sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ideias para a Educação III - Chile

por Julio Canuto


Enfim chegamos ao terceiro episódio da série "Destino: Educação. Diferentes países. Diferentes soluções", do Canal Futura em parceria com o Sesi e CNI. 

Antes, porém, quero pedir desculpas a quem eventualmente tenha começado a acompanhar os programas por este blog. Minha intenção era de postar pelo menos dois vídeos por semana, mas devidos a compromissos profissionais, acabei por não dar a continuidade desejada. Agora, porém, retomo as publicações e espero cumpri-las com a mesma periodicidade pensada no início.

O programa de hoje fala sobre o Chile. O melhor colocado da América Latina no PISA ocupa o 44o. lugar. O pais de 750 mil km2 tem 17 milhões de habitantes, com 3,5 milhões de estudantes e 150 mil professores. São 99,7% dos estudantes de 6 a 14 anos e 87,7% dos estudantes de 15 a 18 anos que estão na escola.

Logo de início, destaca-se um problema verificado em toda a América Latina, e que no Chile traz graves consequências: ha menos de cem anos a elite nacional entendia que os mais pobres não precisavam ter o mesmo tipo de Educação dos mais ricos. Ou seja, nações com cerca de 500 anos que só no final do século XIX e começo do XX começou a discutir sobre a universalidade da Educação para mulheres e população mais pobre, mas que não procurou nivelar o tipo de Educação, no que se refere a conteúdo e estrutura, recursos materiais. 

O SISTEMA EDUCACIONAL E A POLÍTICA NEOLIBERAL

O sistema educacional chileno é divido em três tipos de escolas: as particulares; as particulares subvencionadas (onde há um representante legal investidor que conta com auxílio estatal); e as públicas municipais. Esta divisão faz parte de uma política implantada a partir dos anos de 1980, de característica neoliberal que ampliou a oferta do ensino e tem procurado melhorar a qualidade, mas que teve como consequência a diminuição (ou controle) da administração educacional pelo Estado, uma vez que mais da metade dos alunos estão nas escolas particulares; e também causou uma grande segregação, já que os alunos ficam divididos entre aqueles que as famílias podem pagar muito, pagar uma certa quantia e os que não podem pagar nada. Os entrevistados, especialistas em Educação no Chile, afirmam que é o país do PISA que tem a maior segregação. Apenas nas escolas públicas há greves de professores, o que faz os pais procurarem cada vez mais as escolas subvencionadas. Além disso, a segregação impede o processo pedagógico da troca de conhecimento e saberes pelos alunos, uma vez que os dividem por nível socioeconômico, um grave problema que é alvo  da crítica de alunos e gestores entrevistados.

Sendo parte de uma política neoliberal, e portanto de uma sociedade de mercado, o valor social - simbólico - da escola pública é cada vez menor. Assim, os pais procuram as escolas particulares pelo motivo de não serem vistos como negligentes, o que na verdade tem boa dose de status: o que é mais caro é melhor.

AVALIAÇÕES

Há dois principais sistemas de avaliação da Educação no Chile: o SIMCE e o PSU. O SIMCE consiste em um teste de habilidades básicas, aplicado em todo o território nacional e nos três tipos de escolas. A mesmo prova para todos. Com isso, espera-se medir as habilidades básicas (como no PISA), o que gera um resultado bruto apesar das grandes diferenças relatadas anteriormente. Daí surgem críticas, questionamentos e desafios: 1) o desafio é elaborar uma forma sofisticada de verificar o valor agregado pela escola sobre a formação básica que os alunos trazem de casa; 2) o maior problema, então, é o desprezo pelo professor de escolas com alunos de níveis mais baixos, pois mesmo que consigam agregar valor maior que os das escolas particulares, sempre acabam abaixo no resultado bruto. Portanto, o problema apontado não está no teste em si, mas no resultado que é extraído dele. Já o PSU (prova de seleção universitária), terror dos estudantes, define as aptidões dos jovens para a carreira escolhida em um único teste. Dependendo da carreira pretendida pelo aluno, ele tem que obter determinada pontuação. Se conseguir, pode fazer o Ensino Superior gratuitamente ou até receber bolsa. Porém, se não consegue, muito provavelmente terá que escolher outra carreira.

PAIS E ESTUDANTES

A participação dos pais, no geral, deixa a desejar. Não há percepção dos pais sobre as falhas do sistema educacional, isto porque a comparam com o sistema educacional pelo qual passaram, bem inferior ao atual, o que provoca certo relaxamento, até mesmo porque não conseguem ajudar seus filhos nas disciplinas.

A visão que os estudantes entrevistados têm dos professores é bastante positiva. Consideram os docentes comprometidos com a educação e também com o que se passa fora da sala de aula e da escola. A relação é de amizade. Ainda assim, consideram que a carreira docente é para quem tem vocação, pois o salário e o reconhecimento social são baixos.

PROFESSORES

Os professores compartilham da visão dos alunos no que se refere aos baixo reconhecimento social e aos salários. Sobre o exercício da profissão, embora haja um controle sobre o conteúdo de cada ano escolar, os professores tem a liberdade para flexibilizar o conteúdo, dando enfase a determinados assuntos que considere mais relevantes. Pratica que só é prejudicada pelas avaliações que passam e, principalmente, a que os alunos passam, sempre presas ao conteúdo e não ao despertar das habilidades e capacidades para lidar com situações na vida pessoal e profissional.

Cada professor passa por uma avaliação a cada quatro anos. Há também avaliação para os que estão prestes a iniciar a carreira. Ernesto Schiefelbein, Educador e ex-Ministro da Educação, observa que os professores não estão preparados para trabalhar com alunos de baixo desenvolvimento social. As crianças de nível socioeconômico alto ou médio-alto entram na escola com cerca de 3.000 a 4.000 palavras, enquanto que as de baixo nível socioeconômico entram com 500 a 600 palavras. Uma diferença brutal que não será corrigida. Isto, diz ele, é em toda a America Latina. Não por acaso a principal preocupação dos professores entrevistados é com a compreensão da leitura, que é baixa e constitui um "problema do país".

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Apesar disso, um dos entrevistados, gestor, ve que o Chile tem caminhado bem para sua meta de "Educação para todos", que se traduz na continuidade das políticas educacionais por sucessivos governos, o aumento do orçamento (sete vezes maior que em 1990), entre outras ações.

SINOPSE

Desde o primeiro PISA, o Chile serve de exemplo para a América Latina. Por lá, o ministro da Educação é uma das autoridades de mais prestígio e costuma ser nome forte para disputar as eleições presidenciais. Já a nota no PISA cresce, de forma consistente, desde 2000 e professor exemplar é transferido para escolas de baixo rendimento. Para entender como o país passou a liderar a educação no continente, o programa vai atravessar o portão da escola. E irá acompanhar de perto a rotina de estudantes e educadores. O espectador vai vivenciar essa história por meio do olhar de seus envolvidos. Especialistas vão apontar os acertos e o que vem mudando e o que pode mudar com os novos acordos e medidas do Estado, levantar dúvidas, mostrar se os bons salários, a premiação por desempenho, a constante avaliação do ensino e a participação da família realmente influenciaram na nota final do PISA. Os acertos e erros nesse trajeto escolar também vão ter destaque. Afinal, como diminuir as diferenças entre o aprendizado dos alunos do campo e da cidade? O que o governo tem feito para se aproximar dos índices finlandeses? O que precisa mudar? Qual a tendência para o futuro? Vamos mostrar a opinião dos estudantes e professores sobre a evolução do ensino. Com os pais e educadores tentaremos entender as diferenças entre as escolas particulares subvencionadas e as públicas. No Chile, discutir o ensino parece ser trabalho em grupo, tarefa coletiva. Tão importante quanto era para Neruda repartir o pão e o vinho.

 

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