segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Representação e autenticidade: a questão do Ser em Heidegger

por Julio Canuto

Dando sequência nas reflexões mencionadas na mensagem anterior, passei a fazer algumas pesquisas com base em alguns estudos realizados no ano passado. O tema, colocado em forma de questão (até que ponto somos nós mesmo e a partir de qual ponto somos o que os outros querem que sejamos? E que sentido há nisso?), diz respeito a representação que cada um faz, que pode durar toda a vida, chegando a entender isso como a sua verdade, a sua essência, simplesmente aceitando as convenções, sem saber de onde elas vêm, para que e a quem servem. Um vida tranquila, sem dúvidas, que até pode ser considerada feliz... mas uma representação. 

O assunto já foi tratado no blog em postagem de janeiro de 2008, com citações da Dialética do esclarecimento, de Horkheimer e Adorno, em um texto que fazia um paralelo dos acontecimentos cotidianos com a leitura da obra.

Mas o que chamo hoje de "representação" pode ser entendido como inautenticidade da existência, para fazer a justa aproximação com o filósofo aqui comentado. Já a busca pela verdade do Ser, a busca pela autenticidade, contrariamente a tranquilidade e "felicidade" da representação - que só pode existir em convenção - é um caminho mais difícil, que não necessariamente exclui seu oposto, mas que não tem nada de "feliz", e está localizado na angústia.


Martin Heidegger (1889-1976) é quem traz à tona a questão do Ser, já com toda a bagagem da filosofia ocidental, deste os pré-socráticos até a segunda metade do século XX. O texto abaixo é composto por trechos do artigo do Professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) Marco Aurélio Werle, intitulado A ANGÚSTIA, O NADA E A MORTE EM HEIDEGGER, publicado em Trans/Form/Ação (São Paulo, 2003), como resultado de uma palestra apresentada na XXVI Jornada de Filosofia e Teoria da Ciências Humanas – a filosofia da existência e a tragédia moderna, na UNESP/Marília, em 07/11/2002. 

Um excelente texto, que traz de forma clara a questão do Ser em Heidegger a partir dos conceitos de angústia, nada e morte, porém sem perder a complexidade da obra do filósofo alemão.

Ao final do resumo, há o link para o texto na íntegra. Boa leitura. Boa reflexão.


O problema fundamental da filosofia de Heidegger como um todo não é a existência, mas a questão do Ser. O ponto de partida de Heidegger, ou o que coloca o problema do ser, é o esquecimento do ser, que o filósofo diagnostica em toda a tradição filosófica ocidental, começando com Platão e se estendendo até Nietzsche. Desde os gregos o pensamento não teria distinguido adequadamente a diferença entre ente ser. Trata-se aqui da confusão entre o ôntico (relativo ao ente) e o ontológico (relativo ao ser), que perfaz a diferença ontológica.
Desse modo, logo no começo de Ser e tempo, Heidegger afirma que a questão do ser não se coloca senão ao ente privilegiado que é capaz de questionar o ser, que possui uma compreensão do ser [Seinsverständnis]. Este ente é o homem, que Heidegger chama de “ser-aí” [Dasein], o homem enquanto um ente que existe imediatamente em um mundo. Dasein é o homem na medida em que existe na existência cotidiana, do dia-a-dia, junto com os outros homens e em seus afazeres e preocupações.
ser-aí é imediatamente o homem e o mundo ao mesmo tempo, em sua realidade finita imediata, entregue ao seu destino.
Quanto ao conceito de existência, Heidegger diz: “A palavra existência designa um modo de ser e, sem dúvida, do ser daquele ente que está aberto para a abertura do ser, na qual se situa, enquanto a sustenta”. Se partimos da compreensão do ser que define a existência, também deve ser levado em conta que esta existência é na maior parte das vezes existência inautêntica [uneigentlich], ou seja, o homem no cotidiano se mantém numa situação de encobrimento de seu ser, possui uma interpretação errônea de sua própria existência, que se mantém para ele encoberta. Esta tendência de encobrimento é principalmente provocada pela tradição. [...]Ou seja, a tarefa de Heidegger é a de mostrar como no dia-a-dia da existência (do homem do século XX) domina amplamente um esquecimento do ser.
O ser-aí, o Dasein, imerso em sua existência, é um ser-no-mundo[In-der-Welt-sein]. O conceito de ser-no-mundo é uma estrutura ontológica fundamental do ser-aí, que indica a inseparabilidade do homem e do mundo e igualmente do mundo em relação ao homem.
Uma primeira etapa da analítica existencial consiste m discutir o conceito de mundo: um certo âmbito constituído pelo Dasein, no sentido de que o Daseinconfere ao mundo o caráter de mundo, a sua mundanidade. Na verdade, o que define mesmo o mundo para o Dasein passa pelo modo como o Dasein se relaciona de modo imediato com o mundo, ao trabalhar e operar com instrumentos de seu dia-a-dia.
Não é o acesso teórico que garante um ingresso ao mundo, pois o mundo sempre está aí presente, antes mesmo que eu possa pensá-lo. A relação do homem com o que está diante dele é um manual, num horizonte de significados determinados por um contexto e pelo uso. A manualidade e o caráter de instrumento definem o modo de ser dos entes no mundo.
O passo seguinte da analítica existencial se define pela exploração do fato de que o Dasein vive em um mundo com outros entes que têm o modo de ser doDasein, ou seja, temos aqui o problema da intersubjetividade ou o caráter social da existência. Ele vive em um mundo em que também existem não apenas instrumentos e objetos que o cercam, mas fundamentalmente outros entes com o modo de ser do Dasein. Como se põe a sociabilidade para Heidegger? Na resposta pelo eu e pelo nós, pela diferença e pela identidade dos homens no mundo. A relação entre os Daseins nasce de uma dependência entre os homens decorrente de sua ocupação com os entes por meio da preocupação [Fürsorge]. Com os manuais eu me ocupo, ao passo que com os homens eu me pre-ocupo [Fürsorge]. Esta preocupação na existência, porém, não é positiva, e sim assume a forma de uma impessoalidade [das Man] hipócrita, na qual os homens se “preocupam” demasiadamente com o outro e com o que sepensa e se acha socialmente e se esquece do verdadeiro sentido de sua própria existência. A vida social é o império do a gente, a ditadura do impessoal, o âmbito em que se confunde o todos nós e o ninguém, na medida em que se age de acordo com o que se pensa em geral. Ocorre aqui uma perda do Dasein no espaço aberto daopinião pública [Öffentlichkeit].
Mas como se revela de fato o estar aí do Dasein no mundo e na medida em que o Dasein lida com outras pessoas do seu meio ambiente cotidiano? Para isso Heidegger dá um terceiro passo na determinação da analítica existencial. Trata-se de questionar agora o aí [Da] do ser-aí. A abertura primeira e fundamental de mundo se dá para o Dasein por meio de uma estrutura tripla que envolve a disposição, a compreensão e a interpretação. O ser humano é assaltado por estados da alma (sentimentos) que abrem para ele irrefletidamente o mundo, geralmente por meio de um certo desvio.  O ser humano inteiro está compreendido em seu mais próprio poder-ser numa situação de mundo, o que remete ao conceito de projeto [Entwurf]. Muitas vezes, por exemplo, compreendemos sem nada dizer: o silêncio fala muito mais do que muitas palavras (aliás, o palavreado é um dos fenômenos que encobre o compreender). Trata-se aqui dos fenômenos do falatório, da curiosidade e daambigüidade, que levam o Dasein a se perder no ambiente público e impessoal.
Mais uma vez vemos este traço fundamental do encobrimento e da fuga de si mesmo se fazer valer e determinar o ser-no-mundo do ser-aí. Mas haverá então uma possibilidade de o ser-aí sair de sua inautenticidade? Qual é o traço constitutivo da existência do Dasein, no qual reside a totalidade do ser da existência do homem? Este traço se encontra no conceito de angústia.
Há muito mais força de revelação do mundo no temor do que em qualquer outro tipo de acesso ao mundo, por exemplo, na alegria ou na felicidade, os quais são muito transitórios e menos marcantes. Em termos mais precisos, o medo é uma disposição central na nossa existência pelo fato de que manifesta o mundo no ato de fuga do ser-aí de si mesmo. Embora o homem tema por algo que é objetivo no mundo, o endereço último de seu temor não é o objeto fora dele, mas sim ele mesmo.
diferença entre a angústia e o temor reside precisamente no fato de que a angústia é mais ampla que o temor. O temor é direcionado a um ente determinado da nossa existência, ao passo que o objeto da angústia, ao qual ela se dirige, é “completamente indeterminado”. Mas, com isso, sempre afundamos mais na angústia. EmQue é metafísica? (texto de 1929 que explora motivos centrais de Ser e tempo) Heidegger diz: “Por esta angústia não entendemos a assaz freqüente ansiedade que, em última análise, pertence aos fenômenos do temor que com tanta facilidade se mostram”. E em Ser e tempo afirma: “A angústia se angustia pelo próprio ser-no-mundo (...). o mundo não é mais capaz de oferecer alguma coisa nem sequer a co-presença dos outros. A angústia retira, pois, do ser-aí a possibilidade de, na decadência, compreender a si mesmo a partir do mundo e na interpretação pública”.
É a existência enquanto tal que é angustiante, todo o mundo se torna para nós sem importância, pois não encontramos sossego em nenhum ente. Não sendo nenhum objeto determinado, o que angustia o homem é um nada enquanto tal. A angústia nos corta a palavra.
Quando somos perguntados sobre o que nos angustia, respondemos meio de modo inconsciente: “não é nada” ou “não é nada e já vai passar”. Nos angustiamos, mas não sabemos identificar o objeto de nossa angústia. Esse nada determina a angústia. O nada não é a negação, mas a origem dela. É somente porque existe o nada que se coloca a negação, no sentido de que a negação é o ato humano de determinação, ou mesmo de resolução do nada.
No que se refere a isso, importa também distinguir que o nada do qual se trata em Heidegger não é a negatividade, o negativo ou a negação determinada de Hegel. Em Heidegger, o nada é mais forte que a negação e não pode ser resolvida por ela ou por uma possibilidade de determinação subjetiva.
O nada se coloca por si mesmo na angústia, não precisa ser criado, mas se revela na angústia e ao mesmo tempo a provoca, ele é a causa e o efeito ao mesmo tempo. Para isso Heidegger emprega a expressão: “o nada nadifica”, para dizer que o modo de o nada se manifestar somente ocorre por meio do nada mesmo. O nada, posto que está acima de um ente determinado, é assim o próprio véu do ser que se revela em nossa existência por meio da angústia. O ser tem em comum com o nada o fato de não se esgotar em nenhum ente determinado e não poder ser nunca definido.
A angústia e o nada tomam o todo do ser do Dasein, fazendo com que o próprio ser-no-mundo seja abalado em suas bases e seja sentido em seu fundamento como angustiante. A angústia reside no puro fato de existir; o simples ser-no-mundo, o mundo como mundo, é a origem da angústia que nos toma por inteiro. A gente se sente estranho na angústia, uma estranheza que é ao mesmo tempo um não sentir-se em casa, e remete ao estado fundamental do homem no mundo.
O lado “positivo” deste fenômeno é que ele coloca pela primeira vez a existência humana diante de si mesma, fazendo com que o Dasein possa ultrapassar a si mesmo, alcançando uma situação concreta de transcendência. Diz Heidegger: “Só na angústia subsiste a possibilidade de uma abertura privilegiada na medida em que ela singulariza. Essa singularização retira o ser-aí de sua decadência, e lhe revela a autenticidade e inautenticidade como possibilidades de seu ser”.
No conceito de angústia e, por conseguinte, no de preocupação, Heidegger localiza a verdadeira possibilidade de virada da existência humana, a possibilidade de o homem sair da inautenticidade, na qual ele geralmente vive, e assumir a autenticidade. Por meio da preocupação, isto é, pressupondo que o homem seja tocado pela angústia, já que ela é rara, pode-se dizer que ele faz de uma só vez uma recapitulação de todo o seu existir e toma consciência [Gewissen] do caráter essencialmente finito de sua existência, toma consciência do caráter essencialmente temporal do ser e de que está entregue somente a ele mesmo e à manifestação do ser. Assim, a angústia desperta para a morte, enquanto dado temporal mais significativo da existência, e revela a finitude da existência humana, o fato de que o homem tem um fim, que ele morre e que sua existência acaba, ou seja, remete a um outro conceito fundamental de Heidegger, que é o ser-para-a-morte [Sein-zum-Tode]. A morteconstitui uma limitação da unidade originária do ser-aí. Mas há um lado positivo na morte, isso se o ser humano assume o seu ser-para-a-morte, isto é, leva em conta que a morte é um fenômeno da própria existência e não do término dela. A morte apenas tem sentido para quem existe e se põe como um dado fundamental da existência mesma. A tomada de consciência do ser-para-a-morte leva a um questionamento de todo o ser, no sentido de que o ser-humano se coloca radicalmente diante de seu ser.
Em suma, o que a analítica da existência de Heidegger nos apresenta é a interdependência mútua dos conceitos de medo, angústia, nada e morte. O papel destes conceitos consiste, pois, em gerar no ser-humano, o ser-aí, uma possibilidade para assumir sua autenticidade. Somente a partir destes fenômenos ocorre a virada na existência humana, quando o homem é tocado em seu ser pelo apelo do Ser. Seu despertar não se dá por meio do que costumeiramente se designa de alegria ou felicidade. Pelo contrário, para a ética heideggeriana vale sobretudo a finitude humana dos momentos de negatividade.

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