sábado, 8 de dezembro de 2012

Consumo para a sociabilidade

por Julio Canuto


Neste blog o tema consumo já foi por muitas vezes discutido. Uma das postagens que mais teve acesso é a que trata do consumo e status. Hoje, porém, sem perder o conteúdo crítico, publico um trabalho que fiz como avaliação de uma disciplina na pós graduação, no qual falo do consumo sob a ótica da sociabilidade. 

Os textos trazem reflexões que indicam implicitamente a importância do consumo consciente.



CONSUMO PARA A SOCIABILIDADE: qualidade, modos, tendência.


Matilha Cultural. Espaço cultural com entrada gratuita. Eventos diários.
Rua Rego Freitas, 542. Centro de São Paulo. 01/11/2012, quinta-feira. “Notas reais”.

Texto 1: foto e primeiras ideias.

Consumo de artes plásticas, musicais e cinematográficas, cores, formas, sons graves e agudos, improviso, jazz, poesia, vozes, idéias, informações, conversas, comidas e bebidas, mensagens, estilos, símbolos. Não se paga para entrar, não se paga pelas artes, não se paga pelos encontros... ou se paga?


sociabilidade 
s. f.
1. Qualidade do que é sociável.
2. Modos de quem vive em sociedade.
3. Tendência para viver em sociedade.



Texto 2: a partir da bibliografia e discussões em sala de aula.

1. Qualidade do que é sociável.
O consumo é inerente à vida do Homem.
No mínimo, consumimos alimentos, que se não os temos à disposição precisamos trocar por outros alimentos, objetos ou dinheiro, que por sua vez é trocado por trabalho.
O trabalho é o gerador de Cultura. Isto é, modos de pensar, agir e reproduzir compartilhados por um grupo. Grupo que é formado por pessoas associadas. Isto é, que aceitam e legitimam uma Cultura.

2. Modos de quem vive em sociedade.
Nas chamadas sociedades complexas, compartilhamos inúmeros valores, dentre os quais a liberdade individual. Mas os indivíduos não são apenas eles mesmos. São formados das relações, objetos, pessoas, pensamentos, linguagens, imagens e geografia que os cercam.

Não seríamos seres humanos, indivíduos humanos, se não tivéssemos crescido num ambiente cultural onde aprendemos a falar, e não seríamos seres humanos vivos se não nos alimentássemos de elementos e alimentos provenientes do meio natural (Edgar Morin).

Eu sou eu e minhas circunstâncias (Ortega y Gasset).

Sendo assim, consumimos mais do que percebemos consumir. E o consumo nos dá identidade. Ou identidades, pois somos seres múltiplos, transitamos por vários ambientes.

3. Tendência para viver em sociedade.
Em outras palavras, o consumo não é só o ato de pagar para possuir, como o recorte da crítica da sociedade de consumo mais comum e que denuncia o consumismo como os desejos e impulsos fabricados. Podemos pensar num sentido contrário, qual seja: as empresas criam seus produtos para se adaptar a certos gostos, desenhando-os pelo estudo de hábitos de consumo (entre outros), que envolve todas as características socioeconômicas, demográficas e... culturais. E que vão gerar produtos sob medida (até para os grupos que criticam o consumo). É quando os grupos se tornam nichos de mercado.
Repare novamente na imagem. A maioria dos frequentadores do espaço aberto ao público são jovens, possuem semelhanças nas suas preferências por manifestações artísticas, e compartilham alguns símbolos e produtos: não se vê mulheres com saltos; não se vê homens de sapatos; há muito tênis, jeans, algodão; nas mesas do outro lado do espaço há pessoas com notebooks; no bar há cervejas, vinhos, comidas vegetarianas; os banheiros são compartilhados por homens e mulheres; etc...  
Quanto custa ser frequentador? 

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Citações:
Edgard Morin. Da necessidade de um pensamento complexo. Disponível em: http://www.edgarmorin.org.br/textos.php?p=6&tx=19
Jose Ortega y Gasset. Meditações do Quixote. São Paulo: Iberoamericana, 1967.


Nota explicativa: com este trabalho procurei mostrar que o conceito “consumo”, pela sua abrangência, pode ser tomado sob vários aspectos, incitando as mais variadas discussões.
O consumo é uma das premissas de nossa organização em sociedade. Se pensarmos na evolução da sociedade que possui a ideologia dominante (a sociedade ocidental), notamos que o domínio sempre teve em sua base a organização política (incluindo a ordem religiosa) e as formas de reprodução através do trabalho. Seja para a inovação tecnológica, seja para a exploração de povos e, consequentemente, a imposição de uma Cultura.
Na forma de organização política, está a legitimação do predomínio de poucos sobre muitos, quer seja uma monarquia, quer seja uma democracia; na forma da organização religiosa, está a legitimação dos valores sagrados, quer seja com a associação aos reis nas antigas monarquias, quer seja nos estados teocráticos atuais, quer seja o templo moderno do consumo (bens posicionais – status – valor social); na forma da organização do trabalho esta a criação de tecnologias para observar o cosmo, navegar por mares e oceanos, aprimorar as ferramentas de plantio e colheita, ou o aperfeiçoamento de armas para garantir a dominação de outros povos e outras Culturas.
O consumo pode assumir o valor do sagrado na sociedade. Porém, não podemos nos esquecer que os valores criam formas de consumo que sempre satisfazem uma ordem social.
No contexto da disciplina Comportamento do Consumidor e Psicologia de Grupos e Indivíduos, procurei mostrar como o consumo está atrelado a nossa formação como indivíduo, grupo e sociedade. Isto é, nossa identidade e como condição para a sociabilidade. Embora tenha escrito o texto com base na bibliografia e principalmente em nossas discussões em sala de aula, não fiz referências diretas aos textos e autores. Como método, procurei utilizar a inversão da tradicional observação participante, lançando mão de uma “participação observante”, uma vez que sou frequentador do espaço analisado.

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