor de um centro de estudos vinculado ao Ministério da Educação da Finlândia e autor do livro "Finnish lessons: what can the world learn from education change in Finland?" (que em uma tradução livre para o para o português significa "lições finlandesas: o que o mundo pode aprender com a mudança educacional na Finlândia?"). Desta entrevista deixo alguns pontos muito interessantes, que em parte coincidem com os pontos comuns dos países líderes, mas que vai mais além, abrangendo características que vão além da produção e nota. É importante destacar que Pasi Sahlberg deixa claro que as ações realizadas na Finlândia não devem ser reproduzidas por outros países, mas apenas servir apenas como aprendizado.


1. "A reforma educacional não foi guiada pelo sucesso escolar e, sim, pela democratização do acesso a escolas de qualidade";
2. "As crianças devem ser vistas como indivíduos que têm diferentes necessidades e interesses na escola. Ensinar deve ser uma profissão inspiradora com um grande propósito de fazer a diferença na vida dos jovens. Infelizmente, esses princípios básicos deram lugar a políticas regidas pelo mercado em vários países"
3. 
"Professores são profissionais de alto nível, como médicos ou economistas"; 
4. 
"A tecnologia é uma ferramenta, mas o foco continua sendo na pedagogia entre pessoas, sem tecnologia. A tecnologia não deve guiar o desenvolvimento educacional e, sim, ser uma ferramenta como várias outras."; 
5. 
"A Finlândia é o antídoto a este movimento que impõe provas padronizadas, privatização de escolas públicas e remunera os professores com base em avaliações de desempenho que se tornou típico de diversos sistemas educacionais pelo mundo". 


A EDUCAÇÃO NO BRASIL E O DEBATE POLÍTICO

Dentro destes pontos se inclui o que a nossa Constituição afirma como sendo finalidade da educação brasileira, conforme citado anteriormente. A educação deve estar voltada para as necessidades dos educandos e ao mesmo tempo atualizada com a realidade nacional, no sentido de trabalhar alternativas profissionais e de vivência, sem contudo as impor.

Agora responda: estes pensamentos aparecem em alguma propaganda política? A capacitação aparece, mas apenas como formação de mão de obra, no ciclo de preparar para o mercado - trabalhar/produzir - gerar renda - consumir. 

O discurso dominante - e também midiático - conquista as mentes brasileiras e também estrangeiras. A população tem a sensação de possuir uma boa qualidade de vida pelo bom momento econômico nacional, o que promove a ilusão de que qualidade de vida é apenas consumir mais. Daí vem a confusão entre desenvolvimento e crescimento. Isso faz com que seja notório que este contexto e o discurso que o legitima, correspondam aos interesses dos que disputam o poder para nada mudar.   


Por fim, tudo isso mostra que o debate político na forma como está colocado está bem distante do debate que realmente interessa ao país. Assuntos de maior importância são tratados ou como propaganda política (maquiando números e consequências), ou como acusações de fracasso do adversário político. E quem quer que chegue ao poder vai manter as coisas mais ou menos do mesmo jeito. A crítica de um hoje, é a crítica do outro amanhã, e uma sustenta a outra.


Neste ano teremos as eleições municipais, onde elegeremos prefeitos (executivo) e vereadores (legislativo), é muito importante estarmos antenados sobre os problemas macros e os regionais e cobrar dos candidatos respostas a estas demandas. Demandas que sentimos na pele, e não as que nos são inculcadas.
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1. muitas vezes eles falam em "desenvolvimento", como se fosse sinônimo de crescimento. Mas não vou entrar nesta discussão, pois já falamos disso vários vezes neste blog.

4 comentários:

Charô disse...

Instrutivo e muito necessário. Belo texto. Keep bloggin'.

PuLa O mUrO disse...

Charô, muito obrigado pela visita e pelo comentário. Fico feliz que tenha gostado.
Estou tentando publicar com mais frequência, e saber sobre as visitas e suas opiniões é uma motivação.

Abraço.

Regiane Santana disse...

Parabéns pelo texto. Ele nos mostra os diversos indicadores que compõe uma educação de qualidade. Deixando-nos claro que um exame nacional para avaliar o que está sendo ensinado não é o que basta para sanar o problema crônico da educação. O que me chamou muita atenção está na 3° ação desenvolvida na Finlândia . "Professores são profissionais de alto nível, como médicos ou economistas". Uma ação que está muito longe, muito mesmo das condições em que pedagogos são formados no Brasil, onde não é difícil ouvir por onde se passa um indiscreto " Credo,você tá estudando pra ser professor?" e esse desmerecimento não para por aí. Aliás acho que o descaso começa no próprio curso de Pedagogia, com currículos muitas vezes distante das realidades de um país tão plural como o nosso e com realidades sociais tão distintas. Valeu.

PuLa O mUrO disse...

Valeu, Re.

É isso mesmo. A Educação deve estar voltada para a realidade nacional. Não é importando modelos que iremos avançar.

Beijo.

Julio Canuto