segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O velho Graça - 120 anos

por Julio Canuto


Neste ultimo sábado, 27 de outubro de 2012, foi comemorado os 120 anos do nascimento do escritor alagoano Graciliano Ramos, o velho Graça. A data tem eventos e publicações. Deixo como dica a biografia "O velho Graça", de Dênis de Morais, publicada pela Boitempo Editorial, em nova edição revista e ampliada (a primeira foi publicada em 1992, pela editora José Olympio). A biografia traz imagens até então inéditas e uma entrevista de 1944 ao jornalista Newton Rodrigues, na qual afirmava: "o que se lê entre a massa é o folhetim".

Autor de várias obras de nossa literatura, dentre os quais estão os clássicos Vidas Secas, S.Bernardo e Angústia, o velho Graça era também jornalista e político. 


Avesso a entrevistas e direto em suas respostas, sempre utilizando-se com sabedoria das palavras, Graciliano é um dos maiores escritores brasileiros - e o meu preferido.
"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."

Foi prefeito de Palmeira dos Índios, em Alagoas, por dois anos (1928-1930). Dai também minha simpatia pelo escritor, já que sou filho de alagoanos desta mesma cidade. E mais, foi através de Graciliano que passei a me aprofundar na minha história de vida, de uma vida que vem antes do meu nascimento, das minhas referências, das terras por onde minha família vivia - e uma parte vive ainda hoje. Foi em Infância que tive o estalo: "acordei, reuni os pedaços de pessoas e de coisas, pedaços de mim mesmo que boiavam num passado confuso".

É reunindo as histórias contadas por meus pais - que muito jovens saíram da cidade -, pesquisas na web e a leitura atenta as obras de Graciliano que vou descobrindo minha identidade, procurando entender a idas e vindas da vida, entender meu lugar no mundo e porque aqui estou. Assim também passo a treinar meu olhar para compreender coisas além de mim, passo pela política, pelas nossas questões sociais, pela cultura. Enfim, por toda a multiplicidade de que somos feitos. Como o próprio Graciliano dizia: "nunca pude sair de mim mesmo. Só posso escrever o que sou. E se as personagens se comportam de modos diferentes, é porque não sou um só."

Por isso a reedição da obra de Dênis de Moraes é especial, pois me permite dar um grande passo na compreensão do contexto social na Alagoas das primeiras décadas do século XX.


Importante também porque apresenta a multiplicidade dessa história humana.

Diz o autor na introdução:
"O romancista, consagrado aqui e no exterior, talvez não precisasse tanto de explicação; ensaios e teses acadêmicas não param de esquadrinhar os diferentes aspectos de sua obra. Mas e o homem? Não era suficientemente conhecido, sobretudo pelas novas gerações. O que se escondia atrás do rosto vincado e da pena seca e direta, descarnada? Que pontos de interligação existiam entre o menino traumatizado pelas surras na infância, o jovem autodidata que lia Honoré de Balzac, Émile Zola e Karl Marx em francês, o mítico comerciante da loja Sincera, o revolucionário prefeito de Palmeira dos Índios, o zeloso diretor da Imprensa Oficial e da Instrução Pública de Alagoas, o preso político no inferno da Ilha Grande, o escritor sufocado por apuros financeiros, o estilista da palavra  na redação do Correio da Manhã e o militante comunista aos esbarrões com o stalinismo cultural?O cruzamento de itinerários tornou-se indispensável para traçar um perfil biográfico capaz de refletir, como num jogo de espelhos, o somatório de vivências acumuladas. Porque o escritor que o habitou desde os primeiros sonetos, esboçados em pleno Agreste alagoano, não foi somente um criador: foi também uma história humana. Uma história de projeções e influências, de paradoxos e contrastes, mas sobretudo, de coerência na busca incessante do que é essencial à vida."
Comprei o livro na Livraria da Travessa e, para minha surpresa, veio com uma dedicatória do autor, que estará na livraria carioca (no Leblon) no dia 27 de novembro para lançamento e debate do livro.

Abaixo texto de Alfredo Bosi, publicado na orelha desta nova edição.


A reedição de O Velho Graça de Dênis de Moraes atesta não só a presença cada vez mais forte e resistente de um dos maiores narradores de nossa literatura como o alto mérito do seu biógrafo.

Dênis de Moraes aprendeu com Graciliano que o culto da verdade histórica (apesar dos fáceis relativismos do discurso pós-moderno) é um imperativo ético inescapável. Ele construiu, em O Velho Graça, uma biografia com todo o rigor da documentação e dos depoimentos pessoais que o seu projeto requeria. Temos um Graciliano sem retoques: duro, mas apaixonado; frio e áspero na superfície da fala e do gesto, mas ardente e sempre humano na fonte da vida pessoal, que se chama coração. Não por acaso o epílogo tudo resume: “O coração aberto para os homens”.

Dênis de Moraes traçou aqui o duplo itinerário do homem Graciliano: a paixão pela palavra nele precedeu e acompanhou a opção política que, por sua vez, transcendeu (mas jamais renegou) a adesão partidária. Algo de sólido e constante fez convergirem ambas as escolhas: a fidelidade ao compromisso com o homem brasileiro, visto ora na pobreza do migrante, ora na truculência do senhor rural, ora nos meandros escuros da sua intimidade, ora, enfim, na condição kafkiana de réu sem culpa formada.

Tudo se encontra nesta biografia, que é completa (na medida do possível), fiel, empática e, como a desejaria o velho Graça, escrita com sóbria simplicidade.

Como admirador incondicional da obra de Graciliano, faço votos para que este livro conheça não só a leitura de professores e estudantes universitários, mas de todos aqueles que procuram na literatura a expressão de nossa humana condição trabalhada na luta sem trégua pela palavra justa.


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