quinta-feira, 9 de maio de 2013

Dúvidas...

por Julio Canuto


Nesta semana uma notícia no blog de Diego Zanchetta, no Estadão, trouxe uma informação que todos que estão antenados a cultura já sabia: "Organizadores do ‘Existe Amor em SP’ entram para o governo do PT". Segundo o jornalista, 
O prefeito Fernando Haddad (PT) levou para seu governo alguns dos jovens que organizaram no ano passado o Festival Existe Amor em SP, evento que levou cerca de 10 mil pessoas para a Praça Roosevelt, no centro paulistano. Na época, os integrantes da festa tinham como um dos bordões “Fora Russomano”, então segundo colocado nas pesquisas na disputa das eleições municipais, à frente de Haddad.
[....] O prefeito também chamou integrantes de coletivos dedicados à cultura alternativa, como Matilha Cultural, Fora do Eixo e Voodoohop, para ter assentos no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e para conselhos da Secretaria Municipal de Direitos Humanos.
Pelo conteúdo da notícia, entendi que a turma, já com forte influência no governo federal, veio de caso pensado e articulou para que o candidato petista vencesse a eleição e que tivessem espaço privilegiado na administração pública municipal.

Nada disso, porém, me deixou surpreso ou mesmo inconformado. É o jogo político. O que me incomodou foi a infeliz frase do vereador Paulo Fiorilo (PT), comentando o assunto: "São coletivos que adquiriram expressão na cidade, e que merecem ser ouvidos". 

E o incômodo gerou questões:


Em primeiro lugar: o que é esta "expressão" que foi adquirida? Quem a define? Quem a legitima? 

Em segundo lugar: por que "merecem ser ouvidos"? Há então quem não mereça? Há quem não faça por merecer? O que define o merecimento?

Em terceiro lugar: e os outros coletivos que ha anos (décadas) vem promovendo a arte pelos bairros periféricos, na raça, com poucos recursos e sem o apoio da administração pública? Por acaso eles não têm "expressão"? Não "merecem" ser ouvidos?

Para quem quiser saber mais, a recente tese de Tiaraju Pablo D´andrea intitulada "A formação dos sujeitos periféricos: cultura e política na periferia de São Paulo" apresentada ao Departamento de Sociologia da USP, sob orientação da Professora Doutora Vera da Silva Telles tem um capítulo específico sobre os coletivos da periferia. Vale a pena a leitura, e muito mais a visita aos coletivos.

Enfim, tudo isso acirra os ânimos, provoca discussões, polemiza. Corre-se o risco, inclusive, de afastar as ações concretas do horizonte de grupos, coletivos e movimentos em seu diálogo com a administração pública.

Algo a se pensar seriamente. Momento de intensificar a ação.

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