quinta-feira, 4 de outubro de 2012

As verdades das pesquisas

por Julio Canuto

Este ano, por conta das "surpresas" na corrida à Prefeitura de São Paulo e a superação - pelo menos até agora - da polarização entre PSDB e PT, as pesquisas de intenção de voto estão sendo colocadas em questão. Uma hora Russomano está disparado, com Serra e Haddad brigando pelo segundo lugar, bem de longe; depois Haddad aparece à frente de Serra em um instituto, mas em outro não. Logo em seguida Russomano cai sete pontos percentuais. E um pouco depois outro instituto mostra empate técnico de Serra com Russomano. Ai, ai, ai...

Sem colocar em dúvida a seriedade dos institutos e a correta aplicação das metodologias de pesquisa, diria que se há algo de concreto nestes diferentes resultados é a indecisão dos eleitores paulistanos, que a poucos dias de comparecerem as urnas ainda não definiram seu voto. E veja você que estamos falando da eleição a vaga de prefeito, que tem amplo espaço nos horários eleitorais, propagandas durante a programação de rádio e TV e cobertura nos jornais e internet. Imagine agora como está a cabeça do eleitor para a escolha de seu representante na Câmara Municipal: o vereador.

BREVE EXERCÍCIO PARA REFLEXÃO

Para quem acompanhou o blog no ultimo mês, pode constatar claramente que este é um tema que me incomoda, pela importância do papel do vereador na administração pública e o pouco espaço para que se conheçam os candidatos. Desse modo, tenho tentado apresentar caminhos para que o eleitor possa ter acesso a informações.

Nesta postagem, porém, vou falar de pesquisas e de como os resultados podem estar equivocados. Ou melhor, a resposta pode não estar no resultado do que foi coletado, mas além disso, mais ou menos como a minha afirmação algumas linhas acima, de que a indecisão é o fato concreto na disputa a prefeitura. Para isso, apresento brevemente um trabalho que realizei recentemente e que não se trata de uma pesquisa rigorosa, mas apenas um exercício para refletir sobre as verdades que as pesquisas trazem, e que intitulei como Análise do fracasso: exercício de pesquisa sobre as eleições a vereador na cidade de São Paulo.

Meu objetivo era coletar algumas informações sobre o conhecimento das pessoas a respeito do papel dos vereadores, saber de forma acompanhavam a campanha, se já tinham candidato, etc. Apenas para juntar expressões e representações sobre a disputa. Claro, estava disposto a receber as desilusões e desconfianças.

Encaminhei mensagem via e-mail a 22 amigos (todos adultos, acima de 30 anos; moradores da zona leste; eleitores na capital paulista) com algumas questões sobre as eleições a vereador. Todas as perguntas foram abertas, com prazo de 3 dias para retorno. Expliquei a todos que tratava-se de um trabalho de pós-graduação, portanto a contribuição deles era muito importante.

As questões foram:


1. Você tem acompanhado a campanha a vereador da cidade de São Paulo? De que forma?
2. Teve algum contato com candidatos a vereador? Se sim, descreva onde e como foi o contato.
3. Você já sabe em quem votar para vereador?
4. Como você escolhe seu candidato a vereador?
5. Você se lembra em quem votou para vereador na eleição de 2008? Voto em legenda (partido) também é considerado
            5.1 Se respondeu sim na questão anterior: sabe se o candidato foi eleito? (no caso de voto em legenda: o partido elegeu algum vereador?) 
            5.1.2 Se respondeu sim na questão anterior: Como avalia o mandato e o que você considera que o vereador fez de importante? (no caso de voto em legenda: avaliar a atuação e feitos do partido)
6. Quais são as funções de um vereador?
7. O que você espera que um vereador faça?

Com este formato procurei simplificar a pesquisa para que me respondessem da maneira que desejassem. Mas na data final, como apenas duas pessoas haviam respondido, reenviei a mensagem individualmente, pedindo que me retornassem até o dia seguinte. Assim obtive mais 4 respostas e finalizei com 6 respostas, para um total de 22 pessoas consultadas.

Organizei os resultados dos seis respondentes e apresentei por questão. 

O perfil dos respondentes foi de 5 mulheres e 1 homem. A instrução foi de Ensino Médio completo a Pós-graduação completo; trabalhadores em empresas privadas, públicas, por conta própria e desempregada. As idades variaram de 34 a 41.

Os seis mostraram opiniões sobre a forma como escolhem um candidato, sobre as funções do vereador e também declaram lembrarem como votaram nas eleições de 2008 e o resultado (se o candidato foi eleito ou não). Apenas um não sabia em quem votar nesta eleição, mas procura se informar e conversar com amigos sobre o pleito.

Mas o que mais chamou a atenção na pesquisa, dada a minha proposta de entrevistar 22 pessoas, foi que 16 não responderam, mesmo com a reiteração do pedido. 


Mas como saber se este baixo retorno não foi ocasionado por algum problema no envio das mensagens? Será que todos receberam? Confesso que não fiz esse controle. Mas resolvi fazer uma brincadeira com os 16 que não responderam: no dia seguinte, quando havia esgotado o prazo para os retornos, enviei uma mensagem com um assunto totalmente diferente, mas com estrutura semelhante. Isto é, mencionei um motivo especial (uma comemoração); marquei para 06/10, véspera da eleição (citando o assunto da pesquisa enviada anteriormente); e pedi que me confirmassem presença (retorno).

Em dez minutos, três respostas chegaram na minha caixa e algum tempo depois mais duas. Logo expliquei a brincadeira, antes que o boato se espalhasse ainda mais.

A intenção desta brincadeira não foi sacanear meus amigos, tratá-los como interesseiros ou qualquer outra coisa, mas apenas testar o interesse pelo assunto "eleições a vereador". Daí a importância de pensar as não-respostas.

AS NÃO-RESPOSTAS


Importante fazer algumas indagações:

Até que ponto as técnicas de pesquisa influenciam nos resultados?

A “opinião pública” é verdadeira?

Na elaboração de pesquisas estão utilizando de rigor ou de rigidez?

Para tratar do tema, recorro ao artigo "a opinião pública não existe", de Pierre Bourdieu, no qual ele afirma que o ato de recalcular as respostas excluindo as não-respostas (como fiz na grosseira análise mostrada anteriormente) constitui uma “operação teórica de uma importância fantástica”. 

 Diz Bourdieu:
Eliminar as não respostas é fazer o que se faz numa consulta eleitoral em que existem votos brancos ou nulos
Um dos efeitos mais perniciosos da pesquisa de opinião consiste precisamente em ordenar que as pessoas respondam a perguntas que não se colocaram...
Desse modo, parece que a maioria dos meus amigos (ainda) não estão interessados nas eleições a vereador, e “exigir’’ que me dessem uma resposta (caso eu tivesse feito a pesquisa face a face) poderia resultar em um conjunto de falsas opiniões. Da mesma forma, podemos perceber que os seis respondentes estão interessados na campanha ou, de fato, possuem uma opinião sobre as questões colocadas. Por isso deve-se ter muito cuidado com a formulação das perguntas, pensando sempre no entrevistado; procurar não restringir as respostas, isto é, pensar na diversidade de respostas que determinada pergunta pode ocasionar; também deve haver especial atenção ao ordenamento das questões. Enfim, é óbvio que outros fatores contribuem para o formato das pesquisas, sendo o custo um dos principais, mas é sempre muito bom refletir sobre isso antes e também depois da coleta.

ANÁLISE DO FRACASSO

Mas não basta dizer que o entrevistado estava interessado ou desinteressado, é preciso buscar os motivos para tal comportamento. Neste rápido exercício, posso arriscar dizer que o desinteresse pode ser compreendido analisando alguns dados da eleição a vereador, disponíveis no site do TSE: 
Total de vagas na Câmara Municipal:.......55
Total de candidatos a vereador:...........1.227
Candidatos a reeleição:............................47
Partidos:.................................................29

Propaganda Eleitoral para vereador:

21/08 a 04/10, terças e quintas-feiras e sábados

Rádio:...........7h às 7h30 e 12h às 12h30
TV:............13h às 13h30 e 20h30 às 21h

Isto é, 20 dias, com uma hora diária em cada veículo de comunicação:
para 1.227 candidatos!

O fracasso pode estar no formato das eleições a vereador: pela quantidade de partidos; pela quantidade de candidatos; pelo tempo reduzido para exposição de propostas; pela falta de critério dos partidos para lançar candidatos (ex.: candidato acidental, do jornal da tarde); etc. Nestas circunstâncias, o desinteresse é compreensível.

Como se vê, cada pesquisa nos fornece um resultado, mas "várias verdades", a depender da análise e do procedimento de pesquisa que se adota: ficar no resultado coletado ou ir além, buscando explicações? Olhar somente para as respostas, ou também para as não respostas?  Analisar também a estrutura do questionário?

O QUE FAZER PARA MELHORAR?

Em algumas regiões a sociedade tem se organizado e chamado os candidatos locais para debates em instituições e espaços comunitários, como igrejas e organizações sociais.

Matéria de 03/10/2012, assinada por Por Bianca Pedrina, Jéssica Moreira, Lívia Lima e Vander Ramos, do blog mural da Folha de S.Paulo comenta estas atividades em uma paróquia de Itaquera, na zona leste de São Paulo, e em Perus, na zona norte.  

Chama a atenção a declaração de um professor, que converge com o que foi exposto aqui:
“A comunidade deveria dar mais valor à figura do vereador. A população não tem interesse ou acesso. Ou a divulgação fica muito restrita. A eleição precisa criar essa prática de debates entre os candidatos. O ideal é levar às escolas, para atingir a massa”, avalia o professor de filosofia, Dimas Jaime Trindade, 56.
Ai está uma ótima iniciativa para promover o debate e fazer/possibilitar que os candidatos apresentem suas propostas, oportunidade dos eleitores conversarem com seus representantes olho no olho. Se a prática se tornasse comum, provavelmente iria diminuir a quantidade de candidatos "bizarros", ou das chamadas sub-celebridades, que procuram chamar a atenção de todos os modos, menos com discussões proveitosas (e há tempo para isso?), bem como partidos que se utilizam destas figuras para conseguirem mais votos.

Enfim, são apenas algumas reflexões para problematizar alguns aspectos que poucas vezes são questionados. 

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