sexta-feira, 22 de junho de 2012

O Poder, os políticos e os outros

por Julio Canuto

Os termos e conceitos utilizados na teoria e no noticiário da política são muito vagos, ao menos no Brasil: direita; esquerda; liberal; conservador; progressista; populista; amigo; inimigo; e até Democracia. Creio que situação e oposição são termos um pouco mais precisos, e ainda assim podem ser utilizados com significados diferentes, não representando quem faz parte do governo e quem não faz, mas por exemplo, quando "opositores" políticos acabam por apoiar um mesmo projeto, eles podem estar na mesma "situação" - neste caso de privilegiados.

É o que eu tendo a pensar quando observo o andamento das obras da Copa do Mundo. "Até" PT e PSDB acabam se abraçando e, de forma conjunta, tecem enorme tapete para encobrir as atitudes não democráticas, não republicanas, enfim, indignas. Você não acha que, em um país onde novos casos de corrupção borbulham todos os dias, estas obras e suas consequências estão sendo pouco faladas por nossos "representantes"? Até aqui as polêmicas ficaram concentradas em Ricardo Teixeira, Jérôme Valcke, liberação de bebidas alcoólicas e um ou outro assunto levantado, mas logo em seguida esquecido. Nada das grandes acusações, ânimos exaltados, etc. Como diz a velha música: "de repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão" - leia-se: parece que todos os políticos deram as mãos. Ou será que eu sofro do "complexo de vira-lata" e que tudo corre às mil maravilhas? Creio que não, pois há denúncias vindo da sociedade, de parte da imprensa, mas nenhum grande atrito entre partidos.

Mas o que me chamou a atenção para escrever sobre esse assunto foi o simbolismo da imagem com o aperto de mãos entre Lula e Maluf. Imagem esta que tem repercutido como se fosse algo que ninguém imaginava. Confesso que eu mesmo, por alguns segundos, fiquei boquiaberto, mas logo retomei a consciência e não fui na onda da indignação atual simplesmente porque minha indignação é antiga.


Não é de hoje que as alianças, das mais estranhas que se possa imaginar, acontecem. Em geral se diz que é a tal da governabilidade. 

Um caso exemplar ocorreu exatamente com a eleição de Lula para presidente e no decorrer de seus dois mandatos. Exemplo este, que para estabelecer um recorte, vem de agosto de 1999. Na ocasião, a filósofa Marilena Chauí, em entrevista para a revista Caros Amigos (que tenho guardada até hoje), fazia comentários sobre o governo FHC e falava de "traição". Leia essa sequência de perguntas e respostas:

Caros Amigos: Quando a senhora estava deixando a Secretaria de Cultura, o Maluf indicou Rodolfo Konder como secretário, nesse dia a entrevistei no rádio, e disse: "Como a gente se surpreende, professora, a gente que esteve do mesmo lado com várias pessoas...". E a senhora respondeu no ar: "Nós fomos enganados, fomos iludidos porque eles sempre estiveram daquele lado e a gente não soube perceber isso". Essa mesma resposta se aplica agora?
Marilena Chauí: Se aplica. Se você pegar o texto da teoria da dependência, está tudo lá. Como é montada a explicação através da teoria da dependência? A dependência tem o famoso banquinho de três pés: o capital estrangeiro, a burguesia nacional e o Estado. Você tem uma teoria sobre a América Latina, sobre a dependência, na qual a classe trabalhadora nunca entrou. Ela não faz parte do contexto da sociedade, não faz parte da história, não existe. Ela não entra sequer numa nota de rodapé. Você tem teoria completa sobre o país, e sobre a região, que exclui a classe trabalhadora. Então, não acho que precisa esquecer o que foi escrito. Precisa é ler melhor o que foi escrito. Tem uma tese do Fernando Henrique sobre a escravidão na região meridional, na qual o escravo é dito inconsciente, alienado, passivo, tem lá o senhor de escravo, o escravo nunca. E tem todos os estudos contemporâneos feitos sobre a escravidão que mostram o escravo como sujeito histórico. Mas está lá, sempre esteve lá.
CA: Porque se leu tanto tempo pensando que era uma coisa...
MC: Porque aconteceu com o meio intelectual o mesmo que aconteceu inicialmente com o PT. Dada a existência de um inimigo comum de poder descomunal, todos que estiverem contra esse inimigo comum estão do mesmo lado, pensam da mesma maneira, vão no mesmo barco. E é só no instante em que a figura desse inimigo se dissolve, e que os caminhos se traçam, que você percebe que as diferenças são profundas.
CA: Professora, mas não dá pra falar do Fransico Weffort, por exemplo.
MC: Não, o Weffort pra mim é um mistério.
CA: E qual é o seu choque, a sua perplexidade, a senhora que ficou de braço dado no portão, com a sua barriga lá, na Maria Antônia, a senhora citou nomes, Fernando Henrique entre eles, e de repente vê isso?
MC: É que acompanhei um percurso muito mais longo. Pontuado por uma história, e no interior dessa história já havia os sinais. E mais: a minha surpresa não é tanto que ele fale na terceira via, estou me preparando, lendo tudo o que posso sobre a terceira via. Não é tanto por ele se considerar parceiro do Tony Blair e do Clinton, cada um se vê como quer. A surpresa para mim, e me manifestei publicamente, foi a aliança com o PFL. Porque uma coisa é você explicar a história do país sem explicar a classe operária, explicar a história da escravidão sem colocar o escravo, achar que há uma terceira via que não é a esquerda nem a direita, até aí dá, você acompanha uma lógica de pensamento. O que não dá é que essa personalidade e esse grupo em volta dessa personalidade comecem a aceitar governar com Marco Maciel, com Antônio Carlos Magalhães, com Inocêncio, com Renan Calheiros, isso me deixa não angustiada, me deixa...
CA: É aquela ânsia de vômito da senhora quando entrou no MASP...
MC: Isso mesmo. Me deixa indignada. Fico indignada que ele se preste fazer para a direita o serviço que a direita faria sozinha, não precisava dele para fazer isso.
CA: Ele faz melhor.
MC: Não é que ele faz melhor, ele dá dignidade e colorido à direita. A direita, que é o que pensávamos dela, de repente se ergue com dignidade política, que ela não tem, não merece ter e não pode ter. Eu diria que sou capaz de entender a criação do PSDB, de entender a candidatura à presidência da República, mas não sou capaz de entender a aliança com o PFL. (CAROS AMIGOS, no. 29, AGO/1999, p.28)


O que dizer hoje, professora, após as parcerias do PT com Sarney, Collor, Renan... e agora, Maluf? 


Vejam que a filosofa coloca problemas cruciais, que podemos dizer que são atuais. No que se refere aos "outros": "você tem teoria completa sobre o país, e sobre a região, que exclui a classe trabalhadora". No que se refere aos políticos: "fico indignada que ele se preste fazer para a direita o serviço que a direita faria sozinha, não precisava dele para fazer isso". E sobre o Poder: "dada a existência de um inimigo comum de poder descomunal, todos que estiverem contra esse inimigo comum estão do mesmo lado, pensam da mesma maneira, vão no mesmo barco". Acrescento que a prática não se refere apenas quando há um inimigo de poder descomunal, mas também quando há grandes privilégios a serem usufruídos. 


O que se conclui de tudo isso? Que "ideologia é apenas um broche que você coloca na roupa para ir a uma festa", mais ou menos como falou, em tom irônico, uma professora nos tempos da graduação. E ela estava certa. Quer dizer, fazer um tipo, só pra ganhar uma garota - neste caso o povo -, dizer "eu te amo", e não ligar no dia seguinte. E como gosta de ser enganada esta garota, hein!? Por isso considero uma tremenda perda de tempo as exaltadas discussões, sobretudo nas redes sociais, onde se defendem partidos como se fossem times de futebol.


E no final das contas, o "traidor" ainda pode se sair como um gênio, como bem observou José Roberto de Toledo, no Estadão de 20 de junho
"Lula, pelo dito, não se arrepende de ter imposto a aliança com Maluf. Nem mesmo de ter posado para os fotógrafos na casa do ex-inimigo. Afinal, pelo raciocínio do ex-presidente, o único problema de seu candidato a prefeito paulistano, Fernando Haddad, é o desconhecimento. Logo, um episódio que rende manchetes mais ajuda do que atrapalha, pois puxa o pupilo do anonimato para a ribalta -não importa em que papel".


E também foi muito feliz na comparação de Lula com Getúlio Vargas, visto sua marcha para o caudilhismo:
A eleição de outro neófito pinçado por Lula seria a confirmação de sua doutrina: prévias partidárias são uma bobagem; a coerência política que importa é ganhar sempre; o aliado faz a hora e vice-versa. Seja qual for o resultado da eleição, Lula marcha para o caudilhismo getulista, e o PT, obediente, evoca cada vez mais o antigo PTB. Não existe vitória grátis.


Mas dentro do esgoto, ainda restam algumas bolhas de oxigênio. Luiza Erundina recusou sua candidatura a vice de Haddad, mostrando coerência, algo muito raro neste meio. Apesar de algumas criticas, dizendo que ela pensou apenas em si mesma, esquecendo-se de seus representados, como a de Luis Nassif, penso que ela agiu corretamente. 


O "ganhar a qualquer preço" na política é a Lei de Gerson ao extremo, é o jeitinho brasileiro potencializado, que tanto atrasa nosso país e que torna qualquer valor irrelevante, vazio. 





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