quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Diários (de Edgar Morin)

por Julio Canuto

No dia 30 de outubro, o sociólogo, antropólogo, historiador, geógrafo, filósofo e cidadão do mundo EDGAR MORIN (Paris, 1921) esteve no SESC Pompéia para o lançamento de três livros da série Diários de Edgar Morin.

Aos 91 anos, Morin é considerado um dos maiores pensadores do século XX. Até mesmo pela sua formação pluridisciplinar, é conhecido pelo pensamento complexo, forma pela qual estuda o mundo contemporâneo, lançando mão das ciências biológicas, ciências físicas e humanas entre outras áreas do conhecimento.

Para Morin:
O problema do conhecimento é um desafio porque só podemos conhecer, como dizia Pascal, as partes se conhecermos o todo em que se situam, e só podemos conhecer o todo se conhecermos as partes que o compõem. Ora, hoje vivemos uma época de mundialização, todos os nossos grandes problemas deixaram de ser particulares para se tomar mundiais: o da energia e, em especial, o da bomba atômica, da disseminação nuclear, da ecologia, que é o da nossa biosfera, o dosvírus, como a Aids, imediatamente se mundializam. Todos os problemas se situam em um nível global e, por isso, devemos mobilizar a nossa atitude não só para os contextualizar, mas ainda para os mundializar, para os globalizar; devemos, em seguida, partir do global para o particular e do particular para o global, que é o sentido da frase de Pascal: "Não posso conhecer o todo se não conhecer particularmente as partes, e não posso conhecer as partes se não conhecer o todo (MORIN, E. Da necessidade de um pensamento complexo).

No meu entendimento, não é contrário a fragmentação do conhecimento, pois nos faz enxergar melhor cada parte. Mas ao mesmo tempo é impossível o conhecimento só com o fragmento. É necessário um esforço de contextualização que dê sentido ao todo.
Deveríamos, portanto, ser animados por um princípio de pensamento que nos permitisse ligar as coisas que nos parecem separadas umas em relação às outras. Ora, o nosso sistema educativo privilegia a separação em vez de praticar a ligação. A organização do conhecimento sob a forma de disciplinas seria útil se estas não estivessem fechadas em si mesmas, compartimentadas umas em relação às outras (MORIN, E. idem).
Sua principal obra é O Método, constituída de seis volumes e escrita durante mais de três dácadas, e aborda a complexidade humana e a epistemologia do saber. Ou seja, questiona e analisa a todo instante a validade do saber, dos métodos. Morin pesquisa, observa, mas também vive. As atividades não estão dissociadas.  

No evento, denominado "encontro com um caminhante" (vídeo no final da postagem, com tradução em português), Edgar Morin falou sobre seus diários. Os diários são também fonte de conhecimento, pois possibilita o registro de eventos - até mesmo os banais - no exato contexto de seus acontecimentos.

O tema é muito interessante e atual, pois o que são as redes sociais e blogs senão diários eletrônicos abertos a todos? Mesmo as redes sociais, marcada pela interação de cada membro da rede, mostra comportamentos, pensamentos, ideais, que mesmo quando não são reais (quando muitos procuram mostrar uma vida perfeita e feliz, por exemplo), registram os valores compartilhados em determinado momento, muitas vezes antagônicos. Os blogs também. Este, por exemplo, que já tem sete anos, possui registros que marcam épocas. Nas minhas 237 postagens, certamente ha as que hoje eu mesmo não concordo mais. Mudei de opinião. No entanto, não é por isso que vou retirá-las. Datadas, elas marcam claramente (para mim) os contextos em que foram escritas e me permitem o exercício de analisar o meu processo de evolução do pensamento. Me fazem refletir, não renegar. Ha  sentidos para cada escolha de tema, da forma como foram abordados e escritos. Em ambos os casos, não se trata "apenas" de observação e reflexão, mas de ação.

Voltando a Morin, os três diários publicados remetem aos anos de 1969, 1994  1995, respectivamente intitulados Um ano de Sísifo, Diário da Califórnia, e Chorar, amar, rir, compreender. Clique AQUI para acessar a coleção no site da Loja SESC e saber detalhes de cada um.

Abaixo o texto de Emilio Roger-Ciurana, publicado na orelha de Chorar, amar, rir, compreender.

Na tradição de Michel de Montaigne, a obra que o leitor tem diante de si não é um olhar frio sobre o mundo, não é um simples anotar em diário eventos que ocorrem no mundo e acontecimentos que ocorrem ao autor no viver cotidiano: desde assuntos de saúde e domésticos a viagens, conferências, debates, congressos etc. O livro trata de algo mais importante: Edgar Morin olha o mundo, olha a vida e vive. Trata-se de um olhar e viver que são reflexos de sua enorme complexidade, universalidade e da concretude da condição humana. Morin afirma-se na vida e afirma a vida: frente aos acontecimentos do mundo faz sentido chorar, amar, rir, compreender. Trata-se de viver a vida em sua multidimensionalidade e complexidade, em sua ordem e sua desordem. Trata-se, no cotidiano, de resistir à barbárie humana de uma época bárbara, cruel, devido a uma incapacidade generalizada de ver a vida e o mundo além da linearidade, previsibilidade e fragmentação. Resistir à insensibilidade e à crueldade que se estendem por toda a parte.

Compreender a vida e a condição do ser humano no mundo requer um pensar complexo que nem mesmo as ciências da complexidade alcançam, pois epistemologicamente se concebem de forma tradicional. Compreender a vida e a condição política do homem requer uma política de civilização reivindicada ao longo deste livro, no qual o leitor sagaz e atento poderá entrever mais de uma conjectura do que depois virá a escrever Morin em outros livros de forma mais explícita, sobretudo nos textos em que propõe, enuncia, uma via para mudar de via, quer dizer, para sair da crise civilizacional generalizada da qual o que mais falta é saber pensar a crise e ter vontade de efetuar as necessárias reorganizações em nossa forma de viver, de desejar, de pensar. É necessário, portanto, compreender. Compreender que a incapacidade de praticar uma política de civilização desemboca em males econômicos, sociais, ecológicos, individuais... Desemboca em uma desumanização geral. A barbárie em escala global de nossa época é uma mostra da falta de uma política global de civilização, na qual o humano esteja acima dos mercados, das finanças, do dinheiro... É necessário, em suma, mudar nossos esquemas mentais e, portanto, mudar a forma de educar.

Lida sob a perspectiva do tempo, mais de 15 anos depois, a obra tem hoje o mesmo valor de atualidade em suas reflexões: a barbárie humana se estende por todas as partes. As cegueiras humanas, ecológicas, burocráticas, econômicas, científicas, políticas, intelectuais etc, confluem com a cegueira antropológica global que nos incapacita de nos vermos como seres humanos tripulando um mesmo barco para o qual não há outro de reposição. Cegueira antropológica, epistemológica, moral, que nos insensibiliza frente à crueldade do mundo, frente à barbárie dos fundamentalismos econômicos, religiosos, nacionalistas. Incapacidade de autorreflexão e de autoquestionamento. Incapacidade de inteligência dialógica. Reducionismos generalizados.

Frente à vida teledirigida, os medos criados, as incapacidades educadas, trata-se de caminhar um caminho incerto, como a vida, como o viver. Trata-se de compreender, frente à abstração irracional de uma concepção absolutamente racionalista do ser humano, que o ser humano é como nos mostra Montaigne, Cervantes, Rebelais e o próprio Morin: uma mescla de sabedoria e demência. No cotidiano, no insignificante, no trivial da vida às vezes há também o profundo. Entre os debates, as pelêmicas, a reflexão viva sobre os problemas globais do momento, a reflexão viva sobre a complexidade das relações humanas, o leitor não só acompanhará nesta obra um processo de desdobramento observador/observado no autor, não só percebe uma mostra da subjetividade, o leitor percebe o que podemos denominar, sem medo de nos equivocarmos, um ensaio de antropologia do presente.



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