terça-feira, 8 de maio de 2012

Ideias para a Educação IV - Coreia do Sul

Por Julio Canuto




O quarto programa da série "Destino: Educação. Diferentes países. Diferentes respostas" é sobre a Coreia do Sul.

O país asiático de 49 milhões de habitantes (493 hab./km2) vive o desenvolvimento econômico preservando patrimônio cultural. Possui 8,4 milhões de estudantes, 435 mil professores, onde 95% dos estudantes concluem o Ensino Médio, e ocupa a 5a. posição no PISA. A boa colocação é atribuída a grande pressão dos pais, que gastam entre 10% e 15% com educação particular complementar a escola. Mas vamos saber como o atual modelo se originou.

EDUCAÇÃO E CRESCIMENTO ECONÔMICO

Nos anos de 1960 e inicio dos 1970, a Coreia trouxe profissionais da Educação de outros países, principalmente dos Estados Unidos para fazer uma análise do setor educacional coreano, pois não haviam muitos PhDs no país. Uma das sugestões desses especialistas foi a criação da Korean Education Development Institute (KEDI), um instituto de Educação profissional. A partir daí, professores coreanos foram enviados para cursos de mestrado e doutorado nos EUA. Com a volta deses profissionais se passou a construir o currículo. Além disso, os profissionais também receberam treinamento multimídia para auxiliá-los nas atividades de sala. Todo esse processo teve forte liderança do governo.

A gratuidade no Ensino Fundamental I e II veio em 1970, e a do Ensino Médio em 1974. Portanto, na época de difusão da Educação, porém ainda com limites na qualidade. O objetivo no momento era incluir os alunos. Desde 2000 a Coreia trabalha para melhorar a qualidade do ensino.

A Educação coreana, conforme mencionado nos parágrafos anteriores, possui dois pilares: o governo e os pais. Atribui-se o rápido crescimento econômica da Coreia, após a guerra de 1953, pelo fervor que a população coreana tem pela Educação, sobretudo para elevação do status social. Porém, outros dois fatores podem ser destacados: a disponibilidade de capital e tecnologia.

PAIS, ESTUDANTES E A COMPETITIVIDADE ACIRRADA: UM PROBLEMA SOCIAL

Os pais são muito presentes nos assuntos escolares, até mesmo na elaboração do currículo e também com trabalhos voluntários. Mas se por um lado a participação dos pais é exemplar para todos os países, a pressão deles para buscar o sucesso acadêmico dos filhos, mas melhores faculdades, cria o desejo nos alunos de irem para o MIT ou Harvard. Isso influencia até mesmo no desenvolvimento pessoal de cada estudante.

A escola na Coreia é mista. Isto é, meninas e meninos estudam juntos. Fora da escola, meninos e meninas vão a cinemas e outros locais, sempre após as obrigações escolares. No Ensino Médio, porém, estando próximos do vestibular e em uma fase da vida onde naturalmente há muitas mudanças no corpo e desenvolvimento da libido, isto constitui um problema em um país que preza a educação acima de tudo. Há pressão dos pais para separar meninas e meninos no Ensino Médio, pressão esta que é maior entre os pais dos meninos, pois estes "não são pacientes", enquanto as meninas sabem "suprimir suas emoções". O ranking escolar no Ensino Médio mostra as meninas com alto desempenho escolar, enquanto os meninos não tiram boas notas, e daí a pressão dos pais. "Isso é ridículo, não é?"

Diferente do passado, a atuais crianças coreana se dedicam muito aos estudos. Não por prazer, mas por pressão dos pais, com receio da competitividade acirrada em todos os setores da vida social, seja para entrar em uma faculdade ou no mercado de trabalho. Não há muitas liberdades no período fora da escola, o que reflete no comportamento dos alunos: a maioria tem déficit de sono e frequentemente encontram-se estressados. Estudas oito horas por dia na escola e mais algumas horas em casa, complementadas com cerca de 10 horas nos finais de semana. Os estudantes reclamam da falta de criatividade nas atividades escolares e nas longas jornadas de estudo. Algumas escolas determinam até mesmo o corte de cabelo dos alunos. A sociedade coreana exerce grande pressão sobre os estudantes. Há vários casos de suicídio entre os que não atingem as expectativas dos pais e as próprias. 

O mercado de cursos extras movimenta bilhões. Pode-se dizer que 100% dos alunos fazem cursos extras, incluindo o ensino on-line. 

Segundo Son Woong, diretor geral do Seoul Metropolitan Office of Education, as notas podem ser muito boas e por isso a Coreia  figura entre os mais bem colocados no PISA. Porém, o prazer em estudar, bem como a colaboração, a criatividade devem ser um dos mais baixos do mundo. Para mudar isso, algumas medidas estão sendo tomadas: trabalhos em grupo, debates e leitura para estimular a cooperação e a criatividade. 

"Imagine uma sociedade só de pessoas formadas em Harvard", sem esportistas, pescadores e fazendeiros. Isto não seria normal. É um problema social. Fala-se mesmo em "cultivar o lado humano dos alunos".

PROFESSORES

A concorrência acirrada da sociedade coreana também chega na carreira docente. Provavelmente, o nível dos professores coreanos é um dos mais altos do mundo. O status social de um professor na Coreia é também muito elevado. A aposentadoria é garantida aos 62 anos de idade. A população tem muito respeito pela figura do mestre, herança do confucionismo. A profissão de professor é a primeira ou segunda da preferência do povo coreano. A carga horária do trabalho é de oito horas diárias e cerca de 44 semanais. Este tempo é dividido em 19 horas semanais em classe, mais duas a três horas em atividades extra-classe com os alunos. A demais horas são reservadas a preparação das aulas. 

Todos os professores são graduados, e voltam a universidade após cinco anos de exercício da profissão, para se atualizarem nas disciplinas que lecionam. Mesmo assim, todos também fazem pós-graduação.

Enfim, a Coreia do Sul luta para promover a cooperação entre alunos. Ou como diz uma estudante no início do episódio, busca a harmonia entre homem, natureza e ciência.

SINOPSE

Primeiro o domínio japonês. E o povo superou o desafio. Depois da Segunda Guerra, os conflitos com o norte. Mais uma vez, a volta por cima. No início da década de 60, a Coréia era tão desenvolvida quanto o Afeganistão de hoje, segundo Andreas Schleicher. Se o assunto é superação, pulemos para 2010. Em apenas meio século, este mesmo país se torna um exemplo de desenvolvimento econômico e social. No último PISA, aparece com uma das melhores notas. Descobrir como a educação de qualidade se tornou uma marca da sociedade coreana é, sem dúvida, uma missão. E das mais interessantes. Descobrir o quanto podemos aprender e nos inspirar em uma cultura tão diferente é outro desafio. O programa terá como um dos protagonistas os alunos. Por meio do olhar deles, quem está em casa irá conhecer a rotina de 8 horas na escola, as tarefas de casa, a competição em sala de aula, a rigorosa disciplina e o uso da tecnologia como aliada no aprendizado. Nesse enredo, os professores muito respeitados, bem preparados e avaliados periodicamente também entram em cena, ao lado dos pais. E em especial das mães. Sim, elas têm papel importante na formação dos filhos e costumam visitar a escola de 4 a 5 vezes por ano. Para pagar o reforço escolar, fazem inclusive empréstimos. Tanta dedicação tem um preço alto. Chegam a admitir castigos físicos em sala de aula. Mas até onde se deve ir para melhorar o aprendizado? Será que a Coréia está formando adultos ricos e conscientes em conhecimento? Ou apenas profissionais qualificados e exportando mão de obra? Onde entra todo o humanismo de Confúcio nisso?

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