terça-feira, 15 de maio de 2012

Ideias para a Educação VI - Brasil

por Julio Canuto

Chegamos ao sexto episódio da série "Destino: Educação. Diferentes países. Diferentes respostas.", agora no Brasil, o sexto e ultimo país exibido na série realizada pelo Canal Futura em parceria com o SESI.


Como exposto em postagem anterior, o Brasil ficou em 53o. lugar no PISA, que avalia 63 países. São 190 milhões de habitantes, 52 milhões de estudantes e 2 milhões de professores. Das crianças de 4 a 17 anos de idade, 92% estão na escola; 50% dos jovens com 18 anos completam o Ensino Médio; e 87% de nossos estudantes estão em escolas públicas.


A HISTÓRIA E SUAS CONSEQUÊNCIAS ATUAIS


Apesar dos 500 anos de historia, o primeiro projeto educacional implantado no Brasil só aconteceu em 1808, com a chegada da Família Real, e muito pouco se desenvolveu nos cem anos seguintes. O atraso educacional foi o grande erro coletivo brasileiro do século XX, sobretudo por conta da transição demográfica (aumento exponencial da população) sem a universalidade da Educação. Para se ter uma ideia, nos anos de 1950, durante a construção de Brasília, sete em cada dez crianças brasileiras estavam fora da escola. Como consequência temos adultos que se satisfazem com a baixa qualidade da Educação nacional ofertada a seus filhos e netos, pois ainda é bem melhor a que eles receberam.


Estudantes e especialistas entrevistados concordam que a educação no Brasil não é boa, ou que está longe do ideal, mas que tem evoluído, embora ainda com muitos problemas estruturais. As crianças estão na escola, porém não estão aprendendo. Isto é, falta qualidade. E os motivos são vários, o que dificulta a resolução.


O SISTEMA EDUCACIONAL BRASILEIRO


O sistema educacional do Brasil é descentralizado, dividido entre as três esferas de governo. No nível Federal, discute-se políticas amplas para todo o país. Os Municípios são responsáveis pela Pré-escola e Ensino Fundamental. Os Estados são responsáveis pelo Ensino Médio e parte do Ensino Fundamental. Por sua vez, a União é responsável pelo Ensino Superior Público. 


O investimento em Educação no Brasil é de 5% do PIB, o que não o deixa em posição ruim comprado com outros países em termos proporcionais. O problema, no entanto, é o mau uso do dinheiro. Ou seja, um problema de gestão. Isso significa que há total disparidade entre investimento e qualidade.


O FUNDEB é um mecanismo de distribuição de recursos, que tem por objetivo equilibrar o repasse, já que há enormes diferenças de renda entre Municípios. O problema, na verdade, é ainda mais grave, pois no Brasil há desigualdade entre regiões, entre Estados de uma mesma região, entre Municípios de um mesmo Estado, entre bairros de um mesmo Município, e até mesmo entre escolas de um mesmo bairro. 



No setor privado não há subvenção (como no Chile, por exemplo). Estas escolas vivem da mensalidade pagas pelos pais, e aí também há diferenças de acordo com o bairro no qual a escola está instalada. Por outro lado, é possível gerir melhor. O setor privado é minoritário no Ensino Fundamental, mas é majoritário no Ensino Superior.


A desigualdade educacional no país talvez seja maior que a desigualdade de renda.


ALUNOS E PAIS


O fenômeno da inclusão escolar é recente no Brasil. Os anos de 1990 foram o período de intensidade dessa inclusão. Há muitos alunos com déficit de leitura, de cultura e de incentivo muito grandes. A média de tempo de aula diária dos estudantes brasileiros é de 4 horas, em salas muito cheias. Isto torna o trabalho do docente muito difícil, sobretudo porque não são preparados para esta situação. Há ainda muitos casos de evasão e de analfabetismo funcional. Por exemplo: só 11% dos alunos que completaram o Ensino Médio (que são pouco mais da metade do total de estudantes) possuem conhecimento mínimo esperado em matemática.


É preciso de maior tempo na escola, em escolas com menos alunos.

Os pais tendem a perceber a escola pública como muito inferior a escola particular, o que nem sempre é verdade. Isto porque a escola particular escolhe seus alunos pelo critério socioeconômico (pois os pais têm que pagar a mensalidade). Já as escolas federais escolhem os alunos através de avaliação. As estaduais e municipais absorvem todos os outros. Assim, sem desconsiderar todos os problemas estruturais, a "escolha" dos alunos tem forte influência sobre o equilíbrio em sala de aula e o ritmo dos estudos.


Além disso, há um entendimento entre os especialistas entrevistados de que a escola pública e os pais dos alunos estão distantes. Do lado dos pais, como salientado acima, há diferenças de competências para o acompanhamento da vida escolar de seus filhos; do lado da escola há um hábito de chamar os pais apenas quando há problemas ou para procedimentos de rotina, mas não se convida para participar do dia a dia - isto, claro, generalizando, pois há exceções.


PROFESSORES


Com salários baixos, os professores geralmente procuram trabalhar no Estado, no Município e também no sistema privado, com jornadas que vão do período da manhã até a noite, impossibilitando a atualização e/ou especialização, e nem sequer se forma o hábito de trocar experiências com seus colegas (o que tem total influência da gestão escolar). 


Socialmente, a imagem do professor é de alguém que está ali porque não conseguiu melhor colocação profissional.


A valorização do professor deve ser bem mais que aumentar o valor do salário, mas ter uma rotina digna, de preferência em uma unica escola, para que ele tenha tempo de se preparar, participar do dia a dia do bairro e com isso melhor a escola.


A formação dos professores tem uma grande carga teórica, abrangendo os pensadores, o que é importante. Mas pouca carga técnica, com práticas, métodos e ações para desenvolver em sala e lidar com os reais desafios que vão encontrar. Os professores têm que saber o conteúdo, mas também têm que saber ensinar.


AVALIAÇÕES


O Brasil possui um sistema de avaliação muito amplo, que contempla todas as fases escolares: Prova Brasil, SAEB, IDEB, ENEM, avaliações do Ensino Superior e da Pós-Graduação. Este sistema tem sido muito importante para o acompanhamento da evolução do ensino e auxiliado nas decisões, embora ainda precisa ser melhor aproveitado. Cometemos um grande equívoco ao formular ranking e dar enfase sobre este aspecto dos resultados.


O Brasil participa do PISA desde 2000, e a comparação com outros países tem auxiliado no desenvolvimento da Educação nacional. Melhor é quando as avaliações são observadas com olhar crítico, como esta série tem feito. Não apenas elogiando os países bem colocados e apresentando modelos, mas discutindo ideias. 


Os testes procuram dar respostas sobre o desempenho dos alunos nas habilidades consideradas básicas, como leitura e matemática. Outras áreas, porém, que precisam de maior atenção são as artes, a tecnologia e outras que trabalham competências para a vida dos alunos, para a cidadania.


Temos o desafio de melhorar a qualidade do ensino, uma vez que tem alcançado o objetivo de inclusão. O maior desafio, porém, é mudar a visão da sociedade sobre a educação. A pergunta a fazer a um estudante não deve ser "você passou de ano?", mas sim "você aprendeu?". Isto é o mais importante.

SINOPSE

O Brasil entrou com o pé direito no século XXI para deixar de ser só uma promessa. Fortalecimento da moeda, queda da inflação, aumento das exportações viraram manchetes de jornais. Mas qual a relação entre este período de bons resultados na economia e melhorias efetivas em termos de educação? Como o líder econômico e político da América Latina pode virar também uma referência em educação? O Brasil ainda não passou no teste, mas se a transformação está a caminho, iremos mostrar os bons passos dados na direção certa. E a partir daí ajudar a entender melhor como cada um dos alunos brasileiros poderá ter uma educação realmente de qualidade.

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