segunda-feira, 20 de maio de 2013

A Virada ainda vira?

por Julio Canuto

Hoje pela manhã estava percorrendo os sites dos jornais para saber das notícias do dia e do final de semana, sobretudo da Virada Cultural, da qual nem havia visto a programação. No portal do Estadão, o título da notícia me chamou a atenção:  "SP tem Virada Cultural mais violenta; PM e Haddad culpam ‘vinda’ de ladrões". Como assim? - pensei.

No texto, a confirmação do meu espanto. Nas palavras do prefeito, publicadas na notícia:
"O comportamento das pessoas muda. Pessoas que não vinham vieram (à Virada, no centro) com propósitos diferentes", disse o prefeito Fernando Haddad (PT), ao comentar os resultados da primeira Virada de sua gestão. "Mas não podemos nos intimidar. Temos de ir para as ruas." A seu lado, o coronel Reinaldo Simões Rossi, comandante da PM, disse que o efetivo policial deste ano foi o maior de todos – 3.424 homens da corporação (350 a mais do que no ano passado) e 1.400 guardas-civis. "A PM tem expertise em policiamento de multidões. O comportamento dos protagonistas dos roubos, contudo, transcende qualquer planejamento", disse (ESTADÃO, 19 de maio de 2013|21h33m).

Com este recorte e ao lado do comandante da PM a frase do prefeito dá margem para várias interpretações e algumas dúvidas:  "pessoas que não vinham vieram com propósitos diferentes". Ao colocar a culpa nos de fora que vieram o prefeito afirma que a Virada é um evento excludente? De onde vieram estes com outros propósitos? Sendo de fora, só pode ter vindo das regiões onde não há a Virada. Aliás, há que se registrar que em 2007 (o único ano que me lembro) as atividades da Virada Cultural foram estendidas aos CEUs, nos bairros da periferia da cidade de São Paulo, mas não teve continuidade.

O governador se manifestou afirmando que "Precisamos verificar os locais em que são feitos. Tanto Estado como a prefeitura devem se debruçar nesse trabalho." (FOLHA DE S.PAULO, 20/05/2013|17h25).

Fico pensando quais serão as ações para prevenir que assaltos e demais cenas de violência voltem a acontecer nos locais onde acontece a Virada Cultural. Será que vão copiar o padrão FIFA e cercar as ruas, com entrada controlada? Neste caso, que sentido faria a Virada? 

Claro que isto é só uma provocação, mas é por essas e outras que já não vejo nenhuma graça na Virada Cultural. Nem ao menos me interesso em ver a programação - apesar de receber em mãos.

Em primeiro lugar: centralizar as ações no centro. Parece redundância, não? Mas infelizmente não é. Os bairros da periferia não receberam nenhuma "atração" da Virada. Tampouco seus artistas e coletivos de arte tiveram espaço, ou se tiveram foi muito pouco. 

Em segundo lugar: o orçamento. Cerca de R$10 milhões são gastos para preparar a Virada Cultural, um evento de 24 horas. A título de comparação, o Programa de Valorização de Iniciativas Culturais - VAI, tem orçamento de R$4 milhões, divididos em projetos de no máximo R$25.500,00 e prazo de execução em oito meses (em uma conta rasa, são até 156 projetos financiados no valor máximo por edital). Ou seja, com os R$10 milhões daria para incentivar 390 projetos.

Em terceiro lugar: Prefeitura, de que "cultura" vocês estão falando? É espetáculo? É número? É o que?

Podem até argumentar que os R$10 milhões são revertidos em gastos dos frequentadores no comércio, na arrecadação de impostos, e até mesmo na apropriação do centro da cidade pela população de todos os cantos da cidade - "óia como disse bunito agora, hein?". Mas todos esses benefícios não poderiam ser convertidos em ações nos locais onde não há equipamentos de cultura, ou para os coletivos que bravamente produzem arte nas periferias, ou de maneira permanente para que se estruture o fazer artístico, o olhar crítico e a criatividade em todas as regiões da cidade? Sem contar que a população diariamente transita pelo centro da cidade, pois é lá que os empregos estão centralizados. Eu, aqui na periferia, não tenho saco para me deslocar até o centro nos finais de semana, embora as vezes faça esse trajeto por falta de opções no extremo.

Enfim, esses são apenas os pensamentos que me arrastaram a mente enquanto lia as notícias da Virada.

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