quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Economia e a Cidade Criativa

por Julio Canuto


De tempos em tempos novos termos ganham destaque no cenário político e econômico, muitas vezes sendo entendido como uma panaceia. Logo, surgem os que vão contra a onda e procuram desmascarar a nova "estratégia conspiratória do capital". O debate é importante. O problema é a limitação das análises (quando só se defende, ou só se acusa). Isso acontece agora com a "economia criativa", mas podemos recorrer a outro termo de anos atrás para exemplificar: globalização.

GLOBALIZAÇÃO

No final dos anos de 1990 e começo dos anos de 2000, o termo do momento era globalização. Com o fim da guerra fria e da "divisão dos mundos" entre capitalistas, socialistas e os dependentes de um ou de outro bloco, a economia chegava a um estágio onde todos (ou quase todos) passavam a se relacionar. As fronteiras dos Estados, antes bastante sólidas, caíam por terra, e empresas, tecnologias, empregos, oportunidades, riquezas etc. passavam a transitar de país a país, de continente a continente, de hemisfério a hemisfério. Oportunidade para as multinacionais e, mais ainda, para os países pobres, que teriam emprego para sua população e acesso a tecnologias. Os Estados endividados eram incentivados (ou quase que obrigados) a abrirem suas fronteiras.

Rapidamente a critica também foi globalizada. Tratava-se de uma falsa ideia de participação na economia global. Era, em verdade, o agravamento da dependência. Assim, a globalização era um engodo, e os governos que embarcavam nessa eram traidores, estavam vendendo as riquezas nacionais, fazendo com que sua população trabalhasse praticamente de graça, com seus direitos desrespeitados.

Enfim, era a panaceia ou a total submissão do homem. Ou "apenas" o fim da história.

Fora das opiniões extremistas, um dos pensadores que melhor se debruçou sobre a questão foi o geógrafo brasileiro Milton Santos. Em sua obra ensaística intitulada "Por uma outra globalização - do pensamento único a consciência universal", de 2001, ele analisa a globalização a partir de três pontos de vista:

1. o mundo tal como nos fazem crer: a globalização como fábula;
2. o mundo como realmente é: a globalização como perversidade;
3. o mundo como pode ser: uma outra globalização.

A globalização tem como característica a propagação da ideia de que tudo está ao alcance de todos, a aldeia global, processo este impulsionado pelo "extraordinário progresso das ciências e das técnicas", mas que em realidade se trata da consagração do discurso único, com a "economização e monetarização da vida social e da vida pessoal". 


Neste sentido, a fábula consiste na falácia da homogeneização do planeta, da cidadania universal, quando na verdade a busca da uniformidade serve apenas aos atores hegemônicos, acabando por aprofundar ainda mais as diferenças locais. Enquanto se proclama a morte do Estado, o que ocorre é o seu fortalecimento para atender aos grandes interesses internacionais, sobretudo das finanças. A fábula é, portanto, a "ideologização maciça". A perversidade está nas consequências locais do embarque dos governos à fábula da globalização: aumento das desigualdades sociais, aumento do desemprego, recuo nos direitos trabalhistas, diminuição do salário médio, quebra das empresas nacionais frente aos benefícios às grandes corporações. Às grandes empresas não há fronteiras, mas aos trabalhadores sim (como exemplo a fronteira dos EUA com o México, ou a xenofobia na Europa). A possibilidade visualizada por Milton Santos tem sua base também na unicidade da técnica, porém "postas ao serviço de outros fundamentos sociais e políticos". Para tanto, a diversidade social em todos os continentes (povos, raças, culturas, gostos) acrescidos dos progressos da informação poderia favorecer o fortalecimento da cultura popular. Isto é, pensar globalmente e agir localmente, promovendo a ideia de que "o centro do mundo está em todo lugar, o mundo é o que se vê de onde se está". Integrando-se, mas sem perder sua identidade.

ECONOMIA CRIATIVA

Com a Economia Criativa parece estar havendo o mesmo processo. Alguns a consideram a salvação da economia para todos os países, e como Londres é uma das cidades pioneiras neste setor, a cópia das ações daquela cidade seria o caminho para o desenvolvimento. Para outros, trata-se apenas de um rearranjo do capital, que agora mais do que as mãos (de obra), coloca todo o intelecto a seu serviço. Seria então a exploração ao extremo. No campo da cultura (das artes) - ao qual a economia criativa não se restringe -, a economia criativa vem "para justificar a lógica de mercador de certos administradores culturais".

Vejam, o fato de copiar os tais "países do primeiro mundo" é uma prática das mais prejudiciais aos "países em desenvolvimento". E o Brasil é um exemplo disso. Por outro lado, prejudicial também é aceitar sua condição (imposta) de dependente, e agir apenas sob esta ótica. Sobre a troca da mão pelo intelecto, isso é uma verdade, mas não toda a verdade. É evidente que o trabalho tem se modificado. Novas profissões surgiram nos últimos anos, enquanto outras estão desaparecendo. As atividades intensivas em conhecimento e tecnologia são as que produzem bens e serviços de maior valor agregado, também porque não necessitam de grandes áreas, de muitos equipamentos e de muitas pessoas. Há tempos a industria faz produtos "sob medida" para perfis de consumidores, e a publicidade (que faz parte do setor criativo) tem papel de destaque nisto. As grandes cidades - como São Paulo - tem a concentração dos escritórios de grandes empresas de tecnologia como fator de desenvolvimento, e procuram estimular a tendência, trazendo também profissionais altamente qualificados. Já no que se refere a cultura, a massificação foi (e ainda é) uma estratégia utilizada para o adestramento dos corpos e, consequentemente, a geração de lucros. Uma vez propagado um tipo de comportamento, todos os produtos que a compõe tem garantia de vendas. E isso desde um tênis ou um perfume, até músicas e demais produtos culturais. É a já bastante conhecida Indústria Cultural, como o pessoal da Escola de Frankfurt ha décadas já havia estudado.

Evolução do conceito

Pois bem. A economia criativa não é nenhum novo setor, mas de fato um rearranjo de atividades onde estão os bens e serviços de maior valor agregado. São atividades que já existiam, mas que agora estão sendo vistas em conjunto e medido seu peso na economia. Não se trata de um modelo ou receituário colocado a todas as nações. O debate está aberto, há muitas trocas de experiências entre os estudiosos de vários países e muitas formas de definição e delimitação. 

No Brasil,  uma das pessoas com maior conhecimento no assunto é Ana Carla Fonseca Reis. Seu livro recentemente publicado "Cidades Criativas: da teoria à prática", fruto de seu doutorado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), traz o histórico do conceito de economia criativa. Não faço aqui um resumo deste trabalho, mas apresento alguns pontos a partir da minha leitura e opinião.

Pode-se dizer que o conceito, ainda como indústria criativa, teve origem em 1994, a partir do Creative Nation, discurso proferido por Paul Keating, Primeiro Ministro da Austrália, com o sentido de aproveitamento das tecnologias como forma de defender a identidade local, como oportunidade econômica de fortalecer a cultura e a democracia, isto é, como reposicionamento no cenário mundial. 


Quem fala especificamente na geração de empregos e riqueza "por meio da geração e exploração da propriedade intelectual" é o Department of Culture Media and Sport (DCMS), do Reino Unido, levando-se em consideração a importância de empresas como a Virgin e a WPP na economia da Grã-Bretanha. O contexto socioeconômico no qual é criado o DCMS, por Tony Blair, é pós-industrial. A orientação era a de juntar setores de maior vantagem competitiva, o que revelou o impacto econômico das atividades que utilizam a criatividade como principal ativo, sendo estimada sobre o PIB, donde se evidenciou sua importância. Trata-se, portanto, do reposicionamento do país, aproveitando-se do que já havia de concreto. Isto é, tratou-se de potencializar o que já vinha acontecendo, mas não se tinha uma visão e ações focadas para isso. 



Como uma potência industrial que sempre foi e que sempre foi seguida, também esta ação do Reino Unido se espalhou pelo mundo, tendo a ideia replicada em vários e distintos países com economias estagnadas ou emergentes. E aí reside o perigo da cópia, pois cada paí possui características e vocações distintas. 


Dados da UNCTAD (sigla em inglês para Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento) mostra que em 2002 os países em desenvolvimento só superavam os desenvolvidos em exportação de bens criativos no artesanato (52,5%) e se aproximavam no design (46,5%). Já em 2008, os países em desenvolvimento superavam os desenvolvidos em artesanato (64,1%), design (50,6%) e novas mídias (52%). É óbvio que em outros setores, como artes e espetáculos, também há muita produção nos países em desenvolvimento. Porém, em geral a exploração comercial é feita por estúdios e produtoras estrangeiras. Assim, afirma Reis:
A única foma de os países em desenvolvimento se beneficiarem de fato dos diversos setores criativos é investindo em políticas que vão além da preservação e do fomento à produção. Estas têm de envolver canais de distribuição, fortalecimento dos empreendedores, marcos regulatórios, capacitação, formas de financiamento como investimento (e não a fundo perdido), entre outras (REIS, 2012, p.29).
Sem entrar nos números do setor criativo na economia brasileira (que poderá ser tema de uma nova postagem), podemos citar que tecnologia e cultura são os eixos estruturantes das indústrias criativas. 

É a partir de 2006/2007 que o termo indústria criativa passa por modificações, até chegar ao conceito de economia criativa, diferenciando criatividade de indústrias culturais e indústrias criativas, chegando ao restante da economia. Estas três dimensões são representados por círculos, onde a criatividade é o menor, e está dentro dos demais. Aqui tem destaque as relações sutis de outras áreas da economia, chegando a denominação de economia criativa.

Em todos os casos, os talentos criativos, isto é, profissionais que possuem o conhecimento para desempenhar as atividades e trazer inovação, são fundamentais. É na observação dos talentos criativos que vamos chegar a ampliação do conceito para Cidades Criativas.

Em síntese, pode-se falar de três abordagens sobre o tema:


  • Indústrias criativas: setores com maior nível de criatividade;
  • Economia criativa: conexões e impactos das indústrias criativas em outros setores da economia, vistos não apenas como contribuição ao setor econômico, mas as mudanças sociais, organizacionais, políticas, educacionais e também econômicas. Isto é, a conexão com o desenvolvimento social, e neste sentido o reconhecimento de que a criatividade humana e os saberes locais podem ser ativos econômicos (valorização do intangíveis culturais).
  • Talento criativo: "a capacidade de expansão do horizonte criativo humano, bem-estar social e impacto econômico". Alguns países e cidades erraram exatamente nesse ponto, agindo apenas no sentido de incentivar a vinda de profissionais criativos, sem contudo levar em consideração a população local e o seu desenvolvimento no novo cenário econômico pretendido (sim, porque sem as pessoas que formam um território, atua-se apenas em prol do desenvolvimento/crescimento econômico).

CIDADE CRIATIVA


Assim como os conceitos de industria criativa e economia criativa, espalhados pelo mundo a partir das ações do Reino Unido para aumentar sua competitividade, também o conceito de cidade criativa veio da necessidade de recuperação de antigos centros industriais, como Birmigham e Manchester. O arquiteto Charles Landry foi o primeiro a utilizar a expresão. Ele encarava a criatividade de modo "multidisciplinar, transversal as atividades econômicas e estrutural as políticas de desenvolvimento", com papel crucial da cultura como processo, simbologias, impacto econômico e atratividade turística, inclusão social (a cultura não se pode copiar). Isto é, recursos culturais (não confundir com recursos artísticos) e criativos aproveitados em seu contexto, e daí todas as questões que isso envolve, com enfoque sobre as políticas públicas em todos os setores essenciais das cidades, tendo o objetivo de atrair talentos criativos, mas sobretudo valorizar e desenvolver talentos locais.



Para Landry, cidade criativa é "um lugar que estimula e incorpora uma cultura da criatividade no modo como os stakeholders urbanos atuam". Estimula a abertura mental, imaginação e participação pública, portanto totalmente ligado à melhora da qualidade de vida e cidadania.

A ampliação do conceito para cidades criativas mostra que mais do que setores econômicos criativos, faz-se necessário fomentar a criação de ambientes que favoreçam a criatividade. Sua análise, portanto, sai do viés puramente econômico e chega a questão da cidadania, envolvendo acesso a saúde, educação, artes etc. Isto é, o investimento deve ser nas pessoas e em seus projetos.

CONCLUSÃO

No caso brasileiro, um estudo feito pela FUNDAP [1], a pedido da Prefeitura de São Paulo, delimitou as atividades econômicas e as ocupações (com base no CNAE e CBO [2]) da economia criativa. Sobre as atividades, elas estão nos seguintes grupos: arquitetura e design; artes performáticas; artes visuais, plásticas e escritas; audiovisual; edição e impressão; ensino e cultura; informática; pesquisa e desenvolvimento; e publicidade e propaganda. Portanto, além das artes, inclui os setores intensivos em conhecimento e tecnologia, com atividades de grandes empresas e também as de pequeno porte, e seus impactos transbordam para atividades tradicionais.


É claro que o histórico que já alcança vinte anos de discussões e ações sobre o tema é bem mais complexo do que eu apresentei aqui. Reis discute as ações de algumas cidades que investiram neste caminho, analisando-as sob três aspectos: cultura, inovações e conexões. Não vou entrar no mérito de explicar cada um dos aspectos, tampouco falar sobre suas  análises das cidades. Quero apenas, neste primeiro artigo, chamar a atenção para o fato de que a ideia de desenvolvimento só pode estar ligada ao desenvolvimento social, que compreende o desenvolvimento da cidadania. Por isso se fala em ambiente criativo. Para aproximar o tema central com o exemplo dado no início, poderíamos falar em território criativo

A economia criativa está na pauta do governo federal, através da Secretaria Nacional de Economia Criativa, vinculada ao Ministério da Cultura - no caso de maneira rasa, sem nenhuma grande ação para efetivamente favorecer o desenvolvimento cultural, social ou econômico. Algumas cidades já desenvolvem a ideia, produzem estudos e diagnósticos sobre os setores criativos, já planejam e executam ações. Cabe a cada ator em cada região (seja empreendedor, grupo, indivíduo) não deixar o debate de lado, ficar atento aos direcionamentos a que se dá ao tema e pressionar para que seu trabalho, anseios e desejos tenham seu lugar nessa configuração. 

Não embarcar nas fábulas e afastar as perversidades, pois mais importante e útil do que considerar a panaceia ou a submissão total, é colocar as novas possibilidades a serviços dos fundamentos sociais e políticos que acreditamos, aos quais já estamos incluídos. 

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[1]FUNDAP. Economia Criativa na cidade de São Paulo: diagnóstico e potencialidade. São Paulo, 2011. Versão PDF:
http://novo.fundap.sp.gov.br/arquivos/PDF/Livro_Economia_Criativa_NOVO.pdf


[2] CNAE: Cadastro Nacional de Atividades Econômicas; CBO: Cadastro Brasileiro de Ocupações.


REIS, Ana Carla Fonseca. Cidades criativas: da teoria à prática. São Paulo: SESI-SP editora, 2012.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 6a. edição, Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001.

Site Criaticidades: http://www.criaticidades.com.br/


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