sábado, 28 de julho de 2012

A vida é profunda em sua simplicidade

por Julio Canuto

Caros amigos, leitores acidentais desse blog. Sim, não sei se alguém ainda procura por este blog. Pelo que vejo nas estatísticas, as pessoas o acessam procurando algum assunto, ou por amigos que nos acessaram a partir do compartilhamento das postagens no facebook e twitter. Há sete anos, quando o criamos, estes sites "faça você mesmo" (do qual os blogs fazem parte), eram boas ferramentas de comunicação. Na verdade era a única. Sim, tínhamos os e-mails. E também tínhamos o orkut. Mas todos nós sabemos que as pessoas nunca gostaram de receber e-mail com texto longo, e o orkut servia basicamente para xeretar a vida dos outros. 

Pois as redes sociais evoluíram, e criaram dois tipos que - pra mim de maneira inacreditável - coexistem, sendo utilizados pelas mesmas pessoas: o twitter, com textos de no máximo 140 caracteres, e o facebook, onde se publica qualquer tipo de coisa em qualquer tamanho. 

Talvez o twitter e o facebook sejam apenas as modinhas do momento e em breve as pessoas vão enjoar deles (talvez migrarem para o google +, ou algum outro que aparecer). Ou, melhor, as pessoas vão passar a utilizá-los com certa prudência, sem ficar compartilhando bobagens, imagens com frases prontas etc. Oh, mas que merda estou falando, cada um usa a rede da maneira que quiser. Na verdade, penso que muitas pessoas acabam se revelando.  Sentem uma necessidade de serem vistas, assim como no noticiário das chamadas celebridades. Sim, elas publicam algo do tipo: "Saindo do trabalho. Agora é encarar o transito e depois relaxar no conforto da minha casa". Ou: "passeando com meus melhores amigos". Diga pra mim: há necessidade de comunicar a uma rede de pessoas (algumas tem mais de 1.000 "amigos") que você está saindo do trabalho e vai enfrentar trânsito em São Paulo? Ou se está saindo com amigos e comunica a todos, o que significa? Que todos estão convidados a ir também? Passa o endereço, pô.  E finalmente, quando aparecia alguma discussão que pensava valer a pena, virava um FlaxFlu. O fato é que me dei conta de que tudo o que via no facebook, cerca de 98% não me interessava. Eram coisas inúteis. Pois esta semana desativei as contas de twitter e facebook. Estou fora das redes, mesmo que isso cause certo prejuízo no número de leitores do blog. Posso utilizar o bom e velho e-mail e mandar as postagens para quem eu quiser. 

Outra coisa que devo falar para completar o sentido da postagem: estou terminando minhas férias de 30 dias. Pensei e me programei para viajar, mas na hora H resolvi ficar em casa. Pela primeira vez. Isso mesmo: 30 dias em casa, vivendo a simplicidade da vida doméstica, do bairro. Nem passeios pela cidade eu fiz. Sei lá, vontade de nada mesmo. Ouvi músicas, bebi, li bons livros, fiz caminhada no parque do bairro, fui ao mercado várias vezes às tardes. Era uma vida que eu não tinha (pra quem mora na periferia de uma grande cidade, tudo se resolve nas imediações do trabalho, distante de casa). E durante todos esses dias, auxiliado pelo ócio, pela leitura e também pela bebida, pude pensar em várias coisas. Óbvio que não vou ficar aqui filosofando sobre a vida. Mas hoje mesmo, quando acabei de ler "Hollywood" do Charles Bukowski (um dos meus escritores favoritos) vi um trecho muito interessante, que resume a importância da vida simples, com nossos costumes de rotina, fora do que nos vendem como modo de vida e como atitudes importantes (como viajar para um local paradisíaco para ficar enchendo a cara e festejando, ou me manter nas redes sociais), mas o que nos põe a pensar sobre nossas vidas: até onde somos nós mesmos, e a partir de que ponto somos o que todos querem que sejamos? E que sentido há nisso tudo? 

O título da postagem, como verá, foi pinçado do trecho. Só para contextualizar: o narrador é Henry Chinaski, personagem de Charles Bukowski. Na história ele já tem cerca de 60 anos, está mais tranquilo, tem uma boa companheira ao seu lado (Sarah), escreve um argumento meio a contra gosto, mais pelo dinheiro. Depois de muitos problemas o filme é rodado, ele acompanha as filmagens e terminado os trabalhos ele volta a sua rotina de jogar nos cavalos.


Voltei ao hipódromo. Às vezes me perguntava o que fazia ali. E às vezes sabia. Entre outras coisas, aquilo me permitia ver grande número de pessoas sob a pior luz, e isso me mantinha em contato com a realidade do que era feita a humanidade. A ambição, o medo, a raiva, tudo estava ali.
Há certos indivíduos característicos em toda pista de corridas, em toda parte, todo dia. Provavelmente me viam como um desses personagens, e eu não gostava disso.  Teria preferido ser invisível. Não gosto de fazer rodinhas com os outros jogadores. Não quero discutir os cavalos com eles. Não os vejo como nenhuma espécie de camaraderie. Na verdade, jogamos uns contra os outros. A pista de corridas jamais tem um dia de prejuízo. Ela tira sua fatia, o estado tira a dele, e a fatia vai ficando cada vez maior, o que significa que para um jogador ganhar regularmente tem de ter uma margem decidida de aposta, um método superior, uma visão lógica. O jogador médio joga diariamente duplas, exatas, triplas, hexas ou nonas. Acabam com as mãos cheias de cartões inúteis. Apostam na vitória, apostam no placê, apostam na mostra. Mas há apenas uma aposta, e essa aposta é para ganhar. Isso alivia a pressão. A simplicidade é sempre o segredo de uma profunda verdade, para fazer as coisas, para escrever, para pintar. A vida é profunda em sua simplicidade. Acho que a pista de corridas me mantém consciente disso.
Mas, num outro sentido, a pista de corridas é doença, um recheio, um substituto para outra coisa que se deve enfrentar. Contudo, todos nós precisamos de fuga. As horas são longas e têm de ser preenchidas de algum modo até nossa morte. E simplesmente não há muita glória e sensação para ajudar. Tudo se torna logo chato e mortal. Acordamos pela manhã, jogamos os pés pra fora da cama, colocamo-los no chão e pensamos ah, merda, e agora?
Às vezes, eu ficava doente com a necessidade de ir às corridas. Jogava nos puro-sangues durante o dia e à noite me via jogando nos quadrões e nas corridas de matungos, a depender do que houvesse. E ali, à noite, via algumas das pessoas que tinha visto durante o dia. Apostavam à noite também. O último grau da doença.
Assim, voltei às corridas e esqueci inteiramente o filme, os atores, a equipe e a sala de montagem. A pista mantinha minha vida simples, embora talvez “idiota” seja uma palavra melhor.
À noite, geralmente via um pouco de TV com Sarah, depois subia e brincava com o poema. Era ele que me impedia a mente de estalar. O poema era o que eu precisava de fato. Precisava de fato.


Enfim, isso é só uma reflexão.

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