terça-feira, 23 de outubro de 2012

Educação e desenvolvimento

por Julio Canuto

Atualmente tem-se debatido os desafios da economia brasileira para se firmar no cenário mundial como uma verdadeira potência, o que requer o aprimoramento de nossa capacidade de produzir tecnologia e inovação. As áreas de pesquisa e desenvolvimento são o foco deste processo, e dai várias questões vem à tona para evidenciar as causas do nosso atraso, das quais duas se destacam: deficiências na infraestrutura e má qualidade da educação.

Para recortar o tema, vou focar em dois artigos para explicar estes problemas, e logo em seguida utilizo um terceiro para problematizar o raciocínio. Não tenho a intenção de fazer qualquer juízo de valor sobre os que escreveram as análises, tampouco contrapor os argumentos, mas apenas expor os pontos que estão sendo bastante comentados e fazer uma reflexão.

A EDUCAÇÃO COMO ENTRAVE AO DESENVOLVIMENTO 

Recentemente tive contato com artigo do professor Paulo Roberto Feldmann, da Faculdade de Economia e Administração - FEA, da USP. Nele, o professor Feldmann faz uma análise do fraco desempenho da América Latina na área de tecnologia, e destaca as três causas para esta situação: a falta de grandes empresas de tecnologia originadas no continente e a ausência de investimentos dos governos em educação e infraestrutura. 
Existem inúmeras razões para explicar o atraso de nosso continente nessa área [produção de inovação], mas o meu foco está na questão da falta de grandes empresas de porte mundial com origem na própria região. Isso porque, hoje, quem investe em pesquisa e desenvolvimento são as empresas, em geral as maiores. E a América Latina ainda tem como principais investidores em pesquisa e tecnologia os governos e as universidades públicas. [...] 
Mas o problema, evidentemente, não está apenas na falta de grandes empresas. Algumas medidas de apoio governamental se fazem necessárias. Por exemplo, o baixo investimento em educação e a péssima infraestrutura são muito importantes para explicar a pequena presença da América Latina no que há de relevante em ciência e tecnologia no mundo de hoje.
Tive a oportunidade de ver recentemente a palestra do professor no Instituto de Pesquisas Tecnológicas - IPT, da USP, quando o professor trouxe ainda mais dados que o artigo. E quanto a educação, deixou claro que o foco do problema está no ensino básico. Na ocasião questionei se, entre tantos dados negativos, havia algum exemplo de iniciativas para melhora da educação, no sentido de preparar crianças e jovens para uma economia baseada na inovação e pesquisa, e citei o caso da educação municipal em São José dos Campos, que investe no empreendedorismo do primeiro ao nono ano escolar (embora também apresente limitações). 

A saída apontada pelo professor foi no sentido de haver um sistema de avaliação dos alunos, com prêmios para os professores responsáveis por turmas que se saírem bem e até mesmo punição para os responsáveis por turmas que se saírem mal. A resposta não me agradou, mesmo porque este é um modelo já implantado. Além disso, como mostrou a recente série de programas sobre cidades participantes do PISA, mesmo as que se destacam na avaliação revelam sérias deficiências na formação dos alunos. 

Tudo bem, o professor é da área de economia e não especialista em educação. Mas repare que quando fala em educação, o professor a considera um investimento do governo. Assim chego ao segundo artigo, publicado em 22/10/2012 por José Paulo Kupfer, no qual trata dos mitos do atraso, com foco na educação, e traz a tona o fato de que nas economias tidas como modelos, as empresas tem papel fundamental na formação profissional: 
Resiste, bravamente, na cabeça de quem faz esse rol de diagnósticos equivocados [sobre os gargalos na educação brasileira], a ideia de que a qualidade da educação brasileira depende da concentração de esforços e recursos no ensino básico, em detrimento do ensino superior. Disseminada e repisada há décadas, a proposta não passa de um absurdo lógico. Como almejar mais qualidade na educação básica sem professores preparados para a tarefa num ensino de terceiro grau qualificado?
Eis aí um aspecto chave da complexidade do problema. Somente ações integradas, que contemplem a cadeia educacional como um todo, da creche à pós-graduação, darão conta do enorme desafio. [...]
Para começar, quando se trata de pensar nos meios mais eficazes de ajustar a qualidade da formação de mão de obra às necessidades do mercado de trabalho, é comum cometer o equívoco de colocar toda a responsabilidade da superação do problema nos ombros do processo educacional, sem incluir no esforço o próprio mercado de trabalho.
Dos sempre citados casos de sucesso da Alemanha, do Japão e, sobretudo, da Coreia chegam lições genéricas e parciais acerca do alto grau de eficiência na aplicação de recursos em educação. Mas não é costume entre nós lembrar o protagonismo das empresas desses países modelares no processo de indução de formação profissional e absorção de trabalhadores qualificados.
PINGOS NOS "Is"

O leitor pode pensar que estou fazendo uma confusão, pois o primeiro falou em educação de forma geral, e o segundo em formação profissional. Mas não se trata de confusão, pois um tem total importância para o outro e, todos sabemos, a educação profissional está na grade curricular, sobretudo no ensino médio e, obviamente, no superior.

Sobre a observação de Kupfer, penso que seria ideal e até mesmo uma obrigação dos empresários investir em educação (e daí poderíamos discutir o nível de influência das empresas na educação), não apenas com dinheiro, mas abrindo as portas para o aprendizado sobre a utilização das tecnologias e outros procedimentos, da mesma forma como posteriormente devem buscar soluções nas universidades. Afinal de contas, fazemos parte de uma sociedade, todos temos papéis, funções e objetivos, e devemos zelar pelo coletivo. Isto porque as empresas, mesmo sem investir na educação, não deixam de ter um importante papel na formação das pessoas. 

Por outro lado, há um conceito colocado como foco nos dois argumentos, mas não explicados: a competitividade. Isto é, a melhora na educação tem como objetivo melhorar a produtividade e a competitividade da economia brasileira. E daí chegamos a problematização do tema.

O DESENVOLVIMENTO COMO ENTRAVE A EDUCAÇÃO


A edição brasileira do Le Monde diplomatique, de outubro, traz artigo do geógrafo Gilles Ardinat, que retoma os famosos argumentos de Paul Krugman em "competitividade: uma perigosa obsessão", quando observa:
é possível considerar territórios e empresas como instituições de mesma natureza? Um território, espaço apropriado e delimitado por uma fronteira, oferece a um povo suporte físico, assim como boa parte de suas referências culturais e políticas. Ele não se reduz a dados macroeconômicos: as notas (papel das agências de risco), as taxas (inflação, juros, desemprego) ou os salários (comerciais, orçamentários) refletem apenas um aspecto – superficial e material – da nação. Contrariamente a uma empresa, o objetivo maior de um território não é lucrar. Sua ação se inscreve no tempo longo da história, não no imediatismo dos mercados. Enfim, uma nação não faz balanços nem pode ser liquidada. [...]
É sobre essa assimilação, contudo, que se constrói a teoria da competitividade, um dos pilares da globalização. Aplicada aos territórios, essa noção marca uma nova etapa da “mercantilização do mundo”, porque subentende que existe um “mercado de territórios” em que as empresas podem escolher suas bases a partir do jogo da concorrência. Em um mundo onde tudo, ou quase tudo, pode ser cotizado na Bolsa (direitos de poluir, títulos de dívidas, matérias-primas), a competitividade faz as vezes de bússola para os investidores ao avaliar a suposta performance de um território.
Se pensarmos no caso brasileiro, vemos que (grosso modo), em menos de um século passamos de uma economia baseada na agricultura para exportação e importação de industrializados para a massiva industrialização, como projeto de governo. Chegamos ao final do século com a abertura econômica e sobreposição do setor de serviços sobre o industrial.  Enquanto o trabalho no campo predominava, a educação formal era dispensável aos trabalhadores; com a industrialização, algumas exigências se fizeram importantes; mas com a ascensão dos serviços e as constantes evoluções tecnológicas, a especialização tem se tornado cada vez mais necessária. Óbvio que aqui estou falando de maneira geral, mas com isso quero apenas destacar que o Brasil chegou à era do conhecimento com um enorme atraso educacional, o que limita seu crescimento em vários setores.

Mas as observações não param por ai. Neste mesmo período também passamos por diferentes regimes políticos e – mais importante – por uma completa mudança demográfica, com exponencial crescimento da população e a migração para os centros urbanos, produzindo uma mega conversão cívica, onde todos foram incluídos como cidadãos pela lei, mas sem a garantia dos direitos na prática, a qual esta sendo feita via consumo. Assistimos a flexibilidade dos vínculos trabalhistas, que muitas vezes constitui precarização dos vínculos. A competitividade, como bem observa Ardinat, é assumida por governos e, consequentemente pelos governados. É um valor disseminado em todos os ambientes, inclusive na educação (e por isso minha insatisfação com a resposta do professor).

CONCLUSÃO

A educação sempre serviu a economia e arrisco a dizer que esta é causa do nosso atraso. Os modelos de desenvolvimento caminharam nessa direção, e agora não é diferente. Espera-se uma rápida adaptação da educação para dar conta da demanda por profissionais aptos a lidar com as novas tecnologias, e que estes criem novas tecnologias. Obviamente isso não se faz de um dia para o outro.

O atraso refere-se a falta de um planejamento de longo prazo, pois por estar somente submetido a interesses econômicos, o tempo a que obedece a educação é o da necessidade imediata das empresas. Porém, chegamos em um tempo em que se impõe um desenvolvimento integral, não apenas da mão de obra (pois saímos das fábricas), mas do cidadão, pois só este tem uma visão completa a respeito da sociedade, o que inclui uma leitura crítica do seu lugar no mundo, bem como do seu bairro, sua cidade, e seu país. Mentes abertas, bem informadas e incentivadas ao questionamento produzem inovação. E por aqui questionar é algo que incomoda.

A educação, portanto, deve acompanhar o desenvolvimento do território, pois ela envolve mais que os aspectos economia e trabalho. Ela deve dialogar com a história, o presente e preparar para o futuro do território.

Eis a grande questão: o que fazer? Continuar reproduzindo o modelo de educar para o trabalho? Mas como encaixar a criatividade nesse formato? Ou seria melhor mudar a direção, e pensando no longo prazo? Mas adiaremos ainda mais as possibilidades de crescimento/desenvolvimento (no sentido da economia)? Qual o preço a se pagar em cada caso?

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REFERÊNCIAS (clique nos títulos para acessar)

ARDINAT, Gilles. Competitividade, símbolo dos paradoxos da globalização. Le Monde diplomatique Brasil. Ano 6, número 63. outubro de 2012. pág.16-17.  
FELDMANN, Paulo Roberto As causas do atraso. Jornal da USP online, Ano XVII, no. 976, 10 de setembro de 2012. 
KUPFER, José Paulo. Mitos do atraso. O Estado de S.Paulo, Página Economia e Negócios, Blogs Estadão, 22 de outubro de 2012.

Confira as postagens com os vídeos da série "Destino: educação", da TV Futura em parceira com o SESI, onde são apresentados relatos sobre a educação em cidades participantes do PISA (clique nos títulos para acessar).

Breve exemplo entre o debate político e as necessidades nacionais
Ideias para a Educação I - Xangai
Ideias para a Educação II - Finlândia
Ideias para a Educação III - Chile
Ideias para a Educação IV - Coréia do Sul
Ideias para a Educação V - Canadá
Ideias para a Educação VI - Brasil

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